ODS 1
Mulheres na areia: as barreiras invisíveis para jogadoras de beach soccer


Escassez de apoio, investimento e cobertura midiática prejudicam prática do futebol de areia para meninas e mulheres no Brasil


Ao fundo, o vai e vem das ondas. Na frente, um calçadão ondulado repleto de turistas. O sol brilha sobre Copacabana, dourando a areia onde o Rio exibe sua beleza mais clássica. Entre turistas encantados e barracas de praia, há também corpos em movimento, pés descalços e gritos de incentivo. Um jogo que curiosos passam observando, mas quem para e nota com atenção enxerga mais do que mais um dos passatempos de um carioca comum. São meninas jogando futebol de areia no berço da modalidade — sem transmissões da grande mídia, nem patrocinadores famosos e sem poder contar com premiações.
Na mesma areia que o beach soccer nasceu, o esporte feminino ainda luta para não morrer; seja em Copacabana ou nas praias ao redor do Brasil, ele sobrevive ao descaso, ao improviso, à falta de apoio. É um esporte que se alimenta de amor e resistência, mas se cansa da ausência de estrutura e reconhecimento. E mesmo assim, elas continuam: treinando, sonhando, lutando.
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O esporte ganhou forma, fama e fãs, mas o que foi berço para uns virou barreira para outras. Enquanto os homens logo ganharam torcida, estrutura e reconhecimento, as mulheres seguiram jogadas para escanteio no futebol de areia. Elas, que sempre estiveram presentes no esporte, seguem invisíveis aos olhos de uma sociedade que ainda não aprendeu a reconhecê-las como protagonistas da própria história e da história do beach soccer no Brasil. O futebol de areia nasceu aqui, mas a narrativa oficial esqueceu de incluí-las. Ainda assim, elas seguem escrevendo suas histórias com os próprios pés.
“Estamos em um caminho de melhoras, mas em passos de tartaruga”, desabafa Natalie Wippel, goleira do Vasco Beach Soccer e da Seleção Brasileira Feminina de Beach Soccer. Dita com firmeza, a frase resume com precisão o sentimento de quem há anos ocupa um espaço dentro da modalidade feminina do futebol de areia e percebe o quanto essa ocupação ainda é, sobretudo, uma luta diária.
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Veja o que já enviamosA desigualdade, uma das questões que mais afeta o esporte, também se revela no calendário. “O que nós temos de jogos femininos na história da seleção brasileira, a Espanha joga em um ano… Então você vê o quanto a gente tá atrasado. De estrutura, nós estamos muito atrás”, aponta Natalie, com propriedade e cansaço acumulado.


Presente na primeira convocação da seleção brasileira feminina de futebol de areia, em 2019, a goleira também é comentarista e estudiosa do esporte: costuma acompanhar campeonatos internacionais e, afeiçoada aos números, monitora dados e estatísticas. “Eu não me considero uma pioneira. Eu acho que joguei um cimento numa estrada que já havia sido aberta. A gente pavimentou essa estrada, porque não posso me esquecer das pessoas mais velhas que me incentivaram muito”, afirma a atleta, hoje com 40 anos e recentemente convocada para a seleção brasileira feminina que disputa uma competição internacional na primeira semana de abril.
Seu olhar é coletivo: Natalie reconhece quem veio antes e quem segue ao lado. Ao mesmo tempo, não silencia sobre o abandono institucional e o contraste brutal entre conquistas e reconhecimento. “A gente, o Vasco né… O Vasco é bicampeão carioca: nós temos o melhor time do estado, você sabia disso? E não tem divulgação nenhuma, não tem transmissão nenhuma, não tem nada. Se a gente não correr atrás… a gente não tem nada”, afirma a goleira, formada em Educação Física, casada e com uma filha de 15 anos.
Essa ausência de visibilidade contrasta com a força da equipe feminina de beach soccer. Para ela, o time cruzmaltino oferece uma estrutura que poucos clubes do país conseguem replicar. “Todo mundo quer jogar com a gente e eu me arrisco a dizer que não tem clube que ofereça o que nós oferecemos. De material, estrutura, comissão técnica…”
Mas mesmo onde há organização, há limites. A goleira lembra de um episódio na Copa do Brasil de 2024, competição em Brasília, quando a equipe feminina precisou se deslocar pelo menos 20 minutos para almoçar e jantar, gastando ao todo quase uma hora numa tarefa simples, enquanto os jogadores da modalidade masculina ficavam em um hotel que oferecia todas as refeições a menos de um minuto de seus quartos. Afinal, a quem interessa esse contraste estrutural?


