Geosmina, a musa às avessas do verão carioca

Insegurança hídrica volta a assombrar moradores do Rio: cariocas sofrem com água com odor e gosto ruins, e pescadores denunciam o sumiço dos peixes

Por Liana Melo | ODS 6
Publicada em 3 de fevereiro de 2021 - 09:13  -  Atualizada em 22 de março de 2021 - 19:10
Tempo de leitura: 9 min

Foto aérea de poluição no Guandu: geosmina volta a trazer cor escura e cheiro ruim à água dos cariocas (Foto: Trata Brasil/ Mário Moscatelli)

Ela voltou impondo seu gosto e odor ruins. A geosmina, já conhecida dos cariocas desde o ano passado, parece estar virando moda no Rio de Janeiro. É o segundo verão consecutivo que a substância orgânica produzida por algas, que se proliferam mais no calor e na presença de esgoto, tem invadido, sorrateiramente, a casa dos clientes da Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae) e sai torneira abaixo. Foi no final de janeiro que começaram a ocorrer os primeiros indícios de água turva, gosto de terra e reclamação de moradores de diversos bairros da região do Grande Rio.

[g1_quote author_name=”Paulo Canedo” author_description=”professor da Coppe/ UFRJ” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]

Não tem como fugir do saneamento das bacias destes dos rios Poços, Ipiranga e Queimados. E é uma obra que demora. Ainda que a estatal começasse a obra hoje, o que não vai ocorrer, vamos conviver com quatro a cinco anos de insegurança

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos
[/g1_quote]

Será que a geosmina virou uma espécie de musa às avessas do verão carioca? “Até que a Cedae tome juízo e, pelo visto, a empresa não quer aprender com os erros do passado, teremos a volta da geosmina nos verões do Rio de Janeiro”. O diagnóstico desanimador é do professsor e engenheiro Paulo Canedo, coordenador da Coordenadoria de Programas em Engenharia da Pós-Graduação da Coppe/ UFRJ. A geosmina é apenas o efeito aparente da poluição do rio Guandu, a principal fonte de abastecimento da região Metropolitana do Rio de Janeiro.

A crise cíclica no abastecimento durante a presença da geosmina é fruto de outra crise, a do saneamento. Sem tratamento de água e esgoto, as bacias dos rios Poços, Ipiranga e Queimados continuarão desaguando no Guandu com alta carga de poluentes a pouco mais de 50 metros do local onde a água da Estação de Tratamento e Abastecimento do Guandu (ETA), em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, é captada. Cerca de nove milhões de pessoas, que vivem na cidade do Rio de Janeiro e mais sete cidades da região Metropolitana, dependem do Guandu para garantir sua segurança hídrica.

“Não tem como fugir do saneamento das bacias dos rios Poços, Ipiranga e Queimados. E é uma obra que demora. Ainda que a estatal começasse a obra hoje, o que não vai ocorrer, vamos conviver com quatro a cinco anos de insegurança”, analisa Canedo, comentando que “enquanto não tiver tratamento de água e esgoto nos três rios, não teremos segurança hídrica”.

Como não é possível esperar de quatro a cinco anos para o sumiço da geosmina, a Cedae, defende Canedo, deveria, no mínimo, adotar uma política de transparência mais eficiente e, sobretudo, uma “comunicação mais respeitosa com o consumidor”. Já tendo sido considerada a “joia da coroa” de uma série de privatizações de empresas públicas de água e esgoto, como chegou a referir-se o presidente do BNDES (Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social), a Cedae deverá ser colocada à venda logo que o edital da empresa ficar pronto. A concessão da estatal já despertou o interesse de 15 empresas

Marcada por gestões duvidosas e indicações políticas, a Cedae – que era dirigida por apadrinhados do Pastor Everaldo, durante o governo Wilson Witzel – e a crise de abastecimento chegaram a virar caso de polícia no verão de 2020. À época, o Ministério Público Federal (MPF) foi à Justiça intimar a Cedae a apresentar laudos que comprovasse a qualidade da água. É que a empresa relutou a admitir a presença de geosmina na água.

Ainda que a geosmina não signifique um risco à saúde pública, como chama a atenção Canedo, beber uma água turva e fedorenta não é aceitável. A presença de quantidades elevadas de cinobactérias produzindo geosmina é um sinal claro de que o manancial está degradado. E de onde vem essa degradação? De anos e anos de desordem urbana e ocupação irregular do solo no entorno da Bacia do Guandu. Só os municípios de Nova Iguaçu e Queimados chegam a despejar, todos os dias, cerca de 56 milhões de litros de matéria orgânica através da trinca de rios, Poços, Queimados e Ipiranga. Volume capaz de encher o equivalente a 22 piscinas olímpicas só de esgoto, o que transforma o local numa gigante latrina.

Geosmina é um gás. Foto Vitor Ambrozioni
Às margens do rio Poços, a espuma tóxica surgiu após os pescadores fazerem uma barreira para conter o esgoto (Foto: Vitor Ambrozioni)

Enquanto os moradores diversos bairros da região do Grande Rio reclamam do odor e do gosto ruins da água, os pescadores denunciam o sumiço dos peixes. No último dia 12 de janeiro, a Associação dos Pescadores do Guandu (Pesguandu), encaminhou ofício à Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva do Núcleo de Nova Iguaçu, pedindo socorro. No documento, a entidade, que representa 46 pescadores, solicita , entre outras reivindicações, que o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) faça a dragagem dos rios Poços, Queimados, Ipiranga e Cabuçu. O objetivo é recuperar o dique que um dia existiu ali e, assim, mitigar o impactos sobre o corpo hídrico, batizado pelos próprios moradores de “Lagoão”.

Apoie o #Colabora

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Os pescadores da comunidade de Todos os Santos alegam que não conseguem retirar dos rios os 100 quilos de tilápia que costumavam pescar diariamente. “Alguns pescadores estão tentando a vida na construção civil para garantir o sustento da família”, denuncia Vitor Ambrozioni, presidente da Pesguandu, chamando a atenção para o fato de a entidade estar há 12 meses tentando abrir o diálogo com o Inea para discutir o problema. Enquanto aguardam o OK do Inea para sentar à mesa e conversar, os pescadores estão se virando com outros serviços para não morrerem de fome.

 

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *