Brasil: metas da ONU sob risco

Indicadores sociais despencam, atingindo especialmente crianças e adolescentes. Objetivos do Desenvolvimento Sustentável podem não ser atingidos pelo país

Por Liana Melo | Artigo
Publicada em 26 de julho de 2017 - 17:00  -  Atualizada em 27 de julho de 2017 - 17:33
Tempo de leitura: 8 min

Mae e seus tres filhos na Bahia. Foto de Bernard Foubert/ Photononstp/ AFP
Mae e seus tres filhos na Bahia. Foto de Bernard Foubert/ Photononstp/ AFP
Mãe e seu três filhos pequenos na Bahia, um dos estados brasileiros onde a pobreza extrema atinge 24,7% da população entre zero e 14 anos. Foto de Bernard Foubert/ Photononstp/ AFP

Faz apenas três anos que o Brasil saiu do Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO). Só que a fome continua à espreita. Só no Maranhão, 62% da população de 0 a 14 anos vivem em famílias com renda de até meio salário mínimo – condições econômicas tão degradantes, que é impossível garantir a ingestão diária de calorias consideradas indispensáveis pela própria FAO. O Maranhão lidera a lista do indicador de pobreza extrema nesta faixa etária, seguido do Ceará, Alagoas, Bahia e Paraíba. Os dados fazem parte de um levantamento da Fundação Abrinq, que analisou os principais indicadores brasileiros relacionados a crianças e adolescentes com base nos dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) 2015.

Há décadas protagonista de um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do país – perde apenas para Alagoas -, a terra comandada pela família Sarney, durante décadas, também ostenta indicadores vergonhosos em outros marcadores de pobreza. É um dos cinco estados brasileiros com o pior percentual de menores de 5 anos com baixa estatura – característica intrínseca a crianças subnutridas, que não atingem, portanto, um desenvolvimento compatível com a idade. A frequência a médicos e dentistas é baixa, entre a população local de 0 a 17 anos, girando em torno de 60,1% e 27,5% respectivamente. O estado também está listado, ao lado de São Paulo e Rio de Janeiro, como um dos cinco com pior desempenho em óbitos maternos.

Vulnerabilidade social

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Menor dormindo ao relento, no Rio de Janeiro. Foto de Luiz Souza/ NurPhoto/ AFP
A erradicação da pobreza é um dos ítens dos ODS que a Abrinq aponta risco o país não atingir até 2030. Foto de Luiz Souza/ NurPhoto/ AFP

Os predicados do Maranhão não são exclusivos do estado nordestino. Dentre a população brasileira de zero a 14 anos, 40,2% se encontra em situação de pobreza. O percentual corresponde a mais de 17,3 milhões de jovens pobres no Brasil. Em números absolutos, o Sudeste tem mais de 4,5 milhões de crianças e adolescentes vivendo em condição de pobreza familiar; no Nordeste, são cerca de 8 milhões. e, no Norte, pouco mais de 2,5 milhões.

Pobreza extrema, estudo da Abring sobre os ODS. Arte de Fernando Alvarus
Arte de Fernando Alvarus

Com indicadores sociais tão preocupantes, não à toa o país está correndo o risco de não cumprir as metas associadas à infância e adolescência dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) – um conjunto de ações definidas pelas Nações Unidas, do qual o Brasil é signatário juntamente com outros 192 países. E o pior: o país ainda está correndo o risco de voltar a ter assento na Mapa da Fome, segundo um relatório divulgado, no começo do mês, por 20 entidades da sociedade civil, entre elas Ibase e ActionAid.

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Nesse cenário, a Abrinq viu a necessidade de produzir um documento paralelo sobre a situação da infância e adolescência brasileiras, pela importância dessa população para a promoção do desenvolvimento efetivamente sustentável, chamando a atenção dos governos e da comunidade internacional sobre a situação de vulnerabilidade das crianças e adolescentes brasileiros diante dos desafios propostos pelos ODS, algo que pode comprometer o sucesso do Brasil no cumprimento do acordo internacional

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O alerta de que o país corre o risco de não atingir as metas nos ODS foi feito pela Fundação Abrinq, que, esta semana, lançou o marco zero dos principais indicadores brasileiros relacionados a crianças e adolescentes. A entidade apontou vulnerabilidades em quatro objetivos: 1 (erradicação da pobreza), 2 (fome zero), 3 (boa saúde e bem-estar) e 5 (igualdade de gênero) em 2030.

O estudo, segundo Heloísa Oliveira, administradora executiva da instituição, foi uma resposta ao documento apresentado pelo governo brasileiro durante o Fórum Político de Alto Nível da ONU, que ocorreu em Nova Iorque, no começo do mês. De forma voluntária, o governo entregou à ONU um relatório sobre as ações que vêm sendo adotadas no Brasil nesses dois anos em relação aos ODS 1, 2, 3, 5, 9 (indústria, inovação e infraestrutura), 14 (vida debaixo d´água) e 17 (parceria em prol das metas).

“Nesse cenário, a Abrinq viu a necessidade de produzir um documento paralelo sobre a situação da infância e adolescência brasileiras, pela importância dessa população para a promoção do desenvolvimento efetivamente sustentável, chamando a atenção dos governos e da comunidade internacional sobre a situação de vulnerabilidade das crianças e adolescentes brasileiros diante dos desafios propostos pelos ODS, algo que pode comprometer o sucesso do Brasil no cumprimento do acordo internacional”, comentou Heloísa.

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Como um dos representantes da sociedade civil na Comissão Nacional para os ODS, comandada pela Casa Civil da presidência da República, a Abrinq vai lançar uma série de documentos paralelos, até o final do ano, analisando a situação do país nos indicadores voltados para a infância e adolescência que ainda faltam ser avaliados.

O de número 8, por exemplo, que trata de trabalho decente e crescimento econômico, sofreu revés há alguns dias. Ofício que circulou entre os chefes de Fiscalização do Trabalho informava que “os recursos das (superintendências) regionais serão limitados em 30% dos valores previstos para o ano, enquanto o contingenciamento estiver vigente”- o que, em bom português, significa que o combate ao trabalho escravo urbano e rural serão afetados.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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