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Empoderamento feminino nas aldeias

Mulheres indígenas rejeitam o rótulo de feministas, discutem gênero, estupro, poligamia e põem em xeque tradições seculares


Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas, faz um pronunciamento na COP-18, em Doha, no Quatar. Foto Cimi
Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas, faz um pronunciamento na COP-18, em Doha, no Quatar. Foto Cimi

Termina esta semana, em plena Conferência do Clima, a COP 23, o tour europeu que os Guardiões da Floresta começaram em meados de outubro. Cinco lideranças indígenas brasileiras estão no grupo. Eles rodaram vários países da Europa denunciando uma sucessão de retrocessos ambientais que vêm ocorrendo no Brasil, na América Central e na Indonésia. Famosa no mundo todo após subir ao palco do Rock in Rio deste ano para alertar sobre os perigos que a Amazônia e seus povos estão correndo, Sonia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e da Coordenação das Organizações Indígenas dos Povos da Amazônia (Coaib), está no grupo e é, hoje, o rosto mais conhecido de um movimento silencioso que ganha corpo e musculatura nas aldeias. Depois de ganharem as universidades, as mulheres indígenas não querem mais a invisibilidade, nem dentro e nem fora dos seus territórios. Elas querem ter voz, querem ocupar espaços políticos e querem discutir questões de gênero. Tudo isso junto e misturado, mas sem ostentar o rótulo de feministas.

À medida que o movimento de empoderamento das mulheres indígenas avança, questões específicas do universo feminino emergem, colocando em xeque tradições seculares. Violência doméstica e sexual, estupro e feminicídio são temas que, até bem pouco tempo, eram tratados veladamente, ou mesmo proibidos. Hoje, não mais. Há uma compreensão de que a disputa pela terra e o alcoolismo estão, muitas vezes, na base das violações sofridas pelas mulheres indígenas nas aldeias. E, apesar de representarem pouco mais da metade da população indígena no país, elas são vítimas de um duplo preconceito: por ser indígena e por ser mulher. Censo do IBGE 2010 apontou que de uma população de 896,9 mil indígenas, 444 mil são mulheres.

Protagonismo feminino

Telma Taurepang, coordenadora geral da Uniao das Mulheres Indígenas da Amazonia Brasileira. Foto de Divulgacao
Telma Taurepang, da Umiab. Foto de Divulgação

Telma Taurepang é outra liderança que anda chacoalhando tradições em defesa dos direitos das mulheres indígenas em suas comunidades. Aos 45 anos, mãe de dois curumins (meninos) e uma cunhatãn (menina), e avó, a líder nascida na comunidade indígena Araçá, em Roraima, é a coordenadora geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (Umiab). Ela é taxativa ao afirmar que “não é feminista” e encara a discussão de gênero não como uma disputa entre homens e mulheres: “defendo que haja cumplicidade entre nós, que somos parceiros de luta”. E ressalta que as mulheres indígenas sempre estiveram na luta em defesa dos seus territórios lado a lado com seus homens e os caciques da aldeia. Seu engajamento começou na década de 1990 e hoje ela tem assento na “Voz das Mulheres Indígenas”, projeto de iniciativa da ONU Mulheres no Brasil, em cooperação com a embaixada da Noruega.

Não sou feminista. Defendo que haja cumplicidade entre nós, homens e mulheres, pois somos parceiros de luta

Telma Taurepang

Veterana no movimento de emancipação política da mulher indígena, Telma admite que muitas delas ainda são impedidas de participar ativamente dentro e fora de suas comunidades. Ainda assim, muitas travam uma luta anônima em defesa dos direitos dos povos indígenas, apesar de historicamente exercerem o papel de administradoras da família e da aldeia. Ou seja, seu papel, por tradição, é de mantenedora.

Apesar de concordar que não adianta impor mudanças de fora para dentro, Telma não deixa de fazer perguntas constrangedoras. “Vocês acham que estão atendendo todas as necessidades das suas mulheres?”, chegou a questionar, certa vez, caciques adeptos da poligamia – a prática é comum entre os Xavantes e os Tenethara, os Timbiras pregam a monogamia e os Nambikuáras permitem que apenas os chefes tenham mais de uma mulher. Admite que não é uma discussão confortável, mas não se furta de cutucar a pressão do machismo dentro das aldeias. “E por que as mulheres também não podem ter vários homens?”

Ela só não tergiversa quando o assunto é estupro: “Não podemos justificar o ato como cultural em pleno século XXI. Estupro é uma violência extrema”. Por não terem participado da elaboração da Lei Maria da Penha, não consta do texto um olhar que contemple questões específicas da cultura indígena e das diferentes etnias – alguns povos adotam leis internas de punição em caso de estupro.

Sonia Guajajara, Telma Taurepang, Sineia do Vale – uma das principais especialistas indígenas nas questões de mudanças climáticas -, Patrícia Juruna, Nara Bare, Joenia Wapixana são das lideranças indígenas que, apesar de cientes de que ser índio no Brasil é viver à margem da Lei e em constante conflito pela posse da terra, não abrem mão de levar as questões de gênero para o centro das discussões. São guerreiras assumindo a narrativa feminina como um instrumento de luta.


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