ODS 1
PretaLab: Mulheres negras na tecnologia


Iniciativa quer enfrentar o racismo e o machismo e dar mais visibilidade às mulheres que já trabalham no setor


Em 2010, 27.576 mulheres negras obtiveram diplomas como engenheiras ou cientistas, o que representa 10,7% dos diplomas concedidos a mulheres no Estados Unidos. Porém, elas representavam menos de 1% do total de mulheres empregadas nessas indústrias, segundo o levantamento feito pelo The Scientist Foundation. No Brasil, não há pesquisa semelhante, mas a situação das mulheres negras é certamente pior. Elas são maioria entre os empregados domésticos: 57,6%; e são minoria entre os trabalhadores com algum tipo de seguridade social – como carteira de trabalho, de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). E só 10,4% das mulheres negras têm ensino superior completo – em qualquer área.
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Com base nesses dados, Silvana Bahia, coordenadora de comunicação do Olabi, organização que trabalha pela democratização da tecnologia, criou, em 2016, o PretaLab, uma iniciativa para que mulheres negras estejam dentro do universo digital. Viabilizada a partir do apoio da Fundação Ford, a iniciativa surgiu como uma campanha, na busca por mapear e entender quem são as meninas e mulheres negras e indígenas que trabalham nessa área. “O que pretendemos fazer? A gente quer criar atividades para que meninas e mulheres se aproximem do universo da tecnologia e aprimorem os seus conhecimentos”, explica Sil Bahia, como é conhecida. “Também queremos realizar assessoria a recrutamento e seleção, ou seja, auxiliar empresas a entenderem como melhorar a diversidade do seu time. Ampliar rede e conexões também é importante. Através desse projeto queremos mapear mulheres negras que trabalham nesse campo da tecnologia”, acrescenta.
[g1_quote author_name=”Sil Bahia” author_description=”Coordenadora do PretaLab” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Reconhecimento facial, câmeras no celular até mesmo o sabão que cai automaticamente nas mãos, no banheiro, tudo isso têm dificuldade em reconhecer a pele preta. Isso porque foram criados por brancos.
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Nesta quinta, 8 de agosto, Sil Bahia, vai mediar uma mesa de tecnologia e inclusão no ‘Fórum Sim à Igualdade Racial’, organizado pelo Instituto Identidades do Brasil (IDBR), em São Paulo. “Vou falar sobre objetivos do PretaLab, que são a inclusão digital, a experiência de pessoas negras nessa área, o racismo e o machismo na área”, afirmou. “As tecnologias não são neutras. Do jeito que são até parecem, né? A gente não se questiona por que o aplicativo é de tal forma. Enquanto não tiver diversidade não tem democracia”, concluiu. “Reconhecimento facial, câmeras no celular até mesmo o sabão que cai automaticamente nas mãos, no banheiro, tudo isso têm dificuldade em reconhecer a pele preta”, acrescentou. “Isso porque foram criados por brancos. É necessário abrir esse mercado”, afirma coordenadora do Pretalab.
Visibilidade zero
Com as idas constantes em workshops e palestras sobre democratização da tecnologia, ainda pela Olabi, Sil Bahia foi percebendo a ausência de mulheres negras nesses eventos. Faltam até dados para medir a participação feminina. De acordo com o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dos 1.683 engenheiros da computação formados em 2010, apenas 161, ou 9,5%, eram mulheres. No mesmo ano, apenas 14,8% dos 7.339 formados em ciências da computação eram programadoras. Sobre mulheres negras, a visibilidade é perto de zero: Segundo um levantamento do Grupo de Gênero da Escola Politécnica da USP, em 120 anos a Politécnica formou apenas dez mulheres negras. Na lista das pioneiras das ciências no Brasil, criada pelo CNPQ, nenhuma das mulheres citadas é negra
Foi o desafio de mudar esse cenário que mobilizou a coordenadora do PretaLab. “Quando falo de tecnologia, não quero dizer produção de conteúdo, Instagram apenas. Isso eu achei sensacional: novas narrativas sobre ser mulher negra no Brasil, referências culturais. Mas pensei: quem programa os aplicativos? Quem faz as plataformas que a gente usa?”, questiona Sil, formada em jornalismo e mestre em Territorialidades pela Universidade Federal Fluminense (UFF).


Antes de chegar no jornalismo, a carioca foi babá, funcionária de petshop, assistente administrativo e digitadora. Na comunicação, trabalhou por cinco anos no Observatório de Favelas já envolvida com produção de vídeo e tecnologia até chegar no Olabi em 2015. “Quando eu trabalhava no Observatório de Favelas, na Maré, a tecnologia começou a se popularizar. Eu sentia falta de pensar: quem produz as tecnologias que a gente usa?”, afirmou Sil. “Foi quando eu percebi que precisamos trabalhar para ter mulheres negras nesse espaço de tecnologia que é mais ocupado por brancos e homens”, acrescenta.
Mapeamento
A primeira etapa do trabalho do PretaLab foi um grande mapeamento de mulheres negras e indígenas que trabalhavam com tecnologia. Através da internet, foram reunidas histórias, depoimentos e dados. Como parte da campanha, o vídeos foram gravados para dar visibilidade a mulheres que servissem de exemplos dos desafios enfrentados pelas brasileiras que já estão atuando como desenvolvedoras, empreendedoras, produtoras de conteúdos, ativistas do campo digital.
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No total, participaram do levantamento da PretaLab 570 mulheres dos 17 aos 67 anos, com inserções e interesses variados – a maioria das participantes estava concentrada nas áreas de inovação (29,1%) e transformação social (14,6%). Essas mulheres vêm das cinco regiões do país e de quase todos os estados. Mais da metade tem interesse em desenvolver iniciativas na área — embora só 20% delas conheçam projetos que juntem mulheres negras e indígenas à tecnologia.
Entre os objetivos da PretaLab, está articular uma rede de tecnologia mulheres negras e indígenas: para isso, já estão mapeadas outras iniciativas que trabalham no mesmo sentindo como o OxenTI Menina, Rede de Ciberativistas Negras, Blogueiras Negras, Pretas Hackers, Desabafo Social, Gato Mídia, Criola, Criadoras Negras RS, Minas Programam, data_labe, Black Rocks, Instituto Mídia Étnica, MariaLab, InfoPreta, Preta Nerd, Coletivo Nuvem Negra,
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Carolina Moura
Jornalista com interesse em Direitos Humanos, Segurança Pública e Cultura. Já passou pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Jornal O DIA e TV Bandeirantes. Como freelancer já colaborou com reportagens para Folha de São Paulo, Al Jazeera, Ponte Jornalismo, Agência Pública e The Intercept Brasil.










