Mulheres sem reconhecimento na areia
Apesar das críticas, Natalie também valoriza cada avanço e os percebe mesmo que lentos, esparsos, desconectados. “A gente não quer ser milionária, a gente quer receber o que é justo”, afirma. Justo seria ter reconhecimento quando se tem conquistas. Justo seria ver o nome de jogadoras como Adriele e Lelê, indicadas a melhor do mundo, ocupando manchetes. “Como você tem o melhor time do mundo, que é o São Pedro, e isso não sai nem no Globo Esporte? Adriele é a melhor do mundo, Lelê foi indicada a melhor do mundo e ninguém sabe. Isso pra mim é loucura”, comenta a atleta.
As menções feitas por Natalie merecem ser destacadas. A ala Adriele Rocha, maranhense de 29 anos, foi três vezes (2022, 2023, 2024) eleita a melhor jogadora de beach soccer do mundo: camisa 10 da seleção, a jogadora do Sampaio Correia tem passagens também pelo beach soccer de Portugal e da Itália. Também goleira da seleção brasileira, Lelê Lopes já foi eleita a melhor goleira do mundo e é destaque do São Pedro, time feminino do Espírito Santo que conquistou o Mundial de Clubes feminino de beach soccer em 2024.
O espaço que Natalie ocupa é muito importante. A goleira, que também joga futsal, é comentarista na Cazé TV, Vasco TV e CBF TV. “Eu acho que temos que aproveitar os espaços que nos são dados… Eu acho que eu pude dar um leve assobio para modalidade, não vou dizer nem uma voz”.
A experiência de campo, a vivência nos bastidores e o amor pela modalidade ainda mantêm Natalie ativa. Mas ela deixa claro que sua permanência é política: “Eu tô jogando ainda não é por eu jogar, é por ocupar um espaço onde não tem mulher; é simplesmente por isso”, afirma a atleta.
Enquanto atletas se desdobram para manter o beach soccer vivo para meninas e mulheres, a estrutura que as cerca segue precária. A modalidade sobrevive à base de esforço individual, treinos em horários alternativos — já que as jogadoras têm que trabalhar e estudar para compor a renda — e promessas que se arrastam por anos. Não é exagero dizer que as mulheres que hoje compõem a elite do futebol de areia no Brasil chegaram onde estão apesar do sistema, não por causa dele.


As desigualdades são visíveis em várias questões: no número de campeonatos organizados, na cobertura da imprensa, no acesso a patrocínio e até mesmo na premiação dos torneios. Faltam competições nacionais e internacionais, e quando acontecem, não há constância. Também não existe um calendário fixo, o que impede que as jogadoras tenham regularidade de treinos e competição, além de reduzir as chances de garantir patrocinadores.
Para as jogadoras de beach soccer, a ausência de cobertura midiática aprofunda esse buraco. As transmissões de jogos femininos são exceção. Não há equipe de imprensa, assessoria específica, ou estatísticas disponíveis com frequência. Títulos importantes passam despercebidos, e jogadoras reconhecidas internacionalmente sequer aparecem nas redes oficiais das federações. A conquista, sem visibilidade, vira quase um segredo.
E mesmo a seleção brasileira feminina, que deveria ser o topo da pirâmide, ainda sofre com a desigualdade. São poucos jogos por ano, quase nenhum amistoso internacional, pouco investimento. Enquanto seleções como a da Espanha disputam partidas durante toda a temporada, as brasileiras precisam se contentar com convocações esporádicas e sempre se queixaram da falta estrutura para treinar, recursos para viajar, calendário para planejar.
Em sete anos, desde a primeira convocação em 2019, a seleção brasileira feminina só se reuniu nove vezes, disputando apenas cerca de 30 jogos. Somente agora em 2026, a seleção feminina de beach soccer fez sua primeira temporada de treinos na Granja Comary, histórico centro de treinamento da CBF. E a viagem para El Salvador será a primeira em que as seleções masculina e feminina do esporte farão juntas para uma competição internacional.


