Sementes Urbanas: artistas indígenas usam o audiovisual para falar de retomada e vivências na cidade

Foto colorida de Maiara Astarde, Vicka Tupi e Karol Kaysá. Criadoras do Sementes Urbanas, as três são mulheres indígenas e aparecem uma ao lado da outra, vestidas com adereços que remetem à sua cultura

Projeto reúne três mulheres que transformam experiências pessoais em um espaço de escuta, troca e reconstrução de laços ancestrais

Por Nathalia Ferreira | ODS 10
Publicada em 8 de abril de 2026 - 09:13  -  Atualizada em 8 de abril de 2026 - 09:57
Tempo de leitura: 17 min

Foto colorida de Maiara Astarde, Vicka Tupi e Karol Kaysá. Criadoras do Sementes Urbanas, as três são mulheres indígenas e aparecem uma ao lado da outra, vestidas com adereços que remetem à sua cultura
Vicka Tupi (esquerda), Maiara Astarde (centro) e Karol Kaysá (direita) usam o audiovisual para ampliar o debate sobre a retomada indígena (Foto: José Luis / Sementes Urbanas)

Maiara Astarte, Vicka Tupi e Karol Kaysá. Três mulheres, cada uma com sua trajetória e vivências, mas com o mesmo objetivo: levantar a discussão por meio do Coletivo Sementes Urbanas sobre a retomada indígena. Elas sentiram a necessidade de ampliar o letramento em um espaço onde suas próprias histórias e as de outros parentes pudessem se conectar, além de desmistificar estereótipos que não condizem com a realidade cultural desses povos. 

Com videocasts, idas às aldeias e diálogos, as artistas têm construído narrativas para o meio digital. O projeto audiovisual levanta reflexões sobre a vivência dos indígenas na cidade, o que ajuda a enfatizar que eles resistem e se reconstroem onde quer que estejam. 

O termo retomada remete a uma prática dos povos indígenas, na maioria das vezes, associada com conflitos fundiários e a luta por demarcação de terras. Junto com a buscar por recuperar um território, a ideia de retomada também está ligada com as relações culturais, espirituais e cosmológicas com o ambiente, em uma tentativa de fortalecimento da identidade e da ancestralidade.

Para Vicka Tupi, é urgente ampliar o debate sobre a retomada e quebrar o estereótipo do “indígena exótico”, como se existisse um único modo de preservar suas tradições e identidade. “As pessoas têm dificuldade de nos enxergar fora da aldeia. A retomada é justamente uma reconexão com essa visão originária e integrada de mundo. É um caminho que não acabou, está em processo aberto”, explica.

O início do Sementes Urbanas

A ideia da retomada proposta pelas três jovens artistas surgiu durante um momento de espiritualidade em uma ida à cachoeira, em 2024, quando consagraram a medicina do cogumelo. O uso desse tipo de planta é uma prática comum em diferentes tradições indígenas, associado também ao sagrado.

Nesse contexto, elas entenderam que podiam e precisavam criar algo juntas para compartilhar suas experiências que, mesmo individuais, eram semelhantes. O encontro deu início a uma pesquisa sobre viver a ancestralidade indígena mesmo fora da aldeia e as formas de restabelecer laços rompidos pelo apagamento. 

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“Foi um dia muito iluminado, quando decidimos criar o coletivo. A gente precisa falar, comunicar com as pessoas, e nós não podíamos guardar isso para a gente”, conta Maiara. 

Éramos indígenas, mas, a partir do momento em que estamos na cidade, fomos ‘civilizados’ e deixamos de ser. Essa é a estratégia do Estado e da sociedade: o início do apagamento

Karol Kaysá
Artista indígena

“Apesar de estarmos juntas, estava cada uma com a sua conexão, em um canto da cachoeira e depois quando fomos conversar, vimos que muita coisa se interligava. Então os Sementes Urbanas, ele realmente é um presente dos encantados, das nossas ancestrais, e eu sinto que estamos sendo usadas para realizá-lo. Transformar essas inquietações em arte”, completa Karol Kaysá. 

De acordo com Vicka Tupi, naquele encontro elas saíram com uma certeza: “A gente tinha que fazer acontecer de qualquer jeito. Ainda bem que conseguimos por meio de fomento, mas, se não fosse, íamos começar de qualquer forma, porque a mensagem tinha que ser passada”. 

