Groenlândia: eldorado de gelo sob ameaça

Documentário inédito do CanalCurta! mostra como e por que a maior ilha do mundo passou a ocupar o centro de um triste paradoxo: quanto mais o gelo derrete por lá, maior é o apetite dos vizinhos

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 29 de janeiro de 2026 - 12:18  -  Atualizada em 29 de janeiro de 2026 - 13:58
Tempo de leitura: 7 min

Frame do documentpario Groenlândia: O Eldorado do Gelo, exibido pelo CanalCurta! (Foto: Divulgação)

Na Groenlândia, os pescadores chamam um mar sem gelo de sikuqanngitsoq. A palavra passou a representar um risco iminente, desde que a maior ilha do mundo ocupou o centro de um triste paradoxo: quanto mais o gelo derrete por lá, maior é o apetite dos vizinhos. Sob uma gigantesca camada de gelo, seu subsolo guarda recursos naturais abundantes: minerais raros, petróleo, gás… um tesouro cobiçado pelos Estados Unidos, que o presidente americano, Donald Trump, resumiu simplesmente como: “precisamos dele”.

Com estreia prevista para esta sexta (30/01) no CanalCurta! e no CurtaOn, o documentário “Groenlândia: O Eldorado do Gelo”, expõe o xadrez geopolítico em que o continente se encontra devido sua localização estratégica: no cruzamento entre a América do Norte, Rússia e Europa, uma posição estratégica para navegar pelo Oceano Ártico. O documentário, repleto de depoimentos e imagens de arquivo, tem direção de Jean-Yves Cauchard e Vivien Meltz, e produção da Temps Noir e Arte Geie.

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Equivalente à soma dos estados da Amazônia e da Bahia, com 2,6 milhões de quilômetros quadrados, a Groenlândia é um território semiautônomo ligado a Dinamarca. É a menor densidade demográfica do mundo: 57 mil habitantes que vivem em um eldorado de recursos naturais. Um terço da população vive na capital: Nuuk.

Desde 2019, ainda no seu primeiro mandato, Trump já estava de olho na Groenlândia. A imagem de um prédio batizado de Trump Tower na paisagem do país, acrescido do comentário “Prometo não fazer isso na Groenlândia”, pareceu, a princípio, uma piada. À época, a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, não gostou e respondeu, o que gerou uma crise diplomática. Em seguida, Trump cancelou a viagem ao país.

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Ao assumir o segundo mandato, Trump voltou à carga: “A propriedade e controle da Groenlândia são uma necessidade absoluta”. E ainda desdenhou da soberania escandinava sobre o país: “Não se sabe se a Dinamarca tem o direito legal sobre a ilha, mas, se tiver, deveria abrir mão, pois precisamos dela para nos proteger.”

A cobiça de Trump não é apenas um capricho do presidente americano: ela traduz um interesse longevo, que remonta ao século XVIII quando o território foi colonizado pela Dinamarca. Os Estados Unidos já tentaram comprar a Groenlândia inúmeras vezes, desde meados dos anos 1860. A Dinamarca sempre rejeitou a proposta.

O xadrez politico internacional começou a mudar com o início da Segunda Guerra Mundial, culminando com um acordo de segurança assinado em 1941 quando os Estados Unidos receberam autorização da Dinamarca para montar uma base militar no país. Como um território livre, a Groenlândia se impôs como um ponto estratégico, já que as aeronaves não tinham autonomia de voo, o que impossibilitava o reabastecimento durante a viagem. A ilha virou um ponto de apoio obrigatório para os aviões produzidos nos Estados Unidos, que de lá partiam para o Reino Unido.

Com o fim da guerra, a Dinamarca tenta retomar a soberania sobre a Groenlândia, quando recebe a primeira proposta de compra do governo Truman: 100 milhões de dólares, em ouro. Considerada “absurda”, a proposta foi rejeitada, mas, desde então, os Estados Unidos nunca mais desistiram da ilha, pressão que se intensificou com o início da Guerra Fria. Lançar mísseis dos Estados Unidos contra a Rússia, ou ao contrário, o caminho mais curto é passar pelo Ártico e a Groenlândia.

Com a entrada da Dinamarca na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), em 1949, a segurança da ilha é entregue aos americanos. Os Estados Unidos montaram um verdadeiro enclave na Groenlândia. Como o domínio militar nos americanos nunca foi questionado no país, os groenlandeses se espantaram com a proposta de Trump de querer tomar posse do território. Pela ótica americana, a presença de navios chineses e russos na região configuraram uma ameaça aos Estados Unidos.

Degelo na Groenlândia

Impulsionado pelas mudanças climáticas, a camada de gelo da Groenlândia e em todo o Ártico vem derretendo num ritmo acelerado, o que abre caminho para novas rotas marítimas de comércio e também militar pela região polar.

Para os Estados Unidos, quanto menos gelo melhor; só que o Ártico é um regulador do clima da Terra. Sem a camada de gelo, o sol que brilha na Groenlândia 24 horas por dia no verão, vai aquecer ainda mais a água e a Terra, o que deixará o planeta ainda mais quente do que já está.

Enquanto os ambientalistas se preocupam com as mudanças climáticas, os homens de negócios estão eufóricos com a possibilidade de trocar a rota da Ásia à Europa pelo Ártico, o que vai permitir uma redução expressivo no trajeto e, consequentemente, uma redução de gastos. Não à toa, a região virou também a menina dos olhos dos russos, que pretendem cobrar taxas de transporte por quem travessar nas águas nacionais.

O interesse de Trump pela Groenlândia ocorre em um momento em que 85% da população defende à independência da Dinamarca. O interesse americano acirrou ainda mais as divergências internas, porque, apesar do apoio massivo ao projeto de independência, existem nuances que vão de uma independência gradual e uma irrestrita.

Com uma economia extremamente vinculada a pesca — 90% das exportações vêm de produtos do mar, a Groenlândia depende economicamente de subsídios dinamarqueses, o que dificulta a luta pela independência. É nesse contexto que a importância dos minerais no subsolo ganhou projeção internacional. A Groenlândia tem um tesouro de ouro, gás, petróleo e todos os minerais indispensáveis à economia. Dos 50 minerais considerados estratégicos para os Estados Unidos, 37 deles estão sob a camada de gelo.

Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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