Cultura de desigualdade também no beach soccer
Essa realidade não nasce do acaso: ela é reflexo direto de uma cultura esportiva que historicamente privilegiou o masculino e construiu especialmente o futebol como território de homens. No beach soccer, isso é ainda mais evidente: a modalidade para os homens nasceu nas areias cariocas com transmissão ao vivo, palco para ex-jogadores renomados e arquibancadas lotadas. Para as mulheres, o cenário segue sendo o oposto. O palco existe, mas os refletores raramente apontam para elas.
Fabrício Santos não hesita em se posicionar: é homem, ex-técnico da seleção brasileira feminina de beach soccer, e se identifica como militante da modalidade. Ele sabe que ocupar esse espaço, em um esporte estruturado sobre pilares machistas, é também um ato político. “A partir do momento que eu comecei a perceber que eu poderia ser mais um dentro dessa guerra, dessa briga, dessa batalha… eu fui me fortalecendo”, contou. Fabrício reconhece que, muitas vezes, o fato de ser homem lhe abriu portas que estariam fechadas para uma mulher. “É muito preconceituoso dizer, mas às vezes a gente, por ser homem, consegue alcançar algumas coisas que talvez uma mulher não conseguiria naquele contexto”.
Fabrício garantiu que não falava como salvador, mas como aliado. Ao longo de seis anos (de julho de 2019 a agosto de 2025), ele comandou a Seleção Brasileira Feminina de Beach Soccer: no período, a equipe participou de seis competições oficiais e um Desafio Internacional. Para o treinador, seu papel foi usar os espaços para abrir caminho. A militância, para ele, foi prática: viajar por cidades do interior do Brasil para acompanhar competições, se aproximar de projetos locais, conhecer realidades comumente ignoradas pelas federações.
E, mesmo assim, Fabrício reconheceu: o beach soccer para as mulheres continua frágil, dependente de poucos nomes, quase invisível para patrocinadores e imprensa. “Talvez a gente ainda não saiba vender o produto”, admitiu. Mas, se ele esteve ali, como treinador da seleção feminina, é porque tinha escolhido lutar, e lutar ao lado das mulheres, não à frente delas. Mesmo em outras trincheiras (Fabrício agora é assistente técnico da seleção masculino, além de treinar times masculinos no Paraguai e na Itália), ele prossegue na luta.
Hoje quem comanda a Seleção é Rose Andrade, ex-treinadora do São Pedro, time capixaba considerado como o melhor do país na modalidade: é a primeira mulher a comandar a seleção brasileira de Beach Soccer, e ter uma profissional, mulher, tão qualificada é essencial nesse meio. A troca de profissionais é bem significativa e representativa. Com toda certeza, as mulheres do Beach Soccer sorriem com as novas possibilidades agora que o Brasil tem uma treinadora na seleção feminina.


Descontinuidades, resistências e resiliências
“Se olharmos com atenção, é possível perceber que o futebol das mulheres no Brasil não é uma ausência, mas uma presença marcada por descontinuidades” – a frase de Silvana Goellner, pesquisadora e ativista do futebol de feminino, em artigo publicado na revista Movimento (2021), ajuda a traduzir o que se vê nas areias brasileiras e nos relatos de atletas como Natalie Wippel e treinadores como Fabrício Santos. A história contada na areia não nasce do nada: ela resiste entre apagamentos, silenciamentos institucionais e lutas diárias por espaço. Mulheres que treinam por conta própria, que se formam taticamente sem muitas estruturas e que se unem em redes de afeto e esforço coletivo são, como a autora define, parte de “um movimento político que disputa sentidos”.
E, nas areias de Copacabana, onde tudo começou, as pegadas femininas continuam a marcar o chão, mesmo que o Brasil insista em não enxergá-las. Cada passo dado por essas mulheres não é apenas um deslocamento no jogo, é um avanço contra a invisibilidade. Enquanto o sol se põe sobre o calçadão ondulado e turistas recolhem suas cadeiras, elas seguem. Com menos holofotes, mas com a mesma paixão que moldou a história do beach soccer. Jogam por dignidade, por permanência, por voz ativa na modalidade. E se o esporte ainda caminha em passos de tartaruga, é porque carrega nas costas o peso de séculos de exclusão. Mas quem olha de perto sabe: há força nos passos curtos. E há futuro nas pegadas que elas insistem em deixar.
*Trabalho produzido para a disciplina Reportagem I, do curso de Jornalismo da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO/URFJ), sob a orientação dos professores Luan Pazzini Bittencourt e Marcelo Kischinhevsky
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Luiza Benevenuto
Luiza Benevenuto é graduanda em Jornalismo pela UFRJ, onde também pesquisa a história das comunicações e o resgate de narrativas invisibilizadas. Com um olhar plural, dedica-se a uma escrita que rejeita abordagens rasas, recusando-se a transformar histórias em mercadorias descartáveis









































