Covid-19: recorde de letalidade em Caxias, temor na Baixada toda

Fiscais da prefeitura no movimentado calçadão de Duque de Caxias: demora para medidas restritivas e recorde de letalidade com covid-19 (Foto: Prefeitura de Caxias)

Maior cidade de região pobre do Rio, onde prefeito testou positivo e está internado, tem porcentagem de mortes quase duas vezes maior que a da Itália

Por Oscar Valporto | ODS 1ODS 3 • Publicada em 14 de abril de 2020 - 08:00 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 20:30

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Fiscais da prefeitura no movimentado calçadão de Duque de Caxias: demora para medidas restritivas e recorde de letalidade com covid-19 (Foto: Prefeitura de Caxias)

No dia 31 de março, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro registrou a primeira morte por covid-19 em Duque de Caxias, município mais populoso da Baixada Fluminense, com mais de 900 mil habitantes. No mesmo dia, o prefeito Washington Reis assinou decreto restringindo o funcionamento do comércio e de ações e eventos públicos – Duque de Caxias foi a última cidade da Baixada, região pobre na periferia da capital, a tomar esta providência. Duas semanas depois, na terça (14/4, a cidade já registrava 20 óbitos pela covid-19, apesar de ter registrado apenas 92 casos, uma assustadora taxa de letalidade de 21,7%; para comparação, a taxa de letalidade da Itália, a maior do mundo, alcançou, no momento de pico, 12,5%.

Emedebista e evangélico, prefeito de Caxias pela segunda vez, Reis, de 53 anos, resistiu a tomar a decisão de restringir as atividades: apenas aulas e feiras livres estavam suspensas quando março terminou. Uma semana antes de assinar o decreto, o prefeito respondia a críticas nas redes sociais que pediam o fechamento de lojas e igrejas: “Com relação aos templos religiosos, caberá aos líderes religiosos decidirem sobre o melhor a se fazer neste momento. A mesma decisão se aplica ao comércio de Duque de Caxias”. O prefeito foi internado na Sexta-feira Santa, com sintomas de covid-19, mas os dois primeiros testes deram negativo. No domingo de Páscoa, na unidade semi-intensiva de um dos melhores hospitais da capital, Washington Reis testou positivo para o coronavírus.

O prefeito Washington Reis (de camisa rosa), em visita a obras de hospital em Caxias no fim de março: resistência a fechar comércio e igrejas até primeiro óbito (Foto: Prefeitura de Caxias)
O prefeito Washington Reis (de camisa rosa), em visita a obras de hospital em Caxias no fim de março: resistência a fechar comércio e igrejas até primeiro óbito (Foto: Prefeitura de Caxias)

Até o dia 2 de abril, data da publicação do decreto assinado dia 31, Reis manteve uma agenda normal como quase toda a população de Duque de Caxias. Visitou obras, gravou vídeos com aliados e deu entrevistas, inclusive sobre a pandemia: falou dos alertas divulgados pela Defesa Civil, pela rede de sirenes usada para avisar sobre enchentes, sobre cuidados preventivos para evitar o contágio e da compra de um hospital particular para atender pacientes. A única vez que usou máscaras foi em viagem a São Paulo – ao lado do irmão, o deputado estadual Rosenverg Reis – para comprar insumos para a saúde municipal.

No dia 24 de março, Washington Reis levou uma comitiva de vereadores, secretários e assessores para vistoriar obras no hospital – mais de 20 pessoas. Na ocasião, a vereadora Leide (Maria Landerleide de Assis Duarte), dos Republicanos e da Igreja Universal, e atualmente secretária municipal de Desenvolvimento Econômico, Agricultura, Abastecimento e Pesca, gravou um vídeo ao lado do prefeito. “Foi orientação, desde a primeira hora, manter as igrejas abertas porque a cura virá de lá, dos pés do Senhor”,disse Reis. A vereadora e secretária falou como liderança religiosa. “Trouxe o prefeito aqui para que possa dar garantia e tranquilidade de que nossas igrejas em Duque de Caxias não serão fechadas, haja vista que a própria Igreja Universal já tomou as medidas cabíveis. Cada pessoa que entra na igreja já tem as suas mãos lavadas com água e sabão e, logo em seguida, com álcool gel. Os cultos não estão acontecendo. As pessoas vão lá fazer suas orações e vão para casa”, disse.

