Compartilhar, , Google Plus, Linkedin, Whatsapp,

Imprimir

Publicado em

Impacto social empresarial

Do mero cumprimento das leis ao envolvimento responsável com as comunidades, a evolução dos negócios sustentáveis


Os componentes da banda "Freedom" picham os muros de uma fábrica de automóveis abandonada, em Detroit, em protesto contra a crise na cidade
Os componentes da banda “Freedom” picham os muros de uma fábrica de automóveis abandonada, em Detroit, em protesto contra a crise na cidade

Um tema recorrente tem frequentado o debate sobre cultura corporativa nas últimas décadas: o impacto social da atuação das empresas. Essa discussão trouxe uma série de novidades no modo como as empresas veem a si mesmas e ao seu entorno. Como quase tudo que diz respeito a uma necessária mudança de paradigma, porém, o advento desse tema foi marcado por uma quantidade grande de incompreensões. Quando se falava, até pouco tempo atrás, tanto de impacto social quanto de impacto ambiental, a primeira coisa que vinha à cabeça dos dirigentes formados à moda antiga era o temor extremo de multas e punições decorrentes de eventuais acidentes ou do descumprimento de uma legislação ambiental e trabalhista. As empresas adotavam uma posição reativa e buscavam, naturalmente, uma defesa que lhes assegurasse viabilidade no sentido de seguir com suas atividades.

A sobrevida dos negócios já não é mais uma questão que se exaure no cumprimento de metas e estatísticas. Ela depende crescentemente do bem-estar de todos.

O amadurecimento das partes envolvidas nessa discussão passou por uma nova compreensão do papel que as empresas desempenham no contexto das comunidades em que estão inseridas. As direções corporativas começaram a ser percebidas não apenas como empregadoras e pagadoras de impostos. Elas são muito mais do que isso. Elas desempenham um papel decisivo nas comunidades em que estão inseridas. Para o bem ou para o mal, sua atuação afeta todas as formas de vida e organização social do ambiente com que se relacionam.

A inserção global dos grandes conglomerados, e mesmo dos não tão grandes assim, passou a ser vista como o contraponto de sua atuação local. Como as cadeias são planetárias, as cobranças por responsabilidade e consciência não podem mais ser vistas como um problema atinente à esfera da relação das empresas com a autoridade local. São, antes, um imperativo que decorre do papel requerido por sua inserção em um mundo multifacetado. As comunidades que se relacionam com as empresas são, cada vez mais, compreendidas como parte integrante de seu escopo de atuação e as firmas tendem a enxergar-se, cada vez menos, como entidades voltadas exclusivamente para seus próprios objetivos e metas.

Não é difícil, por exemplo, imaginar o quão significativa pode ser a presença de uma empresa numa pequena cidade – a Anglo American e a Alcoa, por exemplo, desenvolveram ferramentas e metodologias próprias para gerir seu relacionamento com a comunidade em torno de suas operações.  Populações definem seus modos de vida atreladas às firmas das quais dependem seus empregos e os impostos que garantem os serviços de que se valem. Mesmo metrópoles muito grandes definem seu futuro e perspectiva na dependência dos passos dados por corporações ou setores da economia. Detroit, a antiga capital do automóvel, que já foi exemplo de prosperidade inigualável, ensina, com sua avassaladora decadência, como os rumos da economia impactam, profundamente, os sonhos e os projetos de uma comunidade.

Uma nova cultura tem emergido a partir da compreensão da amplidão que a atuação corporativa adquire quando a vemos como parte de uma cadeia, de um emaranhado de responsabilidades entrelaçadas. Uma cultura complexa e multifacetada como a própria realidade social em que se desdobra. Cadeias globais significam responsabilidades também globais. Responsabilidade com os temas da sobrevivência do planeta.

Por outro lado, a empresa vai tomando consciência de que as dimensões de sua responsabilidade abrangem inclusive os modos como organiza seu processo produtivo, sua planta industrial, as preocupações com as condições de atuação do capital humano, que ao fim, é sempre a base em que se assentam suas possibilidades de expansão e permanência no negócio. Casos como a Academia Brasil Kirin e da EYU, projetos que tem como foco principal o desenvolvimento dos colaboradores ilustram este ponto.

Dirigentes conscientes e antenados com o mundo e a comunidade geram uma cultura empresarial onde funcionários e comunidade se enxergam como parte do sucesso da empresa. A sobrevida dos negócios já não é mais uma questão que se exaure no cumprimento de metas e estatísticas. Ela depende crescentemente do bem-estar de todos.


Escrito por Marina Grossi

Marina Grossi

Marina Grossi é economista, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) desde 2010. Foi negociadora do Brasil na Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima entre 1997 a 2001 e coordenadora do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas entre 2001 e 2003. Participou das negociações do Protocolo de Kyoto.

12 posts

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *