Por um Natal mais preto

O carro-chefe da empresa “Da Minha Cor”, de São Paulo, são as toucas de natação para cabelos crespos ou cacheados. Foto Reprodução do WhatsApp

Consumidores negros batalham para vencer o preconceito e encontrar produtos mais adequados às suas realidades

Por Gilberto Porcidonio | ODS 10 • Publicada em 23 de dezembro de 2020 - 09:30 • Atualizada em 29 de dezembro de 2020 - 09:34

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O carro-chefe da empresa “Da Minha Cor”, de São Paulo, são as toucas de natação para cabelos crespos ou cacheados. Foto Reprodução do WhatsApp

Antes da pandemia de Covid-19, a população negra brasileira consumia 1,7 trilhão de acordo com o estudo Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo, feita pelo Instituto Locomotiva, em 2018. Porém, quando analisamos os produtos oferecidos comércio afora (lojas) e adentro (e-commerce), percebe-se que esta população consumidora nem sempre — ou quase nunca — é levada em consideração nem mesmo neste período em que as compras ficam ainda mais intensas por conta das comemorações de fim de ano. Assim, pode-se dizer que o tema natalino clássico “Natal branco” (White Christmas), de Irving Berlin — que foi gravado por diversos artistas estrangeiros e brasileiros — toma uma nova interpretação por aqui. O Natal brasileiro ainda é branco, demasiadamente branco.

No início do mês, a produtora e cocriadora da PerifaCon Andreza Delgado havia comprado um par de fones de ouvido que custaram R$ 200. Por conta do arco do produto não ser facilmente adaptado ao seu cabelo black power, eles acabaram quebrando com pouquíssimo tempo de uso. Muito chateada, ela fez uma postagem em sua rede pessoal falando sobre o ocorrido e recebeu reações diversas, inclusive, de ódio. Essas pessoas que reagiram negativamente não entenderam que ela estava exercendo o seu direito de consumidora.

A produtora Andreza Delgado reclamou dos fones de ouvido, que comprados por R$ 200, que não se adaptaram ao seu cabelo black power. Foto Divulgação
A produtora Andreza Delgado reclamou dos fones de ouvido, que comprados por R$ 200, que não se adaptaram ao seu cabelo black power. Foto Divulgação

“Quando eu estou de black power, colocar touca ou capacete, por exemplo, sempre é uma grande questão. Eu acho isso muito louco porque o mercado tem se adaptado para pessoas com o cabelo grande e tal, porque é um incômodo, né? Não é uma falácia, uma parada fantasiosa, tanto que você consegue enxergar no post uma galera falando dessa dificuldade e tudo mais. Então seria bom que o mercado acompanhasse essas coisas e não fizesse um produto para um tipo só de pessoa”, disse Andreza.

A produtora, que utiliza muito os fones para as suas lives, analisa que, por conta desse racismo do mercado, pessoas negras em funções completamente diferentes acabam sentindo este mesmo tipo de problema: produtos que não foram pensados para terem negros como consumidores.

“A bailarina Ingrid Silva, por exemplo, precisou pintar a sapatilha dela porque, dentro da área de trabalho dela, não estava encontrando produto que a atendesse” diz Andreza sobre um assunto que já gerou até uma petição internacional. “Não estamos falando de uma parcela pequena da população. Acho muito louco a galera que fala pra gente se adaptar a uma situação só que, na real, é uma via de mão dupla. Por que é que essa galera não pode se adaptar à gente?”

É nesta saga de se achar e promover produtos inclusivos que segue o barbeiro carioca Bruno Matsolo. Criador da página Barbeiro Africano, que divulga imagens do continente negro como o berço de práticas relacionadas à estética, têm se dedicado diariamente. Morador de Campo Grande, na Zona Oeste do Rio, Bruno teve contato com a barbearia através de seu pai e passou a ver este trabalho como um complemento de renda a partir de 2018. Quando começou a ter contato, se apaixonou de vez pelo ofício e, ao mesmo tempo, passou a questionar as referências muito europeias — ou seja, brancas — do trabalho. Assim, seguiu o caminho oposto.

