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A vida secreta dos louva-a-deus

Jovens ganham prêmio inédito no Rio de Janeiro com pesquisa sobre esses insetos, muito pouco estudados no país


Louva-a-Deus: país abriga mais de 700 espécies do inseto. Foto: Divulgação/Projeto Mantis

Mantis, que significa louva-a-deus em grego, é o nome do projeto de três jovens estudantes de biologia da Universidade  Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO) que se dedicam a pesquisar esses insetos, tão pouco estudados no Brasil. A palavra, em grego, tem também o significado de “profeta”, “oráculo”, “aquele que vê à frente. Os antigos acreditavam que encontrar um louva-a-deus era sinal de sorte, pois ele indicaria o caminho para algo ou alguém perdido nas matas. O inseto ganhou esse nome porque, pousado, lembra uma pessoa orando.

Leonardo Lanna, João Felipe Herculano e Sávio Cavalcante decidiram, corajosamente, num momento em que a ciência brasileira sofre duros cortes orçamentários e falta de incentivo, inscrever o projeto “Em busca do louva-a-deus na Mata Atlântica”, no edital da National Geographic, na categoria Early Career Grant. Foi com um misto de orgulho e espanto que receberam a notícia da premiação, no dia 1º de agosto. Eles contarão com recursos financeiros para realizar expedições pela Mata Atlântica no estado do Rio de Janeiro, durante os próximos seis meses.

Este trabalho vai gerar um mapa, com todas as rotas percorridas por esses insetos e um belo registro fotográfico. Então, poderá ser feito um levantamento preliminar da diversidade de louva-a-deus no Jardim Botânico do Rio

Sávio Cavalcante
Estudante de biologia

É a primeira vez que um grupo de estudantes do Rio recebe esse prêmio da National Geographic. Eles vão municiar a revista com artigos, fotos e vídeos da pesquisa. Uma equipe da publicação poderá vir ao Brasil para acompanhá-los nas expedições. Dependendo da avaliação sobre o trabalho que estão desenvolvendo, o prazo de incentivo pode ser renovado e o projeto ampliado, para incluir outros locais do Brasil.

Os estudantes João Felipe Herculano, Sávio Cavalcante e Leonardo Lanna: prêmio inédito no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação

A ideia de estudar o comportamento desses insetos de cores, formas e tamanhos tão diversos – medem de 1 cm a 20 cm – surgiu a partir de uma disciplina da faculdade.  O trio descobriu que pouco, ou quase nada, se sabe sobre os louva-a-deus no Brasil.  Isso embora o país ocupe o primeiro lugar, no mundo, em número de espécies do inseto. Estima-se que o país abrique 700 espécies – são cerca de 2.500 em todo o planeta. “A principal lacuna está na Mata Atlântica, um dos biomas mais ricos e ameaçados do planeta, onde ainda há muito a se desvendar e, consequentemente, a se preservar. Isso mostra a necessidade dos estudos de base, como são os de classificação de espécie (taxonomia) para que, então, haja pesquisas mais elaboradas e aplicadas à sociedade”, diz João Felipe.

Os jovens, que não desanimaram diante da carência de informações. Foram atrás de especialistas no país, mas encontraram apenas dois: um professor colombiano, que trabalha na Amazônia, Antônio Agudelo; e um peruano, Julio Rivera, que atua no Canadá e no Brasil.

Esses seres com aspecto de alienígenas se limpam quase compulsivamente, como quem tem TOC. São os únicos insetos que podem dar um giro de 180 graus com a cabeça e, pelo que se sabe, também os únicos que enxergam em 3D

Em 2016, durante um passeio noturno promovido pelo Núcleo da Fauna do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, os estudantes perceberam a possibilidade de encontrar ali uma grande quantidade de louva-a-deus e ofereceram a pesquisa ao Laboratório de Fitossanidade, de forma voluntária. “Desde o começo do projeto, em 2016, já foram registradas seis espécies, com aspectos bem diferentes entre si. Este trabalho vai gerar um mapa, com todas as rotas percorridas por esses insetos, e um belo registro fotográfico. Então, poderá ser feito um levantamento preliminar da diversidade de louva-a-deus no Jardim Botânico do Rio”, explica Sávio.

Mas, afinal, quem são os louva-a-deus? Esses seres com aspecto de alienígenas se limpam quase compulsivamente, como quem tem TOC. Cabeça triangular, têm seis pernas, sendo que as duas dianteiras  são raptoriais, ou seja, preparadas para rapidamente agarrar suas presas. É único inseto que pode dar um giro de 180 graus com a cabeça e, pelo que se sabe, também o único que enxerga em 3D. Quando está em perigo, finge-se de morto. Geralmente, apenas os machos podem voar e vivem cerca de um ano, o que é muito para um inseto.

