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O agro é pop

Agronegócio chega ao horário nobre com suas mazelas e virtudes


Antônio Fagundes interpreta o poderoso Afrânio de Sá Ribeiro, um coronel em estilo antigo
Antônio Fagundes interpreta o poderoso Afrânio de Sá Ribeiro, um coronel em estilo antigo

Imagino a seguinte cena: patrões do agronegócio brasileiro reunidos em uma sala esfumaçada. Queixam-se em discursos inflamados de como andam mal vistos, em baixa, pouco valorizados, com sua imagem e suor constantemente denegridos. Citam os ambientalistas. “Estes sim!”, vejo um esbravejar, “é que agora posam na mídia como os futuros salvadores deste país”. Decidem não sair daquela reunião sem uma lista de agências de publicidade na mão. É preciso virar este jogo.

Se as polêmicas paixões proibidas da novela forem suficientes para garantir sua audiência, cada vez mais brasileiros terão a chance de descobrir que há muitos caminhos para a agricultura que está na mesa, na indústria, na ciência e na vida de todos que passam ao largo de práticas e conceitos tradicionais muitas vezes danosos para o ambiente e a saúde humana.

Pois que algo curioso emerge da televisão aberta recentemente. Se nunca antes na história do horário nobre havíamos ouvido tanto falar de temas como agricultura sustentável, familiar, orgânica e dos modos de cultivo que valorizam a relação do homem com a terra, eis que surge uma campanha publicitária, longa e bem trabalhada, veiculada nos intervalos e chamadas da novela das oito, para falar das maravilhas do agronegócio.

A campanha em questão tem como assinatura o mote “Agro é Tudo”. Exalta, em belas imagens, edição emotiva e tom jovem, a força e a abrangência do setor. O agro está na mesa, na indústria, na ciência, na moda, cita o filme, ilustrado por cenas de vastas monoculturas, do verde da folha da cana, do ruminar de um boi. “O agro é pop, o agro é tech”, segue o texto. “O agro  está em tudo, o agro está na Globo”, termina a campanha, antes de apresentar seus apoiadores – a empresa de embutidos Seara e a pick-up Ford Ranger – cuja estratégia de vendas é posicionar-se como a marca do produtor. Tudo isto entre uma cena e outra de “Velho Chico”, a novela das oito. Será o início de uma batalha velada para ganhar o coração e a mente do brasileiro?

Velho Chico – que não goza dos maiores índices de audiência, mas ainda assim supera o que qualquer canal de divulgação de nicho ambiental é capaz de alcançar cotidianamente no país – já há algum tempo rende bafáfás e ti-ti-tis em rodas de ambientalistas. Que um ou outro comentário resvale na atuação do Antônio Fagundes ou no estilo dramatúrgico da trama, o que se comenta com entusiasmo e boas doses de admiração é a sofisticação de seu conteúdo ambiental, cuidadosamente construído em parceria com a ONG Conservação Internacional.

Velho Chico estreou em março de 2016 com promessas de bela fotografia do sertão da Bahia e uma inusitada trilha sonora de ícones nordestinos da música brasileira. Embalados pela abertura ao som de Tropicália, de Caetano Veloso, os personagens representam um enredo rural com toques shakespearianos. O rico coronel Afrânio de Sá Ribeiro, vivido por Antônio Fagundes, tem uma disputa de morte com outra família da fictícia localidade de Grotas de São Francisco. Sua filha Maria Thereza apaixona-se pelo jovem galã do clã rival, Santo, mas o ódio entre as famílias – e as tramoias do caminho – separa o casal. O filho que nasce desta união proibida, até o momento, desconhece a verdadeira identidade de seu pai de sangue.  Tudo normal para uma novela, certo? Mas a graça está nos detalhes.

Giullia Buscacio e Gabriel Leone vivem Olívia e Miguel, um casal apaixonado por agricultura sustentável
Giullia Buscacio e Gabriel Leone vivem Olívia e Miguel, um casal apaixonado por agricultura sustentável

Retrato de gerações

Coronel Afrânio é rico negociante de frutas. Tipo físico, comportamento e ideias que representam o velho país colonial na figura do “coronézinho” nordestino. Rancoroso, machista, autoritário, antiquado, Afrânio comanda os negócios na fazenda e na política local com base em ameaça e corrupção. Do outro lado está Santo, o filho do único agricultor da cidade que ousou enfrentar o “coroné” e seus cruéis capangas. Santo é líder da cooperativa da cidade e age com bom senso e justiça. Maria Thereza, a filha do malvado coronel e sua eterna paixão, também é boa gente. Enfrenta o pai,  tem visão estratégica, sensibilidade social e quer trazer mais lucros para a fazenda respeitando as regras ambientais básicas. São filhos de um pensamento agrícola mais moderno, que parece entender que sem respeito aos elementos básicos – água, solo e clima – não haverá agricultura nem para o pequeno, nem para o grande.

Mas até eles já estão antiquados neste enredo. Quem vem ganhando importância na trama é a novíssima geração, os netos da agricultura convencional. Olívia é filha de Santo. Simples, porém engajada e politizada, a moça cuida da gestão da fazenda do pai, batalhando para que ele não desista da cooperativa, que sofre constantes sabotagens do coronel . De quebra, tem ideias próprias. Vê o futuro onde muitos olham com descaso. Acredita na agricultura familiar como a chave para o desenvolvimento rural inclusivo. Sonha com orgânicos, mas é desencorajada pela pai – “Não dá para pensar no verde enquanto estão todos no vermelho”, argumenta em determinada cena o personagem de Santo, em discussão com a filha. Persistente, ela garante que dá e denuncia o perigo à saúde do uso excessivo de defensivos químicos nas plantações. Apesar do idealismo, busca respaldo na ciência e nos números para provar que está certa. Aos poucos, parece ir dobrando o ceticismo da família.

