Por Adriana Barsotti | ODS 1 • Publicada em 11 de junho de 2018 - 12:06 • Atualizada em 29 de abril de 2020 - 15:02

Reportagem: Adriana BarsottiImagens e Vídeos: Yuri FernandesDesign: Raquel Cordeiro

Por Adriana Barsotti | ODS 1 • Publicada em 11 de junho de 2018 - 12:06 • Atualizada em 29 de abril de 2020 - 15:02

Reportagem: Adriana BarsottiImagens e Vídeos: Yuri FernandesDesign: Raquel Cordeiro

Florianópolis

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Quando se pensa em riqueza em Florianópolis, o lugar-comum é imaginar os milionários de Jurerê Internacional, uma praia de 3 km no norte da ilha que foi apelidada de Miami brasileira e eleita pelo New York Times como o destino do ano para festas, em 2009. Não é à toa. O local – onde uma mansão pode custar R$ 20 milhões e  não é atípico avistar uma Ferrari circulando – ganhou de novo notoriedade em fevereiro deste ano. Em um beach club, um milionário comprou dez garrafas da champanhe francesa Veuve Clicquot e pediu ao garçom que lavasse seus pés sujos de areia com a bebida.

Indicadores da vulnerabilidade social

2
1,63% de crianças de 6 a 14 anos fora da escola

3
2,6% de pessoas de 15 a 24 anos que nem estudam nem trabalham

2
2% de mulheres de 10 a 17 anos que tiveram filhos

8
8,53% de mães chefes de família sem fundamental e com filho (s) menor (es), do total de mães chefes de família

1
0,38% de vulneráveis e dependentes de idosos

1
0,55% de crianças extremamente pobres

6
6,42% vulneráveis à pobreza

98
99,29% da população com banheiro e água encanada

Florianópolis é a capital do estado com o menor número de pobres do país, revelou a pesquisa Síntese dos Indicadores Sociais 2017, do IBGE. Em Santa Catarina, somente 9,4% da população é considerada pobre e vive, portanto, com menos de US$ 5,5 por dia, linha de pobreza estabelecida pelo Banco Mundial. Está à frente de São Paulo, estado mais rico em PIB do país. Lá, 12,2 % dos habitantes são pobres. Na capital catarinense, a renda média per capita, em 2010, era R$ 1.798, 12 (o equivalente a 3,5 salários mínimos à época), indicador que a torna a quinta cidade com maior renda do Brasil (atrás de São Caetano do Sul, Niterói, Vitória e Santana de Parnaíba).

A reportagem do #Colabora quis evitar os clichês e não foi a Jurerê Internacional. Em vez de procurar personagens milionários no estado com menos pobres do país, preferiu entrevistar moradores da capital catarinense cuja renda estivesse próxima da média. Foi assim que encontramos uma faxineira com graduação em história e três pós-graduações, uma diarista e microeempreendedora cujos serviços podem custar de R$ 120 até R$ 2 mil e um porteiro que é também eletricista e pedreiro e que, com os bicos, consegue sustentar seis filhos.

Diárias entre R$ 180 e R$ 2 mil

Madeleine Lisboa, de 41 anos, abre as portas da garagem de sua casa, localizada no bairro São João do Rio Vermelho. Entramos com o carro. Por WhatsApp, ela me alertara: “Minha rua não é pavimentada, ok?”. Lembrei-me das cidades já percorridas na reportagem e respondi que já estávamos acostumados. Ela vem nos receber com um sorriso largo e um abraço. Ex-gerente de vendas da GVT, decidiu largar o emprego, onde “raramente conseguia bater a meta”, e fundou a Central de Diaristas. Mas antes de virar microeempreendedora, Madeleine arregaçou às mangas e trabalhou 45 dias em um hotel na Praia dos Ingleses como camareira.”Quis ver como era e aprender todos os truques”. Depois, começou a oferecer faxina para hóspedes mensalistas.

Hoje ela trabalha com uma equipe de 16 diaristas. “São oito colaboradoras na linha de frente e oito reservas”, ela explica. Sua renda varia entre R$ 2.500 e R$ 3.000, podendo ultrapassar os valores na alta temporada. Estamos na sala de sua casa. O canto direito, logo após a entrada, foi transformado em seu escritório. Ela está com o desktop conectado ao Get Ninjas, site por meio do qual oferta seus serviços e, simultaneamente, recebe pedidos de diárias pelo aplicativo no smartphone. Na parede, há um quadro mostrando alguns agendamentos. Madeleine pede desculpas e interrompe a entrevista duas vezes para responder às notificações. Apesar de estar administrando alguns transtornos, ela não perde o sorriso e minimiza os problemas. Em menos de meia hora de conversa, já estávamos seduzidos pelo vigor e generosidade da nossa personagem: “Já tentei contratar gays e trans, mas infelizmente ainda há muita resistência”.

Além das diárias, ela oferece serviços de “check-in” e “check-out”. “O que seria isso?”, pergunto. Ela explica que é contratada pelos donos de imóveis de temporada para receber o dinheiro dos hóspedes, verifica se não há nada faltando e faz a faxina após a saída deles. Da sala, ela aponta para o varal da casa, repleto de lençóis estendidos, no jardim da frente, fruto de um check-out recente. Na saída dos inquilinos, também filma o imóvel e envia o vídeo para o dono. Pelo serviço, que ela mesma costuma fazer, cobra entre R$180 e R$ 200. Mais tarde, enquanto espero pelo embarque no aeroporto de Florianópolis, ela me mandaria dois desses vídeos por WhatsApp.

Adriana Barsotti

É jornalista com experiência nas redações de O Estado de S.Paulo, IstoÉ e O Globo, onde ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo com a série de reportagens “A História Secreta da Guerrilha do Araguaia”. Pelo Projeto #Colabora, foi vencedora do Prêmio Vladimir Herzog, em 2019, na categoria multimídia, com a série "Sem Direitos: o rosto da exclusão social no Brasil", em um pool jornalístico com a Amazônia Real e a Ponte Jornalismo. Professora Adjunta do Instituto de Arte e Comunicação Social (IACS), na UFF, é autora dos livros “Jornalista em mutação: do cão de guarda ao mobilizador de audiência” e "Uma história da primeira página: do grito no papel ao silêncio no jornalismo em rede". É colaboradora no #Colabora e acredita (muito!) no futuro da profissão.

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