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Emilia Pérez: por que tantas pessoas detestam filme indicado a 13 Oscars?
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Filme ambientado no México recebe pesadas críticas, principalmente dos mexicanos, por sua abordagem do tráfico de drogas, da violência, das vítimas e das pessoas trans
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(Alejandra Marquez Guajardo*) – O filme Emilia Pérez, do diretor francês Jacques Audiard, fez sucesso entre os críticos no Festival de Cinema de Cannes em maio de 2024, quando ganhou vários prêmios. Recebeu 10 indicações ao Globo de Ouro, ganhando quatro, incluindo melhor musical ou comédia (e melhor filme em língua não inglesa, derrotando o brasileiro Ainda Estou Aqui).
“É tão lindo ver um filme que é cinema”, disse o diretor mexicano Guillermo del Toro (vencedor do Oscar de Melhor Filme e Melhor Diretor por A Forma da Água, em 2018). Outra cineasta mexicana, Issa López, diretora de “True Detective: Night Country”, série da Max, chamou Emilia Perez de “obra-prima”, acrescentando que Audiard retratou questões de gênero e violência na América Latina “melhor do que qualquer mexicano que enfrenta esse problema neste momento”.
O filme é um musical sobre uma traficante mexicana chamada Manitas del Monte, interpretada pela atriz trans Karla Sofía Gascón. Del Monte contrata um advogado para facilitar sua tão esperada transição de gênero. Após a cirurgia, ela finge sua morte com a ajuda de seu advogado e envia sua esposa, Jessi, interpretada por Selena Gómez, e seus filhos para a Suíça. Quatro anos depois, Manitas — agora conhecida como Emilia Pérez — tenta se reunir com sua família se passando por prima distante de Manitas.
Então por que está fracassando entre os espectadores mexicanos?
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Veja o que já enviamosComo acadêmica de gênero e sexualidade na América Latina, estudo a representação LGBTQ+ na mídia, particularmente no México. Então tem sido interessante acompanhar a reação negativa a um filme que os críticos afirmam ter aberto novos caminhos na exploração de temas de gênero, sexualidade e violência no México.
Muitos dos erros percebidos do filme parecem autoinfligidos. Audiard admitiu que não fez muita pesquisa sobre o México antes e durante o processo de filmagem. E mesmo sem falar espanhol, ele escolheu usar um roteiro em espanhol e filmar Emilia Perez em espanhol. O diretor disse, em entrevista a um canal francês, que escolheu fazer o filme em espanhol porque é uma língua “de países modestos, países em desenvolvimento, de pessoas pobres e migrantes”.
Não é de surpreender que uma crítica inicial ao filme tenha se centrado em seu espanhol: ele usa algumas gírias mexicanas, mas elas são faladas de maneiras que soam artificiais para falantes nativos. Depois, há a dependência excessiva do filme em clichês que beiram o racismo, talvez mais flagrantemente quando a filha de Emilia canta que ela cheira a “mezcal e guacamole”.
É claro que um artista não precisa pertencer a uma cultura para retratá-la ou explorá-la em seu trabalho. Cineastas como Sergei Eisenstein e Luis Buñuel se tornaram figuras renomadas no cinema mexicano, apesar de terem nascido na Letônia e na Espanha, respectivamente.
Ao escolher explorar tópicos delicados, no entanto, é importante levar em consideração a perspectiva daqueles que estão sendo retratados, tanto por uma questão de precisão quanto como uma forma de respeito. Vejam Assassinos da Lua das Flores, de Martin Scorsese: o diretor trabalhou com membros da nação indígena Osage para aumentar a precisão histórica e cultural do filme.

Ignorando nuances
Emilia Pérez foca em como a violência decorre da corrupção predominante no México. Vários números musicais denunciam o conluio entre autoridades e criminosos. Isso é certamente verdade. Mas, para muitos mexicanos, parece uma simplificação exagerada da questão.
O filme falha em abordar a confluência de fatores por trás da violência do país, como a demanda dos consumidores dos EUA por drogas ilegais decorrente de sua crise de opioides, ou o papel que as armas americanas desempenham na violência do México.
