Carniça, assaltante, traficante: o que os papéis de Babu Santana têm a nos dizer sobre o racismo?

Filmografia do ator, vencedor do maior prêmio do cinema brasileiro, foi assunto nas redes sociais e gerou discussões sobre o tema: 'O Brasil está tão fincado no racismo estrutural que não temos nome'

Por Laís Gomes | ods10 ods16 • Publicada em 13 de março de 2020 - 07:00 • Atualizada em 18 de março de 2020 - 18:13

Após uma rápida pesquisa no currículo do carioca de 40 anos na Wikipédia, é possível encontrar personagens sem nome e ligados com a violência (Foto/Reprodução)

“Quer saber quem é o Babu? Dá um Google”. Foi com essa fala, dita por Babu Santana – participante do BBB 20 – em conversa com o colega de confinamento Felipe Prior, que a vida e a carreira do ator se tornaram assunto no Brasil nos últimos dias. Após uma rápida pesquisa no currículo do carioca de 40 anos na Wikipédia, é possível encontrar os seguintes personagens vividos pelo artista na TV, sobretudo entre os anos de 2003 e 2011*: Chefe do Morro do Careca, Homem Mal Encarado, Arrombador, Assaltante, Carniça, Traficante de Armas, Coisa Ruim, Bêbado, entre outros. Papéis com perfis que, ao longo da história do audiovisual, foram e ainda são atrelados a atores negros e que revelam que muitas vezes o racismo na profissão e na vida pessoal não caminham tão distantes. Alexandre da Silva Santana hoje é conhecido como Babu por conta do apelido que tinha na infância, em que era pejorativamente chamado de Babuíno.

Nem 43 filmes, 15 novelas e mais de 20 peças foram suficientes para que Babu tivesse o devido reconhecimento na carreira. Além da ampla filmografia, venceu por duas vezes o Prêmio Grande Otelo, considerado o maior do cinema brasileiro. Como ator coadjuvante, conquistou a primeira estatueta com o filme “Estômago”, de 2007. O personagem? Um prisioneiro. A segunda veio sete anos depois, após interpretar o irreverente cantor Tim Maia no filme homônimo – seu papel de maior destaque.

Babu Santana, em 2014, no filme “Tim Maia”. Ele venceu como melhor ator no Prêmio Grande Otelo (Foto: Divulgação/Globo Filmes)

“O Brasil está tão fincado no racismo estrutural que não temos nome, nascemos, vivemos e morremos sempre nesse lugar à sombra dos brancos, que estão sempre protagonizando uma história e que esperam que estejamos sempre batendo palma para eles quando nos dão o mínimo de protagonismo”, defende AD Junior, ativista do movimento negro e influenciador digital. A escalação de atores negros para personagens definidos, na maioria das vezes, como bandidos, empregados e pessoas marginalizadas, mostra que o racismo estrutural – quando um conjunto de costumes e práticas promovem a segregação, unindo opressão e poder – está fortemente presente em casos como o de Babu Santana. Mesmo com o talento reconhecido, ainda é colocado em posição de subserviência na maioria dos papéis que interpreta.

“A primeira coisa que a gente precisa entender é que a história da mídia é contada por alguém que enxerga a sociedade do topo da branquitude dela. As pessoas em cargos de direção, as pessoas que mandam, se não tiverem muita sensibilidade, são pessoas que têm uma visão de mundo eugênica em relação ao lugar que o negro ocupa ou pode ocupar na sociedade. São pessoas que veem o negro nesse lugar de medo, condicionado à subalternidade. Pessoas brancas continuam reproduzindo isso como se não fôssemos produtores de conhecimento. Portanto, o negro sempre vai estar, no olhar dessas pessoas, no local da zona periférica”, afirma AD Júnior.

Ainda para ele, o racismo da mídia em relação aos artistas negros não é velado, e sim, escancarado: “O racismo pode funcionar no viés inconsciente, na cabeça de quem escreve, colocando esses personagens nesses lugares. Analisando os personagens do Babu, por exemplo, desde que começou na TV, a maioria está estereotipada por algo ruim ou não tem nem nome. Isso acontece, inclusive, porque a visão de quem escreve até na Wikipédia é de uma pessoa branca. O Babu é brilhante no que faz, tanto que venceu vários festivais, mas continua sendo um homem negro”.

Babu Santana com João Miguel e Alexander Sil no filme Estômago: papel de presidiário que valeu Prêmio Especial do Júri do Festival do Rio 2007 (Foto: Divulgação)
Babu Santana com João Miguel e Alexander Sil no filme Estômago: papel de presidiário que valeu Prêmio Especial do Júri do Festival do Rio 2007 (Foto: Divulgação)

‘Alguns corpos podem ter escolhas e outros não’

Diante desse cenário excludente, Babu não está sozinho. Douglas Silva, Jonathan Azevedo, Darlan Cunha, Marcelo Melo Jr, Leandro Firmino, Juliana Alves, Dandara Mariana, Erika Januza e Cris Vianna. Todos esses nomes têm em comum uma sequência de personagens que não possuem nome, nem profissão. Em casos contrários, são hipersexualizados. Corpos que foram retratados ao longo dos anos como marginais, escravos, empregadas ou usados como fetiches de patrões em filmes, novelas e séries. Assim como o racismo estrutural passa por diversas relações de poder – profissionais, amorosas e acadêmicas -, essas também podem ser observadas no meio audiovisual, como em Xica da Silva, Cidade de Deus, Carandiru e tantas outras produções que marcaram época.

