Carnaval Rio 2026: quais são os enredos das escolas de samba do Grupo Especial?

Desfiles com homenagens a personalidades serão maioria nos três dias de apresentações na Passarela do Samba da Marquês de Sapucaí

Por Oscar Valporto | ODS 11
Publicada em 30 de janeiro de 2026 - 09:55
Tempo de leitura: 12 min

Fantasias da Beija-Flor, campeã do ano passado, para o desfile do Carnaval do Rio 2026 sobre o Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo: confira os enredos das 12 escolas de samba do Grupo Especial (Foto: Divulgação)

Depois de um ano em que os enredos com raízes africanas dominaram os desfiles do Grupo Especial do Rio de Janeiro, em 2026, as escolas de samba apostam, sobretudo, em enredos biográficos. Neste contexto, as histórias pessoais ganham protagonismo na disputa pelo título na Passarela do Samba, da Marquês de Sapucaí.

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Das 12 escolas, oito vão desenvolver enredos com homenagens a personalidades. Além disso, assim como em 2025, os desfiles serão divididos em três dias. Na lista de homenageados, estão grandes figuras do samba, como Heitor dos Prazeres, Mestre Ciça e Rosa Magalhães. Ao mesmo tempo, serão celebradas estrelas da música popular, como Ney Matogrosso e Rita Lee.

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Os desfiles das escolas de samba do Grupo Especial — a elite do carnaval do Rio de Janeiro — estão marcados para os dias 15 (domingo), 16 (segunda) e 17 (terça) de fevereiro. Antes disso, as escolas fazem ensaios técnicos na Passarela do Samba. Eles são gratuitos e abertos ao público. Nesses encontros, é possível sentir o clima do que será apresentado na disputa da Marquês de Sapucaí.

De acordo com o calendário divulgado pela Liesa (Liga Independente das Escolas de Samba), os ensaios começam na sexta, dia 30 de janeiro, e seguem até 8 de fevereiro (domingo). Ao longo desse período, acontecem sempre às sextas, sábados e domingos.

Confira os enredos das escolas de samba do Rio de Janeiro nos três dias de desfile:

Destaque personificando Ney Matogrosso para o desfile da Imperatriz: Leodinense: enredos biográficos são maioria no Carnaval Rio 2026 (Foto: Divulgação)
Destaque personificando Ney Matogrosso para o desfile da Imperatriz: Leodinense: enredos biográficos são maioria no Carnaval Rio 2026 (Foto: Divulgação)

Domingo, 15 de fevereiro

Acadêmicos de Niterói – “Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil”

Estreante no Grupo Especial, a escola de samba presta homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O enredo conta sua história desde o nascimento no agreste pernambucano até a presidência. “Tem filho de pobre virando doutor / comida na mesa do trabalhador / a fome tem pressa”, diz a letra do samba-enredo. Os compositores são a cantora Teresa Cristina e o sambista Arlindinho, filho de Arlindo Cruz.  Por fim, o enredo engajado avança até os dias atuais, como aponta a letra do samba: “Sem temer tarifas e sanções / Assim que se firma a soberania / Sem mitos falsos, sem anistia”.

Imperatriz Leopoldinense – “Camaleônico”

Três vezes campeão do Carnaval do Rio — duas com a Mangueira e uma com a própria Imperatriz —, o carnavalesco Leandro Vieira desenvolveu um enredo inspirado na figura performática de Ney Matogrosso, que já confirmou presença no desfile. A escola de samba de Ramos celebra a vida e a carreira do cantor.

Além disso, destaca sua versatilidade artística e seu papel transgressor na música brasileira. A letra do samba traz referências a canções de sucesso na voz do cantor, como Sangue Latino, Rosa de Hiroshima e Metamorfose Ambulante. “Eu sou o poema que afronta o sistema / A língua no ouvido de quem censurar / Livre para ser inteiro / Pois sou homem com H / E como sou”.

Portela – “O Mistério do Príncipe do Bará”

Escola com mais títulos no Carnaval carioca, a azul e branco de Madureira traz um enredo sobre a trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, líder africano que se estabeleceu em Porto Alegre. Figura histórica do século 19, ele se tornou símbolo da religiosidade e da ancestralidade afro-gaúcha. O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco André Rodrigues, percorre a história do africano. Ele é considerado príncipe do Benin. Além disso, foi responsável pela estruturação dos fundamentos do batuque, principal religião de matriz africana no sul do país. “Portela / Tu és o próprio trono de Zumbi / Do samba, a majestade em cada ori / Yalorixá de todo axé / Enquanto houver um pastoreio / A chama não apagará / Não há demanda que o povo preto não possa enfrentar”, diz a letra do samba-enredo.

