Inspiradas por Angela Davis e Anitta: como as meninas da GEN Z enxergam o feminismo

Meninas da geração Z nasceram no meio virtual e têm a informação na palma das mãos (Arte: AzMina)

Jovens dos anos 2000 aprendem sobre direitos na internet e com a cultura pop, e se engajam desde cedo; elas levam o debate para as salas de aula

Por Revista AzMina | ODS 5 • Publicada em 8 de março de 2022 - 12:01 • Atualizada em 13 de março de 2022 - 11:52

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Meninas da geração Z nasceram no meio virtual e têm a informação na palma das mãos (Arte: AzMina)

(Juliana Góes*) – Elas estão cada vez mais conectadas, por dentro das últimas ‘trends’ e com a coreô em dia. Prontas para postar aquela dança ou dublar o novo vídeo do momento, mas também para criticar e expor qualquer machismo que virem! As meninas da geração Z nasceram no meio virtual e têm a informação na palma das mãos. O futuro do feminismo depende dessas xovens, que, ainda bem, estão cada vez mais engajadas e atualizadas. Mas, afinal, o que elas pensam sobre esse movimento tão antigo?

Para construir esta reportagem, a equipe d’AzMina elaborou um questionário, com perguntas sobre feminismo, e recebeu mais de 280 respostas de jovens nascidas entre 2002 (20 anos) e 2010 (12 anos) – período que contempla a chamada “geração Z”. E também fomos conversar diretamente com algumas delas.

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Um pouco de funk, um pouco de política

“Vocês pensaram que eu não ia rebolar minha bunda hoje?”. Para a geração Z: a icônica frase da cantora Anitta é um reflexo da liberdade que as mulheres devem ter sobre seus corpos. “Ela faz com que outras mulheres se sintam fortes, poderosas, resistentes e autênticas”, destaca Kathleen Domingos, 17 anos, moradora de Leme, em São Paulo.

Mas o que Anitta e a filósofa e ativista americana Angela Davis teriam em comum? Ambas são referências feministas da geração Z. Sim! Enquanto as mais novas enxergam na cantora pop um exemplo de superação e independência feminina, as jovens acima de 15 anos vêem na escritora um exemplo de luta no movimento. “Ela me inspira por suas ideias libertadoras e também por ser uma mulher socialista”, revela Kailane Duarte, 18 anos, do município de Araci, na Bahia.

Foram as obras de Angela Davis que levaram Tarsila Rodrigues, 18 anos, moradora de Recife, em Pernambuco, ao feminismo interseccional. “O primeiro livro que eu li foi “Mulheres, raça e classe”, e isso me trouxe muito entendimento sobre o movimento em si, principalmente, o feminismo negro.” Sabida ela né?!

Quando esteve no Brasil, em 2019, Angela Davis exaltou a vereadora carioca assassinada, Marielle Franco. O nome da parlamentar também é muito citado pela Gen Z quando o assunto é referência no feminismo. “Acho super importante o fato de ela ter sido feminista, preta, mãe solo e fazer parte da comunidade LGBTQIA+”, escreveu uma das jovens que responderam ao questionário d’AzMina.

Além da vereadora, nomes como os da ex-deputada federal Manuela D’ávila, da ex-presidente Dilma Rousseff e da ativista paquistanesa Malala Yousafzai despontam entre as jovens.

A cultura pop também se mostra muito forte e presente na vida dessas meninas, para além de Anitta. A atriz Emma Watson e as cantoras IZA, Ariana Grande, Taylor Swift e Beyoncé são frequentemente lembradas como inspiração para o movimento feminista. “Liberté, égalité, beyoncé!”

Anitta em evento em Miami: cantora é exemplo de mulher forte, livre, independente e poderosa para nova geração (Foto: AFP – 24/02/2022)

Diversidade é regra

Há que se ressaltar inclusive a maior liberdade para falar de orientação sexual e identidade de gênero entre essa turma, nas respostas ao questionário, 35% disseram ser bissexual e 5,7%, pansexual. Quase 80% indicaram a liberdade sexual como uma pauta importante no movimento. A não-binaridade, em relação à identidade de gênero, também foi marcada por 4% das pessoas que responderam ao questionário. Bem-vindes à era dos pronomes neutros, galera 😉 E, não à toa, 95% acredita que a sexualidade da mulher ainda é um tabu. Bora se atualizar sociedade?

