ODS 1
Sem lugar seguro: transfobia e emergências climáticas afetam pessoas trans na luta por justiça habitacional


Expulsas de casa pela violência de gênero, pessoas trans são empurradas para trajetórias da instabilidade habitacional, precariedade e exposição aos riscos climáticos


“A gente perde essa identificação de onde a gente vem, esse orgulho de falar que eu vim de tal lugar. Nesse processo de precisar mudar tantas vezes de casa, fica esse amargo de não se sentir de lugar nenhum”. Esse é o relato de Sareh Benjamin, transmasculino, negro, criado em Belford Roxo, no Rio de Janeiro, e que passou por mais de nove moradias desde que precisou sair da casa dos pais aos 20 anos, depois de sofrer violências físicas e verbais por ser uma pessoa LGBT+.
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A casa, que deveria ser um espaço de proteção e pertencimento, para muitas pessoas trans, é o primeiro território de exclusão. Teto, lar, moradia e habitação — quantos caminhos de fuga e acolhimento nos atravessam e qual a nossa possibilidade de escolha? O que começa com rejeição e violência familiar, se torna uma sequência de deslocamentos forçados e moradias precárias, que abrem espaço para múltiplas inseguranças, inclusive a climática. No município de São Paulo, 29% das pessoas trans saem de casa antes dos 15 anos, segundo a publicação “Sem moradia digna, não há justiça de gênero”, da Habitat pela Humanidade Brasil.
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Veja o que já enviamosAqui, estamos falando das pessoas que precisaram migrar de seus bairros, municípios ou estados, em busca de sobrevivência. A história de Benjamin retrata isso. Depois que saiu da casa de seus pais, ele participou de um processo de ocupação no alojamento estudantil na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 2017, onde viveu dois anos em um prédio exposto a condições inabitáveis.
“O prédio era antigo, precisava de muitas reformas, tinha infiltração por conta do encanamento, e quando chovia piorava tudo. Muitas pessoas viviam doentes, com rinite e alergias. O banheiro que eu usava tinha bicho, larva, muito mofo. Foram anos muito difíceis da minha vida, porque eu vivia em um estado de precariedade que, hoje, eu considero absurdo, mas eu aceitei na época porque eu precisava”, compartilha Benjamin.
Formado em Biologia, hoje ele é professor do município do Rio de Janeiro e vivencia uma condição habitacional estável, mas o tempo que passou exposto a tantas inseguranças gerou um alerta. “Eu tive que me mudar muitas vezes por ser uma pessoa trans, não tendo a certeza de coisas básicas, nem acesso a uma moradia segura. Aceitar que talvez eu esteja vivendo um momento de tranquilidade, ainda está sendo um processo […] eu prefiro estar preparado psicologicamente para a possibilidade de mais uma mudança”, relembra.
Eu estava estendendo roupa, meu vizinho apareceu de repente e me assediou. Ele fez comentários absurdos que eu não gostaria de repetir, e depois desse episódio eu me senti em uma insegurança absurda. Você não tem estabilidade elétrica, estabilidade hidráulica, saneamento básico. Ainda sofre transfobia e se sente inseguro na própria casa
Histórias como a de Benjamin retratam como a necessidade de passar por mudanças constantes afeta tão somente a falta de pertencimento, mas também colocam pessoas trans, sobretudo negras, ainda mais suscetíveis às emergências climáticas. Para Bárbara Aires, travesti, branca e moradora de Nilópolis, Baixada Fluminense, a situação começou ainda mais cedo. Ela cresceu em Taboão da Serra, São Paulo, e aos 5 anos de idade fugiu de casa. Antes mesmo de passar pelo processo de transição de gênero, já sofria agressões por não cumprir às exigências de masculinidade impostas pelo seu pai.
Segundo a pesquisa “Violência LGBTFóbia na cidade de São Paulo”, realizada em 2024 pelo Instituto Pólis, 60% das vítimas de violência foram agredidas por familiares ou pessoas conhecidas. Essa foi a realidade da Bárbara, que teve a rua como o seu destino, onde viveu até seus 12 anos.
“Eu dormi no chão, precisava de jornal para me cobrir, comia comida do lixo, passava frio, chuva, e não era raro eu precisar ir na represa do Guarapiranga para tomar banho. Eu vivenciei, mesmo sem ter essa consciência, a injustiça climática desde muito cedo”, compartilha Bárbara.
A vivência da rua trouxe muito cedo uma percepção do que, hoje, ela reconhece como injustiça climática, onde as populações mais vulnerabilizadas são também as mais atingidas pelas mudanças do clima. Bárbara, que esteve muitas vezes em situações de extrema instabilidade habitacional, reconhece que por ser uma travesti branca, pôde encontrar acolhimento, mesmo que em poucas pessoas e na sua maioria também LGTB+. “Com 10 anos eu estava dormindo na Praça da Bandeira e um grupo de rapazes gays vieram perguntar o que eu estava fazendo ali, porque óbvio, uma criança branca. Hoje eu tenho consciência que foi um privilégio branco. Eles me levaram para a Praça Roosevelt, que era um reduto de LGBTs ”, compartilha.
Depois de sair das ruas, Bárbara morou dos 12 aos 15 anos na Casa Abrigo Mooca, e até os 18 anos, já tinha passado pelos municípios de Taboão da Serra, capital de São Paulo, Franco da Rocha e Carapicuíba. Até que aos 19, decidiu morar no Rio de Janeiro.
“Só em Taboão, eu mudei umas quatro vezes, porque sempre tinha um problema, ou era ruim para chegar a água ou era muito úmida. […] em Franco da Rocha tinha uma moça que acolhia pessoas LGBTs, e com 16 anos fui morar lá. Uma região muito atingida por alagamentos, e várias vezes aconteceu de ficarmos ilhados em casa por conta das chuvas. Nossa sorte era que a casa ficava no alto, mas a gente sempre via de lá a cidade embaixo d’água”, relata Bábara.
Em uma realidade onde pessoas trans são empurradas para condições precárias de moradia, a falta de estabilidade coloca a necessidade de mudanças constantes, imprevisíveis e adoecedoras.