Estação Primeira de Mangueira – “Mestre Sacacá do Encanto Tucuju – o Guardião da Amazônia Negra”

O enredo, elaborado pelo carnavalesco Sidnei França, celebra as tradições afro-indígenas do Norte do Brasil, por meio de uma figura mística da sabedoria ancestral. Mestre Sacaca (Raimundo dos Santos Souza), foi curandeiro, benzedeiro, folião, marabaixeiro e defensor dos povos da floresta no Amapá. “Salve o curandeiro / Doutor da floresta / Preto velho, saravá. / Macera folha, casca e erva / Engarrafa a cura, vem alumiar / Defuma folha, casca e erva / Saravá”, diz a letra do samba-enredo. Assim, o texto evoca a presença de Mestre Sacaca como entidade, o Xamã Babalaô.

Fantasia inspirada em Rita Lee na Mocidade: enredos com homenagens a personalidades serão maioria nos três dias do Carnaval Rio 2026 na Passarela do Samba (Foto: Mike Bleak / Mocidade)
Fantasia inspirada em Rita Lee na Mocidade: enredos com homenagens a personalidades serão maioria nos três dias do Carnaval Rio 2026 na Passarela do Samba (Foto: Mike Bleak / Mocidade)

Segunda, 16 de fevereiro

Mocidade Independente de Padre Miguel – “Rita Lee, a Padroeira da Liberdade”

A escola de samba da Vila Vintém desfilará uma homenagem à rainha do rock brasileiro. O enredo celebra a liberdade e a transgressão, marcas de Rita Lee. “Um belo dia resolvi mudar / Cansei dessa gente careta / Aos seus bons costumes eu sinto informar / Formei outras ovelhas negras”, começa o samba-enredo. Também há referências às músicas da cantora e compositora, falecida em 2023. “Desbaratina a razão, se joga, meu bem / No céu, no mar, na lua… na Vila Vintém”. Três vezes campeão com a escola de samba da Zona Oeste, o carnavalesco Renato Lage idealizou o enredo. Para ele, Rita é tão irreverente e transgressora quanto a Mocidade Independente.

Beija-Flor de Nilópolis – “Bembé do Mercado”

O enredo da campeã do Carnaval de 2025 vai abordar a tradicional manifestação de resistência negra e religiosa na Bahia. Com o enredo Bembé do Mercado, desenvolvido pelo carnavalesco João Vitor Araújo, a Beija-Flor celebra o que é considerado o maior Candomblé de rua do mundo. A celebração ocorre em Santo Amaro da Purificação, cidade do Recôncavo Baiano. “Cantando, saudamos a nossa fé / Às nações do candomblé. / Onde a paz e o respeito / Ressoam no couro do axé funfun / Não tememos ataque algum / A rua ocupamos por direito”, diz a letra do samba que ressalta as lutas do povo negro pela liberdade.

Unidos do Viradouro – “Pra cima, Ciça”

A escola de samba de Niterói desfilará com o enredo em homenagem ao seu próprio mestre de bateria, Moacyr da Silva Pinto. Mestre Ciça completa 70 anos em 2026 e desfila desde 1971. Foi passista, mestre-sala e ritmista até chegar ao posto de comandante da bateria. Antes disso, passou por Estácio, Grande Rio, Unidos da Tijuca e União. Na Viradouro, foi campeão em 2020 e 2024 e vai cruzar a Sapucaí em pleno ofício. “Quando o apito ressoa, parece magia / Num trem caipira, no olho da baiana / Medalha de ouro, suingue perfeito / Que marca no peito da escola de samba”, diz trecho do samba que ajuda a conduzir o enredo desenvolvido pelo carnavalesco Tarcísio Zanon.