Uma jovem de 18 anos, que não tem identidade de gênero definida e respondeu ser assexual na pergunta sobre orientação na pesquisa, escreveu assim: “Sou contra o feminismo radical que exclui pessoas trans de seus discursos. Acredito ser uma feminista de viés mais marxista, aliada ao feminismo negro e muito ligada ao movimento LGBTQIA+”

A mulherada jovem – ou boa parte dela – já se ligou que não dá pra falar só da experiência da mulher branca. “A geração mais jovem conta com esse acúmulo já de saída, de não fazer a discussão centrada num sujeito ‘mulheres’ que corresponde a uma faixa muito restrita delas e que não se toca que as mulheres múltiplas por aí têm necessidades tão distintas”, aponta Isabela Venturoza, doutoranda em Antropologia Social pela Universidade Estadual de Campinas.

Angela Davis discursa na Marcha da Mulheres de 2017, em Washington, capital dos EUA: seu livro “Mulheres, raça e classe” está entre os mais citados pelas meninas (Foto: Theo Wargo / Getty Images/ AFP – 21/01/2017)

Influenciadas pelas redes

Mas não são apenas atrizes, cantoras e figuras políticas que fazem a cabeça da geração Z. Olha que lindo: muitas disseram ter dentro de casa a principal referência feminista – irmãs, tias e mães. Mas devemos dizer que, para outras, infelizmente, o lar ainda é um ambiente considerado opressor.

“Minha infância inteira foi cercada por machismo, me frustrava não poder fazer certas coisas por ser menina, e, por isso, já desejei muito ter nascido menino”, desabafou Ana Carolina Coimbra, 17 anos, moradora de Macapá, no Amapá, que teve contato com o movimento feminista pelas redes sociais aos 11 anos.

Amigas, professoras, redes sociais e a literatura são os meios encontrados por elas para compreender o movimento feminista. As redes virtuais e de amizades também são onde elas dizem exercer o feminismo. O livro e filme Moxie, que traz a discussão do movimento para as novas gerações, foi uma referência que apareceu constantemente nas respostas ao questionário d’AzMina.

Se Angela Davis é uma voz feminista, o seu livro “Mulheres, raça e classe” também está entre os mais citados pelas meninas. Mas a obra “Mulheres que correm com os lobos”, de Clarissa Pinkola Estés, aparece entre as queridinhas da Gen Z feminina. “Ele me trouxe a reflexão que todes podem despertar em si o feminino, evidenciando que ele vai além de uma questão de gênero, como uma essência que se manifesta na natureza humana e animal”, explicou Maitê Massarioli, 18 anos, de Araraquara, São Paulo.

Ainda na literatura, “O feminismo é para todo mundo”, da teórica feminista e ativista negra norte-americana Bell Hooks, também aparece no TOP 10 delas. Já no universo musical, a playlist dessa juventude tem de “No chão novinha”, de Anitta, a “Triste, Louca ou Má”, da banda Francisco, el Hombre.

Pelas respostas à pesquisa, combate ao assédio sexual e políticas públicas pelo fim da violência contra a mulher são as prioridades da geração Z (Arte: AzMina)

Algumas coisas não mudam

Se a tecnologia e as referências delas podem ser completamente diferentes das feministas que vieram antes, tem coisa que continua igual: a geração Z também teve que enfrentar, por muitas vezes, o machismo antes de se entender como feminista. Mariana Marques, 15 anos, de Campinas (SP), recorda que sofreu assédio no colégio, aos 14 anos, e teve que lidar com a falta de acolhimento por parte da diretoria. “Eu contei para o diretor, que fez o mínimo, revertendo a situação e desacreditando o meu discurso.”

Maria Clara, 15 anos, moradora de Americana, em São Paulo, também vivenciou o machismo por meio do assédio. “Fui à praia e, na volta, eu estava de vestido e passou um velho, que começou a falar coisas. Eu me senti super mal, inclusive acho que não comentei isso com ninguém, mas me marcou”, revelou a jovem, que devia ter entre 10 e 12 anos à época.

