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Muralha nos olhos dos outros é refresco

O que aconteceria se um Maracanã inteiro estivesse vendo o que você faz?


O goleiro Alex Muralha, do Flamengo, se desculpa por um dos muitos gols que tem levado ultimamente. Foto Heuler Andrey/AFP
O goleiro Alex Muralha, do Flamengo, se desculpa por um dos muitos gols que tem levado ultimamente. Foto Heuler Andrey/AFP

Existe um goleiro que sarcasticamente se chama Muralha e que joga no Flamengo. Por uma infeliz coincidência, Muralha tem cometido seus erros justamente no clube que tem a maior torcida do país, o que faz com que cada trapalhada do infeliz vire uma apoteose hater. Uma pressão que nós, que não trabalhamos com milhares de pessoas nos observando e julgando, não fazemos a menor idéia de como é. Ainda bem.

Mas como reagiriam outros profissionais nessa situação, cometendo erros com uma arquibancada lotada de torcedores no cangote?

Um contador, por exemplo:

Ronildo Cavaquinha trabalha no escritório do Seu Enefrásio. Vai pegar um café e quando volta a mesa dele está no meio de um Maracanã lotado. Como Ronildo é um contador que acredita em licenças poéticas e não gosta de confusão, continua trabalhando, ainda mais que o prazo de entrega do Imposto de renda está acabando

Enquanto procura os documentos do general Agenor Berzegão, um cliente muito importante, a torcida canta feliz seu bordão: “Ronildo, grande batuta, dá a volta no Leão sem nenhuma truta” O próprio chefe, Seu Enefrásio está ao lado do campo aplaudindo o seu funcionário exemplar. Como é bom ser famoso e popular, constata Cavaquinha.

Mas onde estão os os comprovantes médicos do general? Ronildo começa a suar. O tempo passando e nada dos documentos. A torcida já está impaciente e os mais exaltados começam a trocar a rima do batuta no bordão. Nervoso, Ronildo revira a mesa e acaba derrubando o café na declaração do Doutor Gardinel, compadre do Seu Enefrásio. Os torcedores, indignados com a incompetência, passam a exaltar aos gritos a vida sexual da mãe de Cavaquinha. Um colega avisa que suas trapalhadas estão ao vivo na TV e o contínuo da seção aparece para mostrar no celular os milhões de tweets exigindo sua demissão imediata. Cavaquinha percebe que, na beira do campo, o Seu Enefrásio está apontando para ele e dando instruções ao trainee. A torcida também percebe e vai ao delírio, exaltando agora, de maneira homofóbica, gordofóbica e calvofóbica, os atributos físicos de Ronildo, que abandona o campo derrotado.

Imagine trabalhar com mais de 50 mil pessoas gritando no seu ouvido e controlando tudo que é feito? Foto Fernando Soutello/AGIF
Imagine trabalhar com mais de 50 mil pessoas gritando no seu ouvido e controlando tudo que é feito? Foto Fernando Soutello/AGIF

E um motorista de Uber?

Aresmar Birolino está dando voltas na Zona Sul, procurando uma tal de Avenida Copacabana. Mal nota que as calçadas das ruas foram tomadas por arquibancadas, não tem tempo para fábulas e metáforas. Quando vai entrar no Túnel Novo erra o caminho, pega à direita e vai parar do outro lado do Rio Sul. As arquibancadas, cheias de torcedores, começam o coro de Burro! Burro! Burro! Aresmar fica nervoso mas continua em frente, no caso pelo Aterro em direção ao Centro, contrariando o Waze e a torcida, que desesperados apontam na direção contrária.

Na altura do MAM ele finalmente pega o retorno, enquanto os torcedores entoam “Birolino, motorista sem neurônio, leva o passageiro direto pro manicômio”. Ao prestar atenção na voz das arquibancadas ele esquece mais uma vez do Waze, então acaba entrando errado e agora está na Mena Barreto em direção ao Jardim Botânico. No sinal da esquina com a Real Grandeza um grupo de torcedores desesperados bate na janela de Aresmar: “Birolino, sua anta, dobra aqui e pega o Túnel Velho! Do outro lado, outro grupo, mais prático, tenta virar o carro na marra. Birolino, assustado, acelera para fugir e mais uma vez erra o caminho. Agora ele está na Lagoa onde os xingamentos aumentam. Quando passa direto pelo Corte de Cantagalo a torcida perde a paciência, abandona a arquibancada, invade a Epitácio Pessoa e joga o carro de Birolino na Lagoa. Ele consegue fugir, em pânico, correndo em direção à Gávea, o que só confirma o canto das arquibancadas “Birolino, retardado, é imbecil com atestado”

Não se salva ninguém: enquanto escrevo este texto também estou escutando um coro lá fora

Alguma coisa sobre erros ortográficos, frases mal formuladas e uma suposta falta de instrução da minha família, especialmente da minha mãe.


Escrito por Leo Aversa

Leo Aversa

Leo Aversa fotografa profissionalmente desde 1988, tendo ganho alguns prêmios e perdido vários outros. É formado em jornalismo pela ECO/UFRJ mas não faz ideia de onde guardou o diploma. Sua especialidade em fotografia é o retrato, onde pode exercer seu particular talento como domador de leões e encantador de serpentes, mas também gosta de fotografar viagens, especialmente lugares exóticos e perigosos como Somália, Coréia do Norte e Beto Carrero World. É tricolor, hipocondríaco e pai do Martín.

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