Se o Brasil tem tamanha diversidade de louva-a-deus, por que eles são tão pouco estudados? Segundo Leonardo Lanna, um dos motivos é a dificuldade de encontrá-los durante o dia. Os pesquisadores saem à noite pelo Jardim Botânico, munidos de lanternas, à procura dos intrépidos, ligeiros e, não se enganem pelo pequeno porte, fortes louva-a-deus. Sim, eles possuem força extrema nas pernas dianteiras, que usam como pinças certeiras para capturar suas presas. Comem de tudo, moscas, pulgões, mosquitos, percevejos e, pasmem, até beija flor, dependendo do tamanho que o louva-a-deus tiver. São predadores agressivos e, às vezes canibais, principalmente em cativeiro – caso sintam fome, devoram outro inseto da mesma espécie, se ele estiver ao alcance. Mas não se alimentam com muita regularidade, em geral, a cada três ou quatro dias.

É mais fácil encontrar o louva-a-deus na mata à noite. Foto: Divulgação/Projeto Mantis

Em suas incursões noturnas pela mata do Jardim Botânico, o objetivo do trio de pesquisadores é capturá-los vivos. Eles são levados para terrários construídos pelos estudantes, para que eles possam observar o crescimento, os hábitos e o comportamento desses insetos. Segundo Leo Lanna, “apesar de o mais comum ser o de cor verde, eles possuem uma grande variedade de formas e cores, mimetizando flores, folhas secas, galhos, musgos, troncos e até pedras.”

O canibalismo sexual do louva-a-deus é muito conhecido: a  fêmea devora a cabeça do macho assim que se completa o ato de acasalamento. Mas não é sempre que isso acontece. Os estudantes já viram, durante uma expedição, macho e fêmea copularem e livremente seguirem seus caminhos, sem nenhuma degola envolvida. Para Leo, uma possível explicação para o fato é o clima tropical do Brasil. A maioria  dos estudos sobre o louva-a-deus é feita na Europa ou nos Estados Unidos, onde os termômetros, em algumas épocas do ano, atingem temperaturas muito baixas. O frio extremo dificulta a busca por alimentos. A fêmea comeria a cabeça do consorte para receber nutrientes que garantam a sobrevivência dos muitos ovos que estão por vir. Sim, muitos ovos! Uma fêmea louva-a-deus pode colocar até 150 ovos por vez. Eles ficam dentro de uma cápsula bastante dura, resistente às intempéries e aos predadores, chamada de ooteca. Uma engenharia quase impenetrável, não fossem as vespas, únicas capazes de quebrá-las para inserir ali seus próprios ovos. A oportunista vespa garante, assim, a sobrevida e o alimento de seus filhotes, na carona da ooteca dos outros. O casulo eclode com inúmeros louva-a-deus minúsculos, ainda sem asas. A sobrevivência é um grande desafio e não por acaso tantos ovos são colocados no mesmo casulo.

Mas qual seriam os benefícios desses pequenos Mantis para nós, humanos? A orientadora dos estudantes do voluntariado no Jardim Botânico, Maria Lucia França Teixeira Moscatelli, responsável pelo Laboratório de Fitossanidade, explica que os impactos do louva-a-deus no meio ambiente são positivos. Eles são reguladores de pragas. “Por ser um predador, o louva-a-deus exerce um controle natural no ambiente”, explica. “Além do controle biológico de pragas, há possíveis usos a partir de compostos químicos de suas ootecas”, diz João Felipe.

Leo, Sávio e João também fizeram uma parceria com Museu Nacional para a identificação de toda a coleção entomológica de louva-a-deus da instituição, que até hoje não foi feita. “As coleções entomológicas carregam história e muita informação. Encontramos louvas coletados em 1907!”, comemora João Felipe. Os futuros biólogos já estão, inclusive, descrevendo uma possível espécie nova, a partir de uma fêmea que foi coletada há 80 anos no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, e que faz parte da coleção do museu. A expectativa do grupo é de que até outubro eles consigam concluir esse estudo.

*Colaborou Adélia Duarte


Escrito por Cristina Bacelar

Cristina Bacelar

Jornalista, atuou como produtora para televisões estrangeiras e trabalhou como repórter e redatora na publicação brasileira da revista HOLA!

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