O professor e jornalista Oswaldo Zavala, que escreveu extensivamente sobre cartéis mexicanos, argumenta que o filme perpetua a ideia de que os países latino-americanos são os únicos culpados pela violência do tráfico de drogas. Além disso, Zavala afirma que essa perspectiva reforça a narrativa de que a fronteira EUA-México precisa ser militarizada.
O musical apresenta poucos personagens masculinos; os que aparecem são invariavelmente violentos, e isso inclui Manitas antes de passar por sua transição. A crueldade de Manitas contrasta com a gentileza de Emilia: ela ajuda as “madres buscadoras”, que são os coletivos mexicanos compostos por mães que procuram entes queridos desaparecidos, supostamente sequestrados ou mortos pelo crime organizado.
Um desses coletivos, o Colectivo de Víctimas del 10 de Marzo, criticou o filme por retratar grupos como o deles como destinatários de dinheiro do crime organizado e beneficiários de galas luxuosas frequentadas por políticos e celebridades. A líder do grupo, Delia Quiroa, anunciou que o grupo enviaria uma carta à academia para expressar sua condenação ao filme.

Reações negativas em várias frentes
Esses pontos cegos políticos e culturais provocaram uma reação negativa entre os espectadores mexicanos. Quando o filme estreou no México em janeiro de 2025, ele fracassou nas bilheterias, com alguns espectadores exigindo reembolsos. A Agência Federal de Proteção ao Consumidor do México teve que intervir depois que a rede de cinemas Cinépolis se recusou a honrar sua política de garantia de satisfação.
O escritor mexicano Jorge Volpi chamou o filme de “um dos filmes mais cruéis e enganosos do século XXI”. A criadora de conteúdo trans Camila Aurora parodiou de forma brincalhona Emilia Pérez em seu curta-metragem “Johanne Sacrebleu”. Em cenas cheias de símbolos franceses estereotipados, como croissants e boinas, o curta conta a história de uma herdeira que se apaixona por um membro dos rivais comerciais de sua família.
Embora alguns espectadores tenham elogiado Emilia Pérez por sua representação diferenciada de mulheres trans e pela escalação de uma atriz trans, o grupo de defesa LGBTQ GLAAD descreveu-o como “um passo para trás na representação trans”.
Um ponto de discórdia é o número musical que Emilia canta, “medio ella, medio él” ou “metade ela, metade ele”, que insinua que as pessoas trans estão presas entre dois gêneros. O filme também parece retratar a transição da personagem como uma ferramenta de engano.
Enquanto isso, as indicações históricas de Karla Sofía Gascón como a primeira atriz trans reconhecida pelo Oscar e outros prêmios foram ofuscadas por suas declarações polêmicas. Primeiro, ela ganhou as manchetes quando acusou associados da atriz brasileira Fernanda Torres de menosprezar seu trabalho. Torres, vencedora do Globo de Ouro de melhor atriz de drama, também é uma das indicadas ao Oscar de melhor atriz.
A última controvérsia começou no final de janeiro de 2025, quando as postagens antigas de Gascón nas redes sociais ressurgiram. As mensagens, agora apagadas, incluíam ataques a muçulmanos na Espanha e uma postagem chamando Selena Gómez, sua colega em Emilia Pérez, de “rata rica” o que Gascón negou ter escrito.
Emilia Pérez parece estar mancando em sua caminhada final para o Oscar, apesar das 13 indicações. A Netflix, produtora do filme, e o diretor Audiard se distanciaram de Karla Sofía Gascón para tentar preservar as perspectivas do filme na cerimônia anual do Oscar, marcada para o próximo dia 2 de março.
Pode ser tarde demais.
*Alejandra Marquez Guajardo é professora de Espanhol e pesquisadora com foco em Gênero e Sexualidade na América Latina e no Caribe do Departamento de Estudos Românicos e Clássicos da Universidade Estadual de Michigan (EUA).
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