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No BBB de Paula, Jean Wyllys e Gleici não teriam chances

Apesar de ser acusada de racismo e intolerância religiosa, mineira é favorita ao prêmio num retrato do Brasil que elegeu Bolsonaro


No BBB de Paula, Jean Wyllys e Gleici não teriam chances
Jean Wyllys, Paula von Sperling e Gleici Damasceno: participantes do BBB em momentos diferentes do país. (Reprodução)

Nesta sexta-feira, 12 de abril, uma das finalistas da 19ª edição do BBB é a mineira Paula Von Sperling, bacharel em Direito de 28 anos. A princípio, a participante chamou a atenção pelo sotaque carregado e pelas suas peculiaridades: tem uma porca enorme de estimação, a Pippa. Mas, logo depois, outras facetas da confinada foram reveladas. Acusações de racismo e intolerância religiosa contra a participante ganharam as manchetes policiais. Se tudo seguir conforme as pesquisas, Paula, mesmo assim, levará R$ 1,5 milhão para a casa – o que me faz recordar de outra final com um participante bem conhecido do público brasileiro.

Numa terça-feira, 29 de março, há 14 anos, Jean Wyllys era escolhido como o vencedor do reality show de maior audiência da TV brasileira. Antes disso, já estava praticamente certa a sua eliminação no primeiro paredão. Tudo mudou após declarar ao vivo que era homossexual e que se sentia perseguido dentro da casa. Conclusão: causou comoção e ganhou a empatia do público. Jean virou ídolo!

Paula é a cara do país eleitor de Bolsonaro. Diz que cotas raciais são uma forma de racismo, defende valores tradicionais e, por meio de suas declarações, parece acreditar em privilégios das minorias

“Aconteceu algo absolutamente inédito nesse paredão. Uma reação que nunca houve na história deste programa”, anunciou Pedro Bial, então apresentador da competição, minutos antes do resultado. Jean estava com 70% dos votos para sair, mas, justamente por conta do seu discurso, virou o jogo e se manteve como favorito durante todo o restante da atração. O ano era 2005. O Brasil ainda engatinhava em relação aos direitos LGBTs. O casamento entre pessoas do mesmo sexo, por exemplo, só seria regulamentado oito anos depois. Defensor das causas da comunidade, Jean foi eleito deputado federal três vezes consecutivas. Só largou o mandato em razão de ameaças à sua vida.

O mesmo Brasil que defende Paula é aquele que afirma que homofobia, bullying, feminismo e racismo não passam de “mimimi”

Eis a pergunta: e se Jean tivesse participado do BBB em 2019? O que mudaria? Diante do que o público vem mostrando na atual edição, não tenho dúvidas que ele seria eliminado no primeiro paredão. Vamos aos fatos: o mesmo Brasil que defende Paula é aquele que afirma que homofobia, bullying, feminismo e racismo não passam de “mimimi”. É o mesmo Brasil que afirma, com deboche: “Na minha época a gente xingava, e era tudo na brincadeira, hoje tudo é preconceito. O mundo está chato demais”.

As polêmicas de Paula, listadas abaixo, são vistas por seus seguidores como apenas uma maneira espontânea da mineira se expressar, ingenuidade ou falta de conhecimento. Relembrando: Paula é bacharel em Direito.

1 – Durante uma conversa, a sister contou sobre o caso de uma amiga que foi esfaqueada pelo namorado e disse ter ficado chocada ao ir ao tribunal. Esperava “um faveladão”, mas encontrou”um branquinho” sendo julgado.

2 – Em uma festa, Paula disse ter medo de Rodrigo, outro participante, por ele ter contato “com esse negócio de Oxum”.

3 – Após a sister Gabriela contar sobre um caso de lesbofobia, a mineira disparou: “Porque tem uns gays que provocam o público para se autoafirmar na sociedade. Começam a se beijar e a se jogar. Acho muito feio, muito estranho”.

Paula também já deixou escapar durante o confinamento a confiança no mandato do atual presidente do Brasil: “Deve estar indo bem. Pior que estava, não fica”. Aliás, ela é a cara do país eleitor de Bolsonaro, não é mesmo? Diz que cotas raciais são uma forma de racismo, defende valores tradicionais e, por meio de suas declarações, parece acreditar em privilégios das minorias. Suas falas poderiam estar perfeitamente na boca do presidente, sem espanto, e vice-versa.

Mesmo sem saber – e talvez até sem querer – Paula acabou surfando na onda de intolerância que tomou conta do Brasil desde as últimas eleições presidenciais. Saiu do armário assim como milhões de brasileiros. É a prima ou tia no Natal da família que diria que o Deus da sua religião é maior que os outros (ela realmente disse isso). A diferença é que está sendo monitorada 24 horas por dia. Inclusive, será intimada a depor na Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância após sair do reality.

O favoritismo de Paula também pode ser explicado pelo aumento dos fã-clubes. Ela tem centenas espalhados pelas redes sociais. Com a queda da audiência do programa na TV e com o fim das votações por telefone, a decisão fica nas mãos dos grupos mais fanáticos.

Diante disso, a fala de Jean sobre a rejeição que sentiu na casa por ser gay seria facilmente interpretada como “vitimismo” em uma imaginária participação em 2019. O público de Paula não perdoaria e, com certeza, votaria em peso para sua eliminação. O ídolo tornaria-se o defensor da “ditadura” e do inexistente kit gay.

Voltando um pouco menos no tempo, na edição de 2018, venceu a acreana Gleici Damasceno: mulher pobre, negra e fora dos padrões estéticos. No cenário atual, ela também poderia não ter chances. Seria do grupo das minorias, ou da “Gaiola” – como ficou conhecido – juntamente com Danrley e Elana: ambos eliminados em paredões com Paula.

Talvez não seja tarefa tão simples analisar o que mudou do BBB de Jean para o BBB de Paula por conta do longo espaço de tempo. Mas sabemos exatamente o que teve no meio do caminho entre os dois últimos programas. O que é uma pena.


Escrito por Yuri Fernandes

Formado em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora, é mineiro de Ipatinga. Sempre sonhou em morar no Rio de Janeiro e realizou seu desejo em 2014 ao passar para o programa de estágio da TV Globo. Trabalhou nas redações do "Bom Dia Brasil", do "Jornal Nacional" e do "EGO". Tem grande interesse em pautas de inclusão social e diversidade de gênero. Acredita que o jornalismo pode e deve ser usado como forma de combater a opressão a minorias. Cresceu vendo novelas e sempre manteve essa paixão viva.

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