Foto colorida de Maiara, Vicka e Karol sentadas em um sofá e segurando desenhos da marca do seu coletivo
Com o coletivo Sementes Urbanas, as artistas produzem um videocast de quatro episódios que aborda a retomada indígena nos contextos urbano, político, educacional e espiritual (Foto: Arquivo pessoal)

Edital e primeiras ações

O ponto de partida ocorreu quando inscreveram o primeiro projeto como coletivo em um edital de incentivo à cultura. O fomento permitiu uma extensa pesquisa com povos de diversas realidades, discutindo o pertencimento indígena em diferentes contextos. 

“Fomos aprovadas no Proac (Programa de Ação Cultural do governo do Estado de São Paulo) e pudemos executar uma série de quatro episódios sobre a retomada indígena no contexto urbano, na política, arte, educação e um pouco da nossa espiritualidade também”, detalha Maiara.

Segundo Kaysá, o coletivo Sementes Urbanas também tem o objetivo de ser uma rede de apoio e um espaço seguro. “Não viemos com o intuito de trazer respostas, acredito que nesse processo de retomada não tem nenhuma resposta pronta, pelo contrário, são muitas as perguntas. Então a gente se coloca nesse lugar, chamando quem também tem suas perguntas para se aproximar, trocar experiências, refletir e questionar juntos”.

Com a retomada indígena, eu comecei a me amar e também os meus traços

Maiara Astarte
Artista indígena

O resultado das conversas reafirma o propósito do grupo. “Foi muito positivo o feedback das pessoas, seguindo a página, se identificando e se informando por meio do conteúdo que estamos passando ali. Estamos muito realizadas e gratas. A gente conseguiu!”, revela Vicka. 

Por meio do Sementes Urbanas, elas também mobilizaram uma vivência na Aldeia Tekoa Pyau, localizada no bairro do Jaraguá, em São Paulo, para um grupo de 15 pessoas. “Muitas pessoas não faziam ideia de que lá era uma aldeia, no espaço urbano, e ficaram muito felizes com a cosmovisão dos povos que estão habitando aquele espaço. Foi o dia inteiro, com práticas, comida, contação de histórias e conhecendo a cultura Guarani”, lembra Maiara. 

Foto colotida de Maiara Astarte. Ela tem cabelo preto, logo e liso, pele morena e olha para a frente
Maiara Astarte, indígena maranhense em retomada do povo Guajajara, é atriz, roteirista e diretora premiada. Usa o audiovisual como ferramenta de resistência e fortalecimento da identidade indígena no Brasil (Foto: Arquivo pessoal)

A história das mulheres do coletivo

Enquanto algumas pessoas conhecem sua origem familiar, mais da metade da população brasileira vive outra realidade. A colonização apagou parte da história de milhares de indígenas, povos originários que já habitavam o território com sua cultura, espiritualidade e cerca de 1.100 línguas. 

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O impacto persiste com desigualdade, racismo e em pessoas que desconhecem sua própria ascendência. Foi o que aconteceu com Maiara Astarte, nascida em São Luís, no Maranhão. A atriz conta que sua infância foi dividida entre os municípios de Codó e Itapecuru, morando boa parte do tempo com a avó para ajudar a mãe. 

“Nos povoados em que vivi, era um formato de ‘aldeia’, com esse jeito coletivo de se criar, as histórias contadas, a brincadeira na rua e no quintal. Por morar na periferia, tínhamos dificuldades com água e alimentação; nossa comida era muito da terra, de coisas que os vizinhos plantavam e dividiam. Tínhamos muito cuscuz, mandioca, mingau de milho e, às vezes, carne de caça ou peixe. Cresci com esse universo”, recorda.

O despertar pela arte surgiu na infância, influenciado por novelas e brincadeiras em que Maiara fingia ser apresentadora de TV. No entanto, o desenvolvimento profissional veio na fase adulta. “Eu vendia bijuteria e artesanato na escola. Sempre fui boa com as mãos. Minha primeira formação foi em administração porque eu queria mudar minha realidade, dar conforto para minha família”, explica. 

A maranhense começou a estudar teatro ainda na faculdade: “Foi paixão na primeira aula. Um ano depois, ia apresentar uma peça egípcia e, na coxia, descobri o que queria para minha vida: ser atriz”. 

Aldeia Maracanã

Com o sonho de viver da arte e conhecer o mundo, ela se mudou para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades no audiovisual. Foi nessa época, aos 24 anos, que passou a questionar sua origem. Como as últimas gerações de sua família já estavam fixadas no contexto urbano, pouco se falava sobre as raízes. 

