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Walter Benjamin e o futuro digital

A indústria cultural sob a ótica visionária do filósofo e teórico de mídia alemão

Celular tirando foto de ponto turístico em Londres
Celular fotografando a Tower Bridge, ponto turístico de Londres

A maneira como vemos a realidade hoje pode, em parte, ser explicada por um texto escrito há 80 anos. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”, do filósofo e teórico de mídia alemão Walter Benjamin, já previa, em 1936, como a percepção humana poderia ser fortemente afetada pela reprodução midiática intensa da realidade.

Retrato de Walter Benjamin
Filósofo Walter Benjamin

“Durante longos períodos da História, o modo da percepção humana muda conforme o modo de vida da humanidade”, escreve Benjamin. E, no século passado, na era da reprodução mecânica de obras, com a popularização cada vez maior da fotografia e do cinema, se a chamada “aura”, a singularidade de uma obra de arte, se desvanecia com sua repetição ad nauseam, também a aura da própria realidade à nossa volta poderia ser afetada dessa maneira.

No segundo semestre de 2015, o “New York Times” citou um levantamento da empresa de pesquisa InfoTrends que previa a produção de 1,3 trilhão de fotos digitais em 2017. Dessas, somente 13% viriam de câmeras fotográficas e quase 80% seriam oriundas de  celulares e smartphones. Isso certamente é fruto de um comportamento cada vez mais observado no cotidiano: a visão da realidade por meio da câmera de um celular. (Segundo os números da União Internacional de Telecomunicações, hoje há 7 bilhões de assinantes de celular no mundo, uma taxa de penetração de 97%, contra 738 milhões há 16 anos.)

Nem é preciso ir muito longe para obter exemplos: no recente show dos Rolling Stones no Maracanã, no Rio, o jornalista especializado em música Dean Goodman escreveu o seguinte: “É um show dos Rolling Stones ou uma convenção de smartphones? Os brasileiros podem ser belos, mas será que precisam ficar fazendo selfies durante o show inteiro, com as costas para o palco?”

Sem dúvida, a reprodução oferecida pelas fotos nas revistas e filmes do noticiário difere da imagem em si

Walter Benjamin
filósofo alemão

Em viagens, quantas vezes terá o leitor se flagrado fotografando um ponto turístico importante em vez de olhá-lo diretamente?

Tal comportamento se coaduna com a tese de Benjamin e a eleva exponencialmente. A decadência da “aura” da arte, bem como da própria realidade, decorre “do desejo das massas contemporâneas de trazer as coisas ‘para mais perto’, espacialmente e humanamente, um desejo tão ardente quanto o de sobrepujar a singularidade de algo real aceitando sua reprodução”. Para o filósofo, todos os dias essa ânsia, esse impulso de tornarmos algo realmente próximo de nós fica mais forte. E na era digital a reprodução, especialmente a imagética, só fez tornar o processo mais frenético.

Hoje valeria trocar as “fotos nas revistas” por Instagram, Facebook ou WhatsApp; e os “filmes do noticiário” por Netflix, TV a cabo etc. Mas a noção do teórico germânico estava correta.

A qualidade de coisa única e a permanência da realidade estão, para Benjamin, na visão nua, que mantém intacta a aura do real (ele exemplifica isso com a hipotética contemplação de uma cadeia montanhas ao longe ou de um galho de árvore que joga sua sombra sobre nós numa tarde de ócio – tais elementos, assim vistos, nos permitiriam experimentar sua unicidade, sua aura). Já a reprodução do real é necessariamente transitória — se já era então, na época da indústria cultural nascente, hoje então a transitoriedade se multiplica nos Vines do Twitter e nas fotos autodeletantes do Snapchat.

No plano da arte, Benjamin analisa que a reprodução em massa de uma obra a liberta de sua relação com um culto, com uma tradição. A obra passa a ser projetada justamente para ser reproduzida.

O pintor mantém em seu trabalho um certo distanciamento da realidade” (como o mágico), “enquanto o ‘cameraman’ penetra profundamente na realidade

Walter Benjamin

Necessariamente o trilhão de fotos projetado para o ano que vem pela InfoTrends se configurará em fragmentos do real. E o filósofo já o previa, comparando quem captura imagens a um cirurgião e quem as pinta a um mágico.  No fim, a imagem final do pintor é “total”, enquanto a do outro “consiste em múltiplos fragmentos que são reunidos segundo uma nova lei”.

Um trecho interessante do texto cita o escritor francês Georges Duhamel, que detestava cinema e lavrou a seguinte frase que hoje bem poderia ser dita em outro contexto por qualquer um de nós, consumidores-produtores de conteúdo: “Eu não consigo mais pensar o que quero pensar. Meus pensamentos foram substituídos por imagens em movimento”. Em outro ponto, Benjamin, embora se referindo ao público diante do cinema, afirma que “a massa cada vez maior de participantes produziu uma mudança na forma de participação”. Soa familiar.

No parágrafo final, Benjamin nos deixa uma frase memorável para meditar. “A humanidade, que nos tempos de Homero era objeto de contemplação para os deuses do Olimpo, hoje o é para si mesma”. Merece uma novíssima Reação (a recém-reformada Curtida) no Facebook.

Escrito por André Machado

André Machado

Jornalista há mais de três décadas, trabalhou em locais como a Rádio Fluminense FM, o Grupo Manchete e o jornal O Globo, onde cobriu tecnologia no caderno Informática Etc e na editoria Digital & Mídia. Publicou livros sobre o tema e também de ficção ('Daniela e outras histórias", contos, Multifoco, 2012).

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