Faltam dados e políticas direcionadas
Enquanto experiências como as de Benjamin e Bárbara escancaram a violência causada pela ausência de moradia digna para pessoas trans, o cenário político revela um grande vácuo. Hoje, o Brasil não possui políticas públicas específicas voltadas para o acolhimento habitacional da população trans, não realiza um levantamento de dados adequado sobre suas realidades, nem se mostra preparado para oferecer respostas estruturais diante dessas vulnerabilidades.
Raquel Ludermir, gerente de incidência política da Habitat para a Humanidade Brasil, reconhece esse vazio: “As questões de identidades de gênero e orientação sexual, ainda são muito tímidas dentro do debate do direito à cidade. É muito invisibilizado mesmo, seja do ponto de vista quantitativo, dos dados, ou qualitativo, de histórias e debates.”
A ausência de dados dificulta o encaminhamento de respostas e a construção de soluções. Tensionar essa discussão para além da violência, propondo políticas de enfrentamento a essa realidade ainda parece um passo distante. O superintendente de políticas LGBT+ do estado do Rio de Janeiro e coordenador do programa Rio Sem LGBTFobia, Ernane Alexandre Pereira, confirma isso.
“A gente sempre viu a questão de moradia e abrigamento como um calcanhar de Aquiles, porque ainda não temos dentro do governo do Estado uma política pública de habitação que desenvolva um recorte direcionado a população LGBTQI+, essa é uma fragilidade”, compartilha o superintendente.
Eu nunca aluguei por imobiliária, era comum eu chegar na imobiliária e eles falarem: ’Você é até bonita, parece gente boa, mas a gente tem ordem de não alugar para pessoas igual a você’. E aí, sempre foi assim, alugando de boca, direto com o dono
Apesar da ausência de dados sobre a realidade dessa população, Raquel afirma ser possível fazer algumas inferências que comprovem a vulnerabilidade e precariedade a que essa população está exposta. Ela propõe uma leitura importante sobre os caminhos de acesso à moradia no Brasil, destacando quatro formas principais: o mercado formal ou informal, as ocupações, as políticas habitacionais e as heranças. Para a população LGBT+, especialmente pessoas trans negras, o acesso a qualquer uma dessas alternativas é limitado.
“Se a gente pensar que a população LGBT+ tem uma limitação gigante de renda, portanto não consegue acesso à moradia adequada pelo mercado formal, não consegue pelas políticas habitacionais, nem pelas heranças. O que sobra são as ocupações ou o mercado informal”, explica Ludermir.
Na prática, isso significa que pessoas trans e travestis frequentemente ocupam ou alugam espaços precários em áreas de risco, não por escolha, mas por necessidade.
“Provavelmente essas pessoas vão ocupar ou alugar um cantinho em área de risco, por uma condição eminentemente econômica. Porque não têm dinheiro nem para comprar, nem para alugar, portanto ocupam. Ou quando têm, só conseguem naquela área que vai estar em risco iminente, mais exposta aos desastres socioambientais”, conclui Raquel.