Questionada a prefeitura divulgou nota com a mesma orientação. “Independentemente de religião, o prefeito ressalta que caberá aos líderes religiosos decidirem sobre o melhor a se fazer neste momento. A mesma decisão se aplica ao comércio de Duque de Caxias. De qualquer forma, agentes da Secretaria municipal de Segurança e da Guarda Municipal estão na rua orientando a população, principalmente, os mais idosos, para que fiquem em casa. A pandemia é real e o município está atento aos acontecimentos”, afirmou, em nota, a Prefeitura de Duque de Caxias.

Fiscais da prefeitura mandam fechar papelaria em Duque de Caxias: comércio aberto no centro e na periferia (Foto: Prefeitura de Caxias)
Fiscais da prefeitura mandam fechar papelaria em Duque de Caxias: comércio aberto no centro e na periferia (Foto: Prefeitura de Caxias)

Número de testes baixo, letalidade alta

A assustadora taxa de letalidade de Duque de Caxias só não é mais alarmante porque profissionais de saúde acreditam que esteja relacionada ao baixo número de testes. “Temos muito poucos testes disponíveis aqui em Caxias como em toda a Baixada Fluminense. Só são testados aqueles com quadros mais graves. Por isso, a taxa de letalidade real não deve ser tão alta; por outro lado, devemos ter um número muito maior de casos de covid-19, particularmente aqui em Caxias, onde as medidas restritivas só começaram em abril”, afirma um médico da rede municipal que prefere não se identificar.

Foi orientação, desde a primeira hora, manter as igrejas abertas porque a cura virá de lá, dos pés do Senhor

Washington Reis
Prefeito de Duque de Caxias

A população também reclama do atendimento das pessoas sem sintomas graves. “As cidades da Baixada têm uma rede de saúde limitada que ficará logo sobrecarregada. Os hospitais só estão atendendo os casos mais graves. Pessoas com tosse e sintomas de gripe reclamam que não são atendidas e não sabem se tem o coronavírus ou não; se podem estar contagiando parentes e amigos. Tem muita desinformação e falta de orientação”, testemunha Douglas Almeida, coordenador de Mobilização da Casa Fluminense, e um dos criadores do movimento #CoronanaBaixada, que reuniu entidades da região para ajudar as populações mais vulneráveis.

O próprio Ministério da Saúde admite que a taxa de letalidade no Brasil – acima de 5%, mais longe dos 20% de Caxias – pode estar inflada pela escassez de testes de para detecção da covid-19.  Em entrevista na semana passada, secretário de Vigilância em Saúde do ministério, Wanderson Oliveira, explicou que a recomendação segue a mesma: testar somente quem é internado por Síndrome Respiratória Aguda Grave ou quem esteja sob a chamada vigilância sentinela. “O problema aqui na Baixada – e não é só de Caxias – é que não há uma orientação clara de como quem tem sintoma deve proceder.  O Poder Público precisa liderar esse processo de informar e orientar a popuçaão, Esse trabalho de conscientização também estamos tentando fazer no Corona na Baixada”, acrescenta Almeida.

Barreira sanitária em Magé, município da Baixada vizinho a Caxias: medidas restritivas para enfrentar pandemia (Foto: Prefeitura de Magé)
Barreira sanitária em Magé, município da Baixada vizinho a Caxias: medidas restritivas para enfrentar pandemia (Foto: Prefeitura de Magé)

Baixada com circulação ainda grande

Em toda a Baixada Fluminense, o movimento de pessoas na rua ainda é grande. Parte é explicado pela necessidade de circulação: na maioria dos 13 municípios da região, onde moram cerca de 5 milhões de pessoas, quase a metade dos trabalhadores tem sua atividade profissional na capital ou em outras cidades. Nos municípios que estabeleceram medidas restritivas – como Nova Iguaçu, com 800 mil habitantes, Belford Roxo (500 mil) São João de Meriti (470 mil) e Magé (250 mil) – em meados de março, o comércio do Centro ficou fechado, mas havia muitas lojas e biroscas abertas nos distrito e na periferia. Em Duque de Caxias, a situação é ainda mais difícil: até no centro, há muitas lojas abertas e, na semana passada, fiscais e guardas municipais começaram a fazer rondas para obrigar o cumprimento do decreto.

O decreto municipal do dia 2 de abril suspendeu, pelo período de 15 dias, de atividades comerciais, além de teatros, cinemas, shopping centers, todos os centros comerciais e estabelecimentos comerciais similares, academias, centros de ginástica, bares e botecos. No decreto, ficaram estabelecidas exceções: supermercados, farmácias e serviços de saúde, como hospitais, clínicas, laboratórios e estabelecimentos congêneres, em funcionamento no interior de shopping centers, centro comerciais e estabelecimentos análogos. Restaurantes, lanchonetes e estabelecimentos similares ainda podem funcionar, limitando o atendimento ao público a 30% da capacidade de lotação, com a normalidade de entrega e retirada de alimentos no próprio estabelecimento. Os templos religiosos não foram citados no decreto.

