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A virada energética alemã

País já conta com 1,5 milhão de produtores de energia solar e 20 mil turbinas eólicas

Turbinas eólicas num campo de canola próximo de Molsdorf, ma Alemanha. Foto de Michael Reichel/DPA
Turbinas eólicas num campo de canola próximo de Molsdorf, ma Alemanha. Foto de Michael Reichel/DPA

Num dia nublado, como a maioria dos dias em Berlim, um painel solar de 53 metros quadrados se move em busca de uma nesga de sol do lado de fora da estação de trem Suedkreuz. Sua mobilidade lhe dá 30% a mais de rendimento em relação a um painel estático, e sua energia produzida abastece dez pontos de recarga de automóveis elétricos e cinco de bicicletas elétricas. Somado a duas turbinas eólicas, o conjunto forma a “Estação do Futuro”, desenvolvida entre 2014 e 2017, com 1,4 milhão de euros do Ministério do Transporte e Infraestrutura Digital da Alemanha. É um modelo para estações de trem sustentáveis, pioneiro na Europa.

Você está entrando numa área de zero emissão de gás carbônico

Placa no Campus Euref

A maior parte dos cerca de cem mil passageiros diários da estação berlinense passa sem surpresa pelo sistema que salta aos olhos de um brasileiro. Num país em que os movimentos de proteção ao meio ambiente são fortes desde os anos 1980, mesmo os não engajados se acostumaram a ouvir nos últimos anos a expressão Energiewende – algo como Virada Energética –, programa de transição de fontes de energia na Alemanha. A meta é que as fontes renováveis sejam responsáveis por entre 45% a 50% de geração de energia elétrica no país em 2025, e de 55% a 60% em 2030. Para 2050, o objetivo é chegar a 80%, além de atingir uma redução de 80% a 95% de CO2 – sempre em comparação com níveis de 1990.

Em 2016, estima-se que o percentual de energia produzido por fontes limpas na Alemanha tenha sido de 32%. No entanto, há locais que já atingiram a meta de 2050, como o Campus Euref, em Berlim. Único na Europa, o projeto experimental já atrai mais de cem grandes empresas e centros de pesquisa, mas começou reunindo startups na área de energia renovável, como a innoz – que concebeu o projeto da “Estação do Futuro”– e a inno2grid, de consultoria e projetos no setor. Foi esta a responsável por criar no campus uma rede autossustentável, que une a energia produzida por planta de biogás, turbinas eólicas e painéis solares aos consumidores locais: edifícios e uma estação de recarga para 50 carros elétricos compartilhados, a maior da Alemanha.

“Você está entrando numa área de zero emissão de gás carbônico”, diz a placa no campus, cuja construção começou em 2012 e terá novos prédios até 2018, em 165 mil metros quadrados. O local produz toda a energia que consome e ainda a exporta por meio de transformadores. “Há momentos em que há mais energia do que consumidores. Por isso aqui pensamos em como guardá-la. E a descentralização é uma das principais soluções”, afirma o engenheiro Mauricio Rojas, gestor de projetos da inno2grid.

A estação do futuro, em Suedkreuz, é um modelo para estações de trem sustentáveis, pioneiro na Europa. Foto de Suzana Velasco
A estação do futuro, em Suedkreuz, é um modelo para estações de trem sustentáveis, pioneiro na Europa. Foto de Suzana Velasco

Rojas mostra que não é apenas necessário gerar energia, mas desenvolver formas inteligentes de distribuição e uso, para que não haja nem falta nem desperdício. Ali desenvolve-se um programa de computador com 700 variáveis usadas para que se decida automaticamente o que fazer com a energia gerada – se levada aos edifícios como eletricidade ou aquecimento, se usada no abastecimento de carros elétricos, vendida para a rede externa ou armazenada nas baterias desenvolvidas no local. “Os painéis solares do campus estão diretamente conectados a baterias. Graças a elas posso entregar energia solar 24 horas por dia”, diz Rojas. “Na Alemanha é permitido o preço negativo, que é algo absurdo, pagar a alguém para que consuma energia porque ela está sobrando”.

Na Alemanha é permitido o preço negativo, que é algo absurdo, pagar a alguém para que consuma energia porque ela está sobrando

Maurício Rojas
Gestor de projetos da inno2grid.

O problema ocorre porque a grande produção de energia eólica é no Norte da Alemanha, mas a demanda maior de consumo é no Sul, havendo momentos em que as turbinas precisam ser desligadas por excesso de produção. De acordo com especialistas na área e o próprio governo alemão, este é um dos maiores desafios do Energiewende, pois as linhas de transmissão Norte-Sul são caras e sofrem resistência de parte da população, devido à poluição visual. Outros desafios do programa alemão são a diminuição do consumo de energia, que ainda vem crescendo no país, e a extinção total do uso carvão como fonte energética.