Sem lugar seguro
Segundo o “Dossiê: Assassinatos e violências contra pessoas trans” da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), 90% das travestis e mulheres trans utiliza a prostituição como fonte de renda. Por muitos anos essa foi a realidade de Bárbara, que começou a se prostituir depois que perdeu o emprego por ser uma pessoa trans. Hoje, Bárbara tem um emprego formal enquanto secretária da Coordenação de Equidade, Diversidade, Inclusão e Políticas Afirmativas (Cedipa), na Fiocruz, mas não foi sempre assim.
“Eu nunca aluguei por imobiliária, era comum eu chegar na imobiliária e eles falarem: ’Você é até bonita, parece gente boa, mas a gente tem ordem de não alugar para pessoas igual a você’. E aí, sempre foi assim, alugando de boca, direto com o dono”, relata.
Em uma dessas informalidades, Bárbara morou na Tijuquinha, favela da zona oeste do Rio de Janeiro: “Quando fui morar na Tijuquinha, passei mais um perrengue em uma chuva que alagou dentro da minha casa. Eu estava com bolsa, sapato, roupa, muitas coisas que eu tinha conquistado com a prostituição, e aí eu perdi quase tudo”.
A partir dessas experiências de vulnerabilidade, pessoas que vivem nessas situações precisam desenvolver estratégias para sobreviver em condições que, além de te expor a inseguranças climáticas, também se somam à transfobia e, no caso de Benjamin, ao racismo.
“Eu estava estendendo roupa, meu vizinho apareceu de repente e me assediou. Ele fez comentários absurdos que eu não gostaria de repetir, e depois desse episódio eu me senti em uma insegurança absurda. Você não tem estabilidade elétrica, estabilidade hidráulica, saneamento básico. Ainda sofre transfobia e se sente inseguro na própria casa”, desabafa Benjamin.
São a partir dessas histórias que o termo “transfobia ambiental” e “racismo ambiental” tem sido usado para descrever como as injustiças de gênero, raça e climática atingem de forma desigual pessoas trans e pessoas negras. Benjamin entende que essa foi uma condição em que ele foi exposto durante grande parte da sua vida.
“Talvez a moradia seja um dos pontos mais latentes para essas injustiças climáticas que atingem a gente, porque é um nível de insegurança que eu nem sei explicar. Mas sendo bem sincero, eu não acho que essas situações de vulnerabilidade que eu vivi — e vivo até hoje — aconteceriam se eu fosse uma pessoa cis e branca”, problematiza Benjamin.


Sonhar exige políticas efetivas
Retratar como pessoas trans são violentadas pela transfobia e as injustiças climáticas é complexo, principalmente quando transversalizados com questões raciais. Contudo, essa é uma demanda urgente, em um ano onde o Brasil vai sediar a Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2025 (COP30). Nós, pessoas trans e negras, precisamos abrir o debate sobre a realidade que atinge nossa população. Não só para denunciar, mas também reivindicar por soluções que sejam pensadas junto com a nossa comunidade, e nos permita sonhar com lugares seguros.
Para isso, a Liga João W. Nery desenvolveu a Agenda de Políticas Públicas para Pessoas Trans 2030, na qual apresenta uma série de propostas de políticas públicas pensadas para a comunidade trans e travesti. Nos eixos 4 e 5 da agenda, “Moradia digna e habitação para a comunidade” e “Justiça ambiental e climática para pessoas trans”, respectivamente, a Liga organizou propostas de soluções para a garantia de moradia digna para a população trans, bem como respostas para a crise climática com uma abordagem interseccional, capaz de construir uma justiça habitacional e climática que inclua pessoas trans, sobretudo negras, indígenas e moradoras de favelas e periferias.
Entre as propostas, está a criação de programas habitacionais e sociais, para a garantia de benefícios que respeitem as especificidades da comunidade trans, priorizando pessoas trans profissionais do sexo, famílias compostas por pessoas LGBTQIA+ e casais em união estável. A importância de propostas como a da Liga é, principalmente, construir políticas públicas que pensem as especificidades da comunidade trans, e não, simplesmente espelhem políticas pensadas para pessoas cisgênero, já que se tratam de realidades distintas.
Mais do que as perguntas, são as respostas. Elas nos levam a denunciar uma realidade habitacional que impõe às pessoas trans diversas vulnerabilidades, incluindo a exposição a eventos climáticos extremos e à violência. Ainda assim, é importante destacar que existem soluções sendo pensadas para nossa comunidade, e elas precisam ser ouvidas e colocadas no centro dos debates públicos.
*Esta reportagem foi produzida no âmbito do Programa de Fellowship para Jornalistas Negros e Negras do Centro Brasileiro de Justiça Climática (CBJC) — iniciativa que fortalece a cobertura jornalística antirracista sobre justiça climática e populações negras no Brasil.
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Carin Barros
Carin Barros, jornalista formado pela UFRRJ, é assessor de comunicação da Casa Fluminense e integra a formação de Imersões Curatoriais da Escola Sem Sítio, em parceria com a Casa Brasil. Atua com pesquisa, roteiro e curadoria em projetos ligados à memória, cultura e políticas públicas, articulando raça, gênero e território










