“Para o meu trabalho, eu tenho que procurar lojas especializadas em cabelo afro, caso eu precise de pente garfo mais largo ou esponja nudred (que forma mini dreads temporários no cabelo). Isso dá muito mais trabalho por falta de opções. As lojas especializadas são ótimas, mas não têm em todos os bairros do Rio. Falta termos mais acesso a locais e profissionais com consciência racial. Se eu pudesse, criaria acessibilidade de serviços de luxo para o povo preto, assim como existiu no passado”, relata Bruno.

Bruno Matsolo, criador da página Barbeiro Africano, reclama da falta de opções no mercado. Foto Divulgação
Bruno Matsolo, criador da página Barbeiro Africano, reclama da falta de opções no mercado. Foto Divulgação

E tem gente pensando nisso, sim. Em São Paulo, por exemplo, o empresário Maurício Delfino mora na cidade de Jandira, em São Paulo, e sempre trabalhou na área comercial. Há 20 anos, Maurício, que é negro, teve a primeira experiência de viajar para o exterior e, por isso, recebeu vários pedidos de encomenda das mulheres negras da família, já que o país não tinha produtos de beleza para elas. Depois disso, ele pensou que, um dia, quando fosse parar de trabalhar para os outros, iria investir em alguma ideia que estivesse ligada à sua pele ou ao seu tipo de cabelo. Em 2017, quando saiu da última empresa em que trabalhou, fez uma lista de tudo o que tinha trazido para a sua família e mapeou uns 50 produtos. Depois de uma seleção cuidadosa, ele criou, em 2018, a empresa Da Minha Cor com a peça que seria o seu hit: a touca de natação para cabelos crespos ou cacheados.

Para testar o novo empreendimento, Maurício entregou panfletos em salões especializados em cabelo afro. Em um sábado, o seu telefone toca:

“Era uma mãe de Osasco me dizendo, chorando, que estava no salão para retirar as tranças da filha porque a professora de natação dela disse: ‘ou tira as tranças ou não participa do campeonato de natação da escola’. Eu fui até ela, entreguei a touca e a menina acabou ganhando uma medalha de prata e outra de ouro. Em outro momento, uma mulher me disse que não podia ver um alambrado de piscina que chorava porque não sabia como que seu cabelo iria sair dela”, relata Maurício, que está investindo em toucas descartáveis para funcionários de saúde, gastronomia e esteticistas, uma linha de maquiagem exclusiva para a pele negra e, há dois meses, também em capelo de formatura próprio para cabelos afro:

“A única diferença do capelo comum é que ele tem uma tiara embaixo que é o que segura ele, e a borda em volta do chapéu é menor. Resolvi investir nisso porque vi que, pela primeira vez, tinha mais preto nas universidades federais do que brancos, por isso pensei que teria essa demanda e já estão começando a me procurar. Vejo que esses produtos quebram a barreira do comercial e se tornam culturais, pois falam de liberdade”.

E liberdade em um ano em que a rede Walmart desistindo de manter a bizarrice de se manter os produtos cosméticos para negros em locais trancados é uma palavra que define bem o momento. Nesta semana, a estudante Fatou Ndiaye, por exemplo — que teve destaque este ano por peitar os racistas do Liceu Franco-Brasileiro, onde estudava — postou, eu seu twitter, algo que fez o seu dia: uma caixa de curativos hipoalergênicos estilo “band-aid” que vinham na cor preta. É a liberdade de escolher produtos feitos para si. O verdadeiro livre mercado.

O chapéu de formatura ou capelo de formatura para cabelos afros pode ser a nova tendência do mercado. Foto Divulgação
O chapéu de formatura ou capelo de formatura para cabelos afros pode ser a nova tendência do mercado. Foto Divulgação

Gilberto Porcidonio

É repórter do jornal "O Globo" e sociólogo em formação pela PUC-Rio. Especializa-se em cultura e questões raciais. Como poeta, mantém o alter-ego Frederico Latrão e, como escritor, é um dos autores da coletânea "Larica Carioca", sobre os quitutes dos bares do Rio de Janeiro, além de manter o blog 'O Títere'.

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