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Energia dos ventos na Espanha

País já é o segundo maior produtor da Europa e só perde para Alemanha

Cierzo, o vento que tem nome, nasce no alto do Moncayo, a 2.300 metros de altitude, entra pelo vale do rio Ebro e varre a província de Zaragoza, em Aragão, Espanha. Congela todas as caras e despenteia as cabeças, mas tem força suficiente para mover as pás de centenas de moinhos de vento. A Espanha já é o segundo país europeu que mais produz energia a partir da força do vento, ficando apenas atrás da Alemanha. Segundo a Asociación Empresarial Eólica, até o final de 2014 a potência instalada no país era de 22.986,5 MW. Responsável pela cobertura de 20% da demanda de energia de todo o país, segundo a Asociación Empresarial Eólica (AEE), o setor dá trabalho a mais de 20 mil pessoas e é uma das apostas da economia espanhola para diminuir a dependência do país das importações de gás e petróleo.

Zaragoza é uma das províncias espanholas que mais viu crescer o número de moinhos nos últimos anos. Terra desértica, escassamente povoada, ocupada por oliveiras e pastores de ovelhas, encontrou na energia eólica uma forma de crescimento econômico rápido e outro modo de fixar a população no campo.

A pequena Fuendetodos, cidade da província de Zaragoza, localizada a 320 km de Madri, era, até pouco tempo, mais conhecida pelo filho ilustre: o pintor Goya. A experiência bem sucedida de integração entre a geração eólica e o meio rural rendeu, no ano passado, para a cidade o prêmio Eolo , concedido pela Asociación Empresarial Eólica. Gerenciado pela Iberdrola, o parque de Fuendetodos tem uma capacidade instalada de 130 MW, chegando a produzir 300 mil MW&/h e  capaz de abastecer 10 mil casas.

O desenvolvimento de Fuendetodos está relacionado com aspectos culturais. Tivemos que adaptar o crescimento do parque eólico a estes aspectos

Francisco Lopez
Iberdrola

Como aspectos culturais leia-se tudo a que se refere e gire em torno do gênio Goya. Na pequena cidade, está a casinha onde o pintor nasceu e também um museu dedicado a suas gravuras, que atrai visitantes de todo o mundo. A companhia elétrica investiu diretamente na infra-estrutura para melhor receber o turista, apoiando hotéis rurais, pequenos restaurantes e comércio local, que atendem não somente ao visitante, mas também aos trabalhadores do parque.

“A abertura destes parques permitiu que a prefeitura pudesse modernizar a cidade. Trocar o pavimento das ruas, renovar o abastecimento de água pública”, afirma Miguel Salueña, responsável pela infra-estrutura da cidade.

Ventos da corrupção

Com o Cierzo a favor, se espera que o desenvolvimento da energia eólica continue gerando riqueza para o meio rural espanhol. E que o bom vento leve para longe o mal da corrupção. Sim, porque a produção eólica espanhola atraiu políticos aproveitadores. O epicentro da má versação de recursos está na cidadezinha de La Muela, a 20 km de Zaragoza capital, no meio do caminho entre Madri e Barcelona.

A população de La Muela pulou de 800 a 5 mil habitantes nos anos 1980, ao mesmo tempo em que surgiam no horizonte os primeiros aerogeradores. Atualmente são 500 os moinhos instalados no município, o segundo maior parque da Espanha, explorados por 15 diferentes empresas.

Cada aerogerador produz 600 kw de energia e abastece 600 famílias por ano. Toda a produção vai para as redes elétricas. É uma indústria que movimenta bastante dinheiro. O custo de implantação de um moinho gira em torno de 800 mil e 1 milhão de euros por MW (entre 3, 3 milhões e 4,1 milhões de reais aproximadamente). Negócios estranhos começaram a ocorrer na cidade: obras suntuosas, como um auditório inaugurado com show de Julio Iglesias, e até distribuição de pacotes de viagens para o Caribe e Salvador patrocinados pela prefeitura.

A bonança terminou em 2009, quando a polícia prendeu a então prefeita Maria Victoria Pinilla, que, hoje, responde a processo em liberdade. Foram indiciados 49 políticos e empresários locais. A operação ficou conhecida como “Operación Molinos” (Operação Moinhos). Todos os envolvidos são acusados de corrupção ativa e uso indevido do dinheiro público.

“Infelizmente, La Muela não representa um modelo de economia sustentável que se pretendia. Era uma forma de esconder a especulação imobiliária. Neste momento, a cidade ganha com os moinhos 300 mil euros anuais (um 1,2 milhão de reais) e deve 16 milhões euros (65 milhões de reais). Os moinhos serviram de fachada para a corrupção no município”, afirmou em entrevista Adrián Tello, atual prefeito de La Muela, eleito este ano.

Como resultado da “Operación Molinos”, a cidade parou: esqueletos de edifícios sem terminar, museus fechados, dificuldade para pagar até mesmo o serviço de coleta de lixo. Assim como as viagens para paraísos tropicais.

Escrito por Rosane Marinho

Rosane Marinho

É jornalista, carioca, e há dez anos vive em Zaragoza, na Espanha. No Rio, trabalhou como fotógrafa na sucursal da Folha de São Paulo, em seguida no Jornal do Brasil e foi correspondente do O Globo em Recife. Na Espanha, é professora de fotografia digital e continua trabalhando como jornalista freelancer. Casada, é mãe de dois pequenos hispano-brasileiros.

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