“Quando cheguei ao Rio, houve um choque. No Maranhão temos um fenótipo parecido, mas lá as pessoas diziam que eu tinha ‘cara de índia’. Outro alerta foram os papéis designados a mim: era sempre a empregada ou a mulher da periferia. Decidi que queria escrever minhas próprias personagens”, conta.

Nesse período, Maiara conheceu a Aldeia Maracanã. Sua curiosidade aumentou ao ouvir comentários sobre seus traços. “Lá encontrei vários parente do Maranhão que também descobriram a história familiar tarde devido ao apagamento. Foi um grande encontro; pude aprender sobre racismo, cultura e espiritualidade”.

Na aldeia, a intérprete sentiu-se acolhida. “Me identifiquei com o jeito de falar e as piadas. Com a retomada indígena, eu comecei a me amar e também os meus traços”. Maiara pesquisou sua origem por aproximação geográfica e étnica: “O povo Guajajara habitava a região dos meus antepassados”. 

Ela reforça que a ancestralidade guia seu trabalho: “Sou da terra, do vento e dos elementos. Gosto de ouvir e aprender com os encontros”. Sobre as questões sociais, Maiara mantém o foco na resistência: “Viemos das margens. Se não abriram uma janela, eu vou furar a parede para criar uma para mim”, afirma.

Atualmente, a atriz não enxerga esses papéis com inferioridade. “Tenho consciência do que a personagem representa. Tudo isso me leva a ter mais espaço para comunicar e falar com mais pessoas”.

Foto colorida de Karol Kayá. Ela é uma mulher indígena, com cabelo preto liso. Ela está sorrindo e usa uma blusa preta com um colar. Fundo preto
Karol Kaysá, indígena, atriz, produtora cultural e arte-educadora, atua entre Guarujá e Santos na cena periférica. Cofundadora de coletivos, fortalece a cultura e a resistência por meio de ações comunitárias (Foto: Arquivo pessoal)

Retomada na periferia

Karol Kaysá, por exemplo, cresceu ouvindo sobre sua ascendência, mas como algo que pertencia apenas ao passado. “A forma como era falado para a gente era como se fosse algo antigo. Éramos indígenas, mas, a partir do momento em que estamos na cidade, fomos ‘civilizados’ e deixamos de ser. Essa é a estratégia do Estado e da sociedade: o início do apagamento”, afirma. 

Sua família saiu do Nordeste rumo ao litoral de São Paulo, onde a artista enfrentou diversos obstáculos, mas sempre cercada por elementos que a aproximavam de sua identidade. Criada no Morrinhos, periferia do Guarujá, sua infância foi marcada pelo brincar na rua e pela ajuda mútua entre vizinhos. “A favela e as periferias também são aldeias, também são quilombos. Nossos corpos e nossas histórias continuam ocupando esses espaços”, reflete. 

A vivência de Karol também foi atravessada pela dor e pelo silenciamento. “Minha família carrega uma história de muita dor. Lutamos para sobreviver. Meu tio e meu irmão mais novo foram assassinados. Comecei a entender que as escolhas do meu tio foram formas de resistir a um sistema opressor”, conta. Para ela, o que acontece hoje é reflexo direto do que “os ancestrais viveram no passado”. 

Desde criança, a arte-educadora colocava a mão na tela da televisão com o sonho de “atravessá-la”. Mesmo sem acesso imediato a espaços culturais, o desejo de atuar persistiu até que ela ingressou em uma escola pública de teatro em Santos, onde se formou. “Minha forma de comunicação sempre foi a arte, seja na expressão corporal ou verbal. É o meu caminho de conexão com a ancestralidade; sinto que me guiam para passar essa mensagem adiante”.

Espiritualidade

No processo de retomada, ela conheceu diferentes etnias e defende que o contato direto com os territórios fortalece quem vive no contexto urbano. “Não existe retomada identitária sem a base, sem pisar no solo e ter contato direto com a cultura. A força da encantaria está presente ali, independentemente do povo, pois cada etnia tem sua singularidade e espiritualidade”, explica. 

Sua primeira vivência em um ritual sagrado foi um divisor de águas. “Quando consagrei a ayahuasca em território indígena com o povo Tupi-Guarani, visualizei meu próprio nascimento e parto. Dali em diante, senti que nasci de novo”, revela Karol. 