Unidos da Tijuca – “Carolina Maria de Jesus”

A tradicional escola de samba, fundada em 1930, vai contar a história de Carolina Maria de Jesus, escritora, memorialista, compositora mineira e autora do livro “Quarto de Despejo – O Diário de uma favelada”, uma das mais revolucionárias e impactantes obras da literatura brasileira. O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco Edson Pereira, exibe a trajetória da escritora para além da pobreza. Assim, Carolina surge como inspiração para Carolinas do morro, da favela e das ruas. “Por ser livre nas palavras / Condenaram meu saber / Fui a caneta que não reproduziu / A sina da mulher preta no Brasil”.

Fantasias para o desfile do Salgueiro no Carnaval Rio 2026: enredo homenageia carnavalesca Rosa Magalhães (Foto: Mari Matos / Salgueiro)
Fantasias para o desfile do Salgueiro no Carnaval Rio 2026: enredo homenageia carnavalesca Rosa Magalhães (Foto: Mari Matos / Salgueiro)

Terça-feira, 17 de fevereiro

Paraíso do Tuiuti – “Lonã Ifá Lukumi”

O enredo, desenvolvido pelo carnavalesco Jack Vasconcelos, apresenta a história dos orixás afro-cubanos. Lonã (caminho) Ifá Lukumi une a sabedoria ancestral do oráculo de Ifá (iorubá) com a cultura Lucumí (povo iorubá levado a Cuba). Nesse contexto, representa um chamado espiritual e um percurso de fé. Além disso, o desfile explora a conexão espiritual entre Cuba e o Brasil, enraizada nos orixás africanos. “Ah! A rama do Caribe se expandiu / No verde e amarelo do Brasil / Nas cordas do Opelê e no Oponifá / Derruba o muro quem sabe asfaltar / Caminhos abertos na mão de Ifá / Que o mundo entenda / O ebó vence a dor / Sentado à esteira de um Babalaô”.

Unidos de Vila Isabel – “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”

Inspirado pela trajetória do compositor, cantor e pintor Heitor dos Prazeres, um dos pioneiros do samba carioca, o enredo da Vila Isabel apresenta a África imaginada no coração do Rio de Janeiro. “Ora yê yê ô, Oxum / Kabecilê, Xangô / Meus sonhos e tambores, tintas e ‘prazeres’ / Pra você, Heitor”, diz a letra. O enredo — de Leonardo Bora e Gabriel Haddad — celebra as memórias e os percursos de Heitor dos Prazeres, multiartista e sambista. Ele se definia como inventor da Pequena África, na região da Praça Onze, onde nasceu e trabalhou. “Um Ogã-alabê, macumbeiro / A fumaça do cachimbo, preto-velho soprou / Encanto da gira, da roda de bamba / Poesia na curimba, batuqueiro e cantador”, repete o refrão.

Acadêmicos do Grande Rio – “A Nação do Mangue”

A escola de Duque de Caxias mergulha na história do movimento Manguebeat, surgido no Recife nos anos 1990. Para isso, o enredo relaciona as periferias do Nordeste às da Baixada Fluminense. “Eu sou do mangue, filho da periferia / Sobre uma palafita Grande Rio anunciou / Ponta de lança é Daruê / Dobra o Gonguê… a revolução já começou”, diz o samba. Além disso, o enredo do carnavalesco Antônio Gonzaga vai mostrar catadores de caranguejos, pescadores e lavadeiras, mas também os pernambucanos Paulo Freire, patrono da educação brasileira, e Chico Science, líder da banda Nação Zumbi e do movimento Manguebeat.

Acadêmicos do Salgueiro – “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”

Maior vencedora da Marquês de Sapucaí, com sete títulos por Império Serrano, Imperatriz e Vila Isabel, Rosa Magalhães será homenageada pelo Salgueiro no encerramento do Grupo Especial. “Mestra, você me fez amar a festa e eu virei carnavalesco / Sonhei ser Rosa, te faço enredo”, diz um trecho do samba, que acompanha o enredo de Jorge Pereira.

Artista plástica de formação, chamada de professora pelos sambistas, Rosa Magalhães começou sua carreira no samba como assistente de Fernando Pamplona. Isso ocorreu no Salgueiro, quando a escola foi campeã. Assim, 25 anos depois, a carnavalesca é a inspiração para a escola conquistar seu décimo título. “Ô lê lê! Eis a flor dos amanhãs / A décima estrela brilha em Rosa Magalhães / Onde o samba é primavera, que floresce em fevereiro / Nem melhor nem pior, Salgueiro”.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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