 O tech está na natureza

Olívia, no entanto, está só começando a conhecer as vastas possibilidades que este campo traz.  Recém-chegado da França, onde foi feito doutor em agronomia com ideias revolucionárias, está Miguel. O bonitão é neto e grande herdeiro do temido Afrânio, que tinha para eles planos sucessórios à moda antiga – o de fazer do rapaz o novo “coroné” de Grotas. Miguel, no entanto, não só não leva jeito para ser um grande senhor de terras, como é radicalmente contra tudo o que diz respeito ao modo de operação do avô. O rapaz volta para Grotas depois de anos no exterior – propositalmente afastado da cidade onde o segredo sobre seu pai verdadeiro, Santo, é mantido a sete chaves – determinado a colocar a mão no solo para provar as teorias que tanto estudou. Sofisticado, contemporâneo, antenado e sensível, Miguel representa o que há de mais arrojado e inovador.

A ideia básica por trás do que prega o fictício revolucionário da novela é de que o saldo da atividade agrícola humana deve ser positivo para ambos os lados – para quem planta e colhe e para a natureza que tudo provê.  No lugar de monoculturas que destroem o solo, desperdiçam e contaminam as águas e contribuem para as mudanças climáticas, Miguel sonha com agroflorestas. Nestes sistemas, cultivos agrícolas variados e sazonais compartilham espaço com espécies de árvores e a criação de animais, preservando a biodiversidade, os recursos naturais e eliminando o uso de químicos nocivos. Ao invés de buscar adequar as espécies para que resistam aos modos de cultivo criados pelo homem, o rapaz acredita em respeitar o ritmo da natureza, aproveitando sua riquíssima dinâmica para produzir comida em abundância sem malefícios.

Sonhadores, determinados e apaixonados por agricultura sustentável, Olívia e Miguel caem de amores. Como novela boa não se faz sem uma dose de romances impossíveis, este caso promete apimentar a trama, pois até onde sabe o telespectador, os dois são na verdade meio irmãos de sangue criados em berços opostos. Se as polêmicas paixões proibidas da novela forem suficientes para garantir sua audiência, cada vez mais brasileiros terão a chance de descobrir que há muitos caminhos para a agricultura que está na mesa, na indústria, na ciência e na vida de todos que passam ao largo de práticas e conceitos tradicionais muitas vezes danosos para o ambiente e a saúde humana. Não há nada com potencial mais revolucionário do que a consciência, parece terem pressentido os barões do agronegócio.  O agro, sustentável, nunca foi tão pop.


Escrito por Juliana Tinoco

Juliana Tinoco

Jornalista e mestre em Meio Ambiente e Desenvolvimento pela London School of Economics (LSE). Cobre temas ambientais e científicos desde os tempos de faculdade de comunicação na UFRJ. Passou pelo O Eco, Ciência Hoje Online, Canal Futura e pela área de comunicação do Greenpeace. Foi coordenadora de comunicação no Museu do Meio Ambiente e no Museu do Amanhã.

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9 Comentários

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  1. Boa tarde. Gostaria de saber quanto que a Dra. Juliana já produziu de alimento? De quantos hectares ela já cuidou? Quais as tecnologias ela já utilizou para tirar mais e melhor da terra, sem degradá-la, para alimentar a um valor mais justo? Está disposta a pagar R$ 10,00 por um tomate orgânico? Ótimo, mas esta não é a realidade de 92% dos brasileiros.

  2. Todos nós queremos comer alimentos orgânicos, porém produzir o quantidade que o ser humano necessita que é difícil. Penso que caminhamos para isso, porém é preciso de muita tecnologia para conseguir. Ninguém é contra todos querem, porém entre a vontade e a condição existe uma distância significante. Saber o caminho certo ninguém sabe, tem pessoas que não comem animais, outras nem derivados de animais, outros só orgânicos, enfim qual é o caminho que a sociedade deve tomar. Sabemos que estamos indo para um planeta com 9 bilhões de pessoas até 2050 e que a expectativa de vida, a cada ano, aumenta mais. Assim observamos que este equilíbrio depende muito do conhecimento e da vontade de cada um aqui neste planeta. O certo e o errado vai depender dessa compreensão e da inovação da cada país.

  3. Belo texto, essa novela chegou para refletirmos. Pra quem não sabe, a Agricultura Familiar é responsável pela maior parte da alimentação da população brasileira, hoje em dia o conhecimento sobre produções sustentáveis, orgânicas e sintrópicas é imenso e existem diversos modelos em funcionamento como exemplo as agroflorestas e a permacultura, o desafio maior é produzir em escala e para isso falta incentivo já que todo investimento vai para os sistemas extrativistas dos grandes latifundiários que produzem commodities para exportação.

  4. OI Juliana,
    obrigado por resumir a nova. Eu tinha ouvido falar que tinha uma pegada ambiental, mas não assisto.

    Ao mesmo tempo, havia notado os mini-comerciais do agro que esconde problemas sérios. O agro só vai ser pop quando apoiar o desmatamento zero. E só vai ser tech quando usar bem os 52 milhões de hectares de pastos degradados.

    • SUGIRO PARA MELHOR COMPREENDER E POIAR O PROJETO COLABORA, ADQUIRIR E LER O LIVRO “UMA OBRA EM VERDE” DE EUGÊNIO GIOVENARDI, EDITORA “KIRON”I!! OBRA ABRANGENTE; DE VISÃO CÓSMICA; É A VIDA EM PROCESSO. QUEM FAZ ECOLOGIA PRODUZ VIDA; PARABÉNS JULIANA TINOCO.

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