Hoje, a artista enfatiza que seus projetos são sempre coletivos, pois acredita que “nada se constrói sozinho”. Para ela, a arte reafirma identidades e abre caminho para narrativas indígenas em qualquer espaço. Ao trabalhar com crianças e jovens, Karol busca “plantar sementinhas” de pensamento crítico e ancestral. “Meus trabalhos sempre trazem as questões de território, memória e a nossa relação com a natureza”, complementa.

Foto colorida de Vicka Tupi. Ela é uma mulher indígena, de cabelo preto, longo, ela olha para a frente com expressão série. Ela usa uma blusa azul, com um colar com detalhes brancos e pretos. Fundo azul
Vicka Tupi, atriz e modelo. Tupinambá em movimento, constrói sua trajetória entre Salvador e São Paulo. No teatro e no audiovisual, transforma vivências em narrativas que reafirmam identidade e território (Foto: Arquivo pessoal)

Teatro e enfrentamento ao racismo

A conexão com a ancestralidade pode se construir por diferentes experiências. No caso de Vicka Tupi, esse processo teve início na Bahia, onde nasceu. Sua entrada no mundo das artes ocorreu por meio de um projeto social de dança e, desde cedo, o audiovisual chamava sua atenção. Aos 14 anos, iniciou no teatro. De família humilde, a baiana contou com o incentivo da avó professora, que priorizava a educação. 

“Em casa, sempre ouvimos histórias de que éramos descendentes de ‘índio’ pelos dois troncos, como chamavam: o da minha avó e o do meu avô da parte materna. Sempre soubemos disso, mas não era uma questão identitária, pois vivíamos em Salvador há gerações”, explica. 

A trajetória de Vicka foi marcada por racismo e discriminação, sendo quase sempre a única pessoa racializada nos ambientes em que estava. “Eu frequentava locais em que era tida como um ser estranho. Salvador é entendida como um território de cultura africana, e muita gente apaga a presença indígena Tupinambá, que é o povo originário dali, do qual descendo. Embora haja uma cultura ‘afromígena’ forte, os espaços que eu ocupava eram muito embranquecidos”.

Segundo a artista, esse incômodo a fez utilizar a arte como ferramenta de reflexão. “A questão da identidade foi imposta pelo mundo, e não pela minha família. Isso me despertou para me expressar artisticamente e tentar combater esse cenário”.

Em 2019, durante as gravações de seu primeiro filme em Vitória da Conquista (BA), a intérprete conheceu o Pajé Aripuanã. “Foi um grande encontro. Ele me resgatou, me entendeu e me reconheceu como povo. Ele foi o responsável por me puxar para o movimento de reconhecimento e autodeclaração”.

No âmbito profissional, a atriz relembra as dificuldades enfrentadas no início da trajetória e como o processo de reconexão transformou sua relação com as oportunidades. “Muitas portas não eram fechadas para mim, porque elas nem chegavam a ser abertas. Eu não entendia o motivo, porque não estava em um nível tão diferente daquelas que conseguiam acessar. Mas, depois que começo a entender a minha raiz e afirmar ‘Sou isso mesmo’, ganho força no que estou expressando. E aí, as portas certas começam a se abrir”, reflete. 

Com uma notoriedade alcançada nas redes sociais, ela hoje utiliza sua voz para promover o movimento de retomada indígena e a defesa dos territórios. Vicka defende, sobretudo, a importância da autodeclaração: “Eu me declarei como pessoa negra durante muito tempo, mesmo conhecendo a história da minha família. Qualquer identidade é aceita, menos a indígena. O apagamento é brutal e nos invisibiliza de diversas contribuições, inclusive religiosas”. 

Além dos desafios identitários, Vicka ressalta a discriminação enfrentada em ritos urbanos. “Os Pankararu, que ocupam a favela do Real Parque, em São Paulo, eram perturbados pela polícia o tempo inteiro. Não podiam realizar seus rituais em casa porque achavam que era algo maléfico. Às vezes, não somos livres para exercer nossa cultura em ambientes coletivos porque eles não foram feitos para nós”, desabafa. 

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Nathalia Ferreira

Jornalista com pós-graduação em Social Media e MBA em Digital Business. Possui experiência em comunicação digital e redação jornalística com passagem no Notícia Preta e RedeTV!. Nathalia acredita que a comunicação deve dialogar com o social, as políticas públicas e a diversidade e, por isso, se dedica à construção de narrativas acessíveis, ancestrais, plurais e, sobretudo, transformadoras.

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