O Brasil está tão fincado no racismo estrutural que não temos nome, nascemos, vivemos e morremos sempre nesse lugar à sombra dos brancos, que estão sempre protagonizando uma história e que esperam que estejamos sempre batendo palma para eles quando nos dão o mínimo de protagonismo

AD Júnior
Ativista

Muito se questiona, então, o motivo que faz atores e atrizes aceitarem esses papéis. Na opinião do ator, diretor e cientista social Rodrigo França, que participou da 19ª edição do Big Brother Brasil, a indagação, feita, segundo ele, em sua maioria por pessoas brancas, é injusta e desleal. “A gente precisa aprender que alguns corpos podem ter escolhas e outros não. Estamos discutindo cultura hegemônica. A gente não pode penalizar quem aceitou, mas quem dirige, a indústria. Se a gente for discutir o motivo pelo qual esses atores aceitaram determinados papéis, temos que discutir a razão pela qual a maioria da população aceita trabalhos desumanos. É até infantil a gente separar a posição de trabalho de um artista negro com um artista branco. Ele aceitou, possivelmente, pelos mesmos elementos que faz com que a maioria dos trabalhos determinados aos negros sejam em cargos menores”, diz.

Para mudar essa narrativa, que atravessa gerações, sem depender de uma mudança estrutural na sociedade, que é aguardada há décadas e que depende de consciência e mudança, artistas negros vêm, a cada dia, tomando esse protagonismo para si e criando oportunidades no cinema, em produções de séries e, principalmente, no teatro, onde grupos, diretores e autores buscam ampliar a representatividade negra na cultura brasileira.

“Na verdade, ele quer fazer o médico”

Apesar de mais de 20 anos de carreira – Babu iniciou a vida artística no Teatro Nós do Morro, em 1997 – e um personagem emblemático no currículo, o ator mora de aluguel em uma casa simples na Ilha da Gigóia, zona oeste do Rio de Janeiro. Pai de três filhos, acumula dívidas, o que não esconde de ninguém. O endividamento é resultado da instabilidade na carreira, segundo Hugo Grativol, ator, amigo de Babu e integrante do coletivo “Time Babu”, que, entre outras coisas, cuida das redes sociais do carioca.

Na verdade, ele quer fazer o médico, o homem sem ligação com a violência. Ele é tão bom profissional, que mesmo fazendo papéis pequenos, fazendo traficantes, bêbados e personagens estereotipados, conseguiu deixar uma marca, se tornar conhecido e ganhar respeito na profissão, apesar de não ganhar dinheiro

Hugo Grativol
Amigo de Babu

“Nunca teve estabilidade: ou tinha um trampo bom e ganhava uma grana, ou estava desempregado. Sempre em altos e baixos. Por isso ele nunca conseguiu fazer dinheiro. Na semana antes de entrar no Big Brother, a gente estava ajudando o Babu financeiramente e ainda estamos: uns com trabalho, outros com dinheiro. Em uma entrevista para o Lázaro Ramos, ele disse que iria profissionalizar o papel de bandido, que ele queria cobrar muito caro pra fazer um bandido. Na verdade, ele quer fazer o médico, o homem sem ligação com a violência. Ele é tão bom profissional, que mesmo fazendo papéis pequenos, fazendo traficantes, bêbados e personagens estereotipados, conseguiu deixar uma marca, se tornar conhecido e ganhar respeito na profissão, apesar de não ganhar dinheiro”, opina.

A oportunidade de entrar no BBB, segundo o amigo, foi a chance encontrada por Babu para não só reverter a situação financeira, mas também para ser protagonista da própria história, fato que, para Hugo, continua incomodando. “Quando ele dorme, fazem piada porque ele é gordo, dizem que têm medo por ele parecer um monstro. Quando pede desculpa por algum erro que cometeu, não aceitam da mesma forma que aceitam dos outros. Tudo isso ele vive desde pequeno. Só que hoje está sendo televisionado 24 horas por dia, para o Brasil inteiro ver”, finaliza.

 *A biografia e a filmografia de Babu na Wikipédia foram alteradas no dia 12 de março, um dia depois do caso viralizar nas redes sociais.

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Laís Gomes

Formada em Jornalismo pela Unisuam, nascida e criada em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Trabalhou nas redações das revistas Isto É Gente, Contigo, no jornal O Dia e em sites como o UOL e EGO, extinto portal da TV Globo. Apaixonada por música, televisão e reality show, participou da cobertura de oito edições do Big Brother Brasil e eventos como Carnaval do Rio e Rock in Rio. Tem grande interesse em pautas que levantam discussões sobre os diversos tipos de preconceitos e vê a profissão e as redes sociais como aliadas no combate ao racismo.

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