Já os reatores nucleares vêm sendo fechados desde a tragédia de Fukushima. Nos anos 2000, quando Angela Merkel era ministra do Meio Ambiente, o governo alemão iniciou negociações com as indústrias para que o país deixasse de ter reatores nucleares como fonte energética. Em 2010, Merkel já era primeira-ministra e decidiu prolongar a sobrevida da energia atômica, sete meses antes do acidente na usina nuclear japonesa. Cem mil pessoas foram às ruas em Berlim protestar contra a manutenção da energia atômica, e levaram Merkel a mudar de ideia.

“A decisão de Merkel parece uma mudança repentina, mas os movimentos ambientais e contra o lixo nuclear no país não começaram com Fukushima, e sim com Chernobyl, nos anos 1980. Desde a criação do Ministério do Meio Ambiente, em 1986, a população alemã tem papel central na política ambiental de Estado”, afirma Ursula Mumpro, responsável pela cooperação internacional no setor de energia do Ministério de Economia e Energia da Alemanha.

.Desde 2000, com uma lei que dá prioridade à energia renovável, é a população alemã que paga uma sobretaxa para financiar as tarifas recebidas pelas empresas que produzem energia limpa. Em 2016, mais de 24 bilhões de euros financiados pelos próprios consumidores, que pagaram entre 25 a 29 centavos de euro por KWh, dos quais 6,2 foram para financiar a produção de renováveis. Só com essa segurança de retorno financeiro as empresas foram estimuladas a investir em um setor caro, mas que já vem se tornando competitivo no país.

De acordo com Ralf Christmann, responsável pela divisão de energia renovável do Ministério de Economia e Energia da Alemanha, as sobretaxas devem ser extintas em meados da próxima década. Esta é a mesma previsão do Agora Energiewende, um think tank financiado pela Fundação Mercator e pela Fundação Europeia para o Clima. “A produção de renováveis cresceu e se tornou mais barata muito mais rapidamente do que era previsto”, afirma Philipp Gordon, responsável pela área de transição energética global no Agora Energiewende. “Hoje as energias eólicas e solar já são competitivas com novas instalações energéticas de outros tipos. Em 2014, uma planta solar custava cerca de mil euros por KWh. Em 2050, ela custará entre 300 e 700 euros.”

No Campus Euref, em Berlim, a meta de 80% de energia renovável já foi alcançada. Foto de Vipul Toprani/Divulgação
No Campus Euref, em Berlim, a meta de 80% de energia renovável já foi alcançada. Foto de Vipul Toprani/Divulgação

Mesmo numa sociedade acostumada a planejar e pensar a longo prazo, o governo precisou criar incentivos para o engajamento da população. Qualquer pessoa na Alemanha recebe 800 euros se quiser investir em energia solar. Além disso, os pequenos produtores ficam de fora dos leilões que o governo alemão passou a realizar em 2014, como forma de incentivar a competição. Em dados de 2012, 35% da energia limpa na Alemanha eram provenientes de investidores privados e 11%, de fazendeiros.

Hoje o país tem 1,5 milhão de produtores de energia solar, 20 mil turbinas eólicas, entre 800 e 900 companhias de distribuição e quatro sistemas de transmissão. Berlim reúne cerca seis mil edifícios com painéis solares, um número baixo para uma cidade engajada com o meio ambiente. Um dos principais motivos é que apenas os proprietários de painéis solares estão isentos da sobretaxa paga para os produtores de energia renovável, mas não os inquilinos. Na capital alemã, no entanto, mais de 80% dos moradores vivem de aluguel. Uma nova lei a ser aprovada no início de 2017 deve estender esse benefício aos inquilinos e incentivar novas instalações.

Em 2017, a sobretaxa chegará perto dos 7 centavos, ou seja, o preço de energia ainda aumentará antes de baixar. “Temos que pagar o fardo do passado, mas o custo será menor para novos investimentos. Olhando para o futuro, o preço da energia cairá”, sustenta Ralf Christmann, sabendo que precisa contar com a confiança da população nesse futuro. “A virada energética alemã nunca funcionaria sem o comprometimento da sociedade. ”

Escrito por Suzana Velasco

Suzana Velasco

Jornalista carioca, trabalhou por 12 anos no jornal O Globo, onde foi repórter e editora assistente do Segundo Caderno e repórter do suplemento Prosa. Atualmente vive em Berlim, onde desenvolve um projeto de entrevistas com imigrantes turcos. Tem mestrado em Relações Internacionais pela PUC-Rio e é autora do livro "A imigração na União Europeia: Uma leitura crítica a partir do nexo entre securitização, cidadania e identidade transnacional" (EDUEPB, 2014).

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