O próprio Washington Reis, entretanto, fez poucas alterações em sua rotina, circulando bastante para acompanhar obras, mas, nos últimos dias com o uso de máscaras – até começar a sentir os sintomas e ser internado. O #Colabora, desde o fim de semana, questionou a prefeitura de Duque de Caxias sobre a alta letalidade da covid-19 no município,  sua possível relação com a demora em adotar medidas restritivas, e também se  a administração municipal pretendia estender a suspensão das atividades estabelecidas no decreto – os efeitos terminam nesta sexta-feira. A prefeitura não respondeu essas questões nem informou quando está prevista a abertura dos 100 leitos prometidos no hospital recentemente adquirido

Integrantes do grupo Movimenta Caxias pendura faixa em bairro da periferia: ações para apoiar e conscientizar (Foto: Reprodução/Facebook)
Integrantes do grupo Movimenta Caxias pendura faixa em bairro da periferia: ações para apoiar e conscientizar (Foto: Reprodução/Facebook)

Mobilização da sociedade civil

A manifestação do prefeito Washington Reis assegurando o funcionamento do comércio e das igrejas teve, pelo menos, um efeito colateral positivo: acendeu um alerta na sociedade civil de toda a Baixada Fluminense para a necessidade de integrar as ações de apoio e solidariedade às favelas e grupos mais vulneráveis da região. “A fala do prefeito deixou claro que a população não podia depender apenas do Poder Público, principalmente as comunidades periféricas que nunca foram prioridade para as políticas públicas”, conta Douglas Almeida. Inspirada no movimento #Covid nas Favelas, na capital do Rio de Janeiro, mais de 50 entidades – movimentos de mulheres, grupos de assistência a crianças e idosos, coletivos jovens, pastorais católicas, sindicatos – formaram a rede #Corona na Baixada.

A primeira ação foi produzir um cartaz para ser distribuído nas periferias dos municípios com orientações para prevenir o contágio. O grupo também divulgou uma carta para chamar a atenção das autoridades. “A pandemia do coronavírus (covid-19) é algo novo para todas as gerações. Mas diversos problemas na Baixada Fluminense já existem antes da pandemia e com ela podem se agravar”, alerta o documento. “A população pobre, preta e periférica, moradora dessa região, sofre com a violência, desemprego e precarização do trabalho, baixo número de leitos disponíveis e problemas no acesso à saúde, falta de saneamento (água potável, coleta de esgoto, coleta de lixo), adensamento habitacional excessivo (mais de 3 pessoas dormindo no mesmo quarto)”, acrescenta a carta. O movimento pede ainda que sejam garantidos testes para a população, medidas de restrição à circulação, renda para trabalhadores informais, acesso à água, higienização das ruas, e disponibilização de álcool gel, máscaras faciais de proteção descartáveis, copos descartáveis nos bebedouros e produtos de higiene pessoal para os mais vulneráveis.

Douglas Almeida explica ainda que foi fortalecida a rede de apoio a essas comunidades. “Eram muitas iniciativas isoladas de doações e distribuições de cestas básicos e artigos de limpeza. Com a integração dos diversos grupos, estamos conseguindo mobilizar, arrecadar mais e distribuir melhor”, afirma o coordenador da Casa Fluminense, uma das entidades do #Corona na Baixada, ao lado de Movimenta CaxiasFórum Grita BaixadaIniciativa Direito à Memória e Justiça Racial, Associação Apadrinhe um Sorriso, Rede de Mulheres Empreendedoras da Baixada, Ampara, Movimento Educação Popular +Nós, Coletivo Minas da Baixada, Centro de Desenvolvimento Se Essa Rua Fosse MinhaGomeia Galpão CriativoFAIM – Festival de Artes de ImbariêResiste MeritiMobiliza Japeri, Instituto EnraizadosCoordenação Regional da Pastoral da Juventude Leste 1MPS – Movimento Pró SaneamentoCDH – Centro dos Direitos Humanos de Nova Iguaçu e muitas outras.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Está de volta ao Rio após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. É criador da página no Facebook #RioéRua, onde publica crônicas sobre suas andanças pela cidade.

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