Defni Dallagnol, 20 anos, de Nova Prata, Rio Grande do Sul, sabe bem o reflexo desses comportamentos. Ela lembra que seu corpo se desenvolveu muito cedo, “com 10 ou 11 anos, os caras já buzinavam, faziam piadinhas. Como eu era muito nova, eu não entendia isso, mas hoje vejo o quanto isso me afetou, porque passei muito tempo com medo de andar sozinha na rua”, contou.

São situações como essas que levam jovens dessa faixa etária a defenderem, em pleno 2022, o simples direito de ir e vir. Entre tantos movimentos virtuais, as redes sociais se mostram para elas o lugar perfeito para serem quem realmente desejam. Mas, nas ruas da vida real, essas meninas ainda se preocupam com a roupa que vão usar e os lugares que vão frequentar, porque sabem do perigo que é ser mulher no Brasil.

Entre 80% e 90% das meninas que responderam ao nosso questionário assinalaram a legalização do aborto, igualdade salarial e fim dos padrões estéticos opressores entre as pautas de luta. Mas o combate ao assédio sexual e políticas públicas pelo fim da violência contra a mulher são as prioridades dessa geração, surgindo em mais de 95% das respostas. Esse sentimento também se reflete na pesquisa “Por Ser Menina (2021)” da Plan Internacional Brasil.

Em todas as regiões do país, 57% das entrevistadas sentem medo ao andar na rua, enquanto 94% já presenciaram ao menos uma situação de violência com elas ou pessoas próximas. “Queremos nos sentir pertencentes a um mundo tal qual um homem pode se sentir. Esses papéis sociais que ainda estão muito incrustados precisam ser combatidos”, defende a pernambucana Tarsila, de 18 anos.

O futuro do feminismo

O futuro do feminismo é um caminho de luta para muitas das jovens. “As pessoas não sabem o que é, têm uma imagem caricata da feminista que luta para ter pelos e destruir famílias”, escreveu uma delas no questionário.

O cenário político atual e as fake news também dificultam o caminho do movimento. “Muitas pessoas votaram no Bolsonaro e não gostam de feministas”, apontou outra jovem. Para a paulista Mariana, de 15 anos, o futuro depende do entendimento sobre o feminismo. “Quando a gente tem a percepção do que é, a gente evita reproduzir comportamentos machistas.”

A cientista social Carine Passos, doutoranda em Sociologia Política, avalia que a nova geração tem a capacidade de perceber de maneira rápida e dinâmica as armadilhas espalhadas para manter a opressão e o sistema de vantagens para os homens. “Uma pessoa que consegue perceber cedo a maneira como o sistema age sobre ela, tem mais chances de fazer escolhas que tendam a buscar mais equidade”, afirmou.

Mas há um risco. O acesso a informação e a promoção de um feminismo mais horizontal, que não gera participação em movimentos institucionais, pode provocar também um certo individualismo na luta feminista, “sem que esse engajamento saia das redes e ganhe a ação política e a construção de mecanismos de diminuição de desigualdades”, ponderou Carine.

App pra detectar ciladas

Graças às Deusas, têm meninas mostrando que o movimento sai das redes sociais e vira ação. Na cidade de Leme, em São Paulo, três jovens descobriram o poder da transformação pela prática. Elas projetaram o aplicativo “Será que é Amor” em 2021, para promover a conscientização de adolescentes e jovens sobre um relacionamento abusivo.

A ideia foi desenvolvida na Escola Estadual Professora Maria Joaquina de Arruda, tendo à frente as estudantes Beatriz Hildebrand, Kathleen Domingos e Keyth Oliveira, além dos docentes, Aber Galhardo e Renata Braga. O aplicativo, que ficou em segundo lugar da 9ª Mostra de Ciências e Tecnologia do Instituto 3M, apresenta informações sobre relacionamentos tóxicos e indica canais de suporte e ajuda.

“Eu tenho amigos que vieram falar comigo e que não sabiam que aquilo não era saudável, mas que reproduziam tal comportamento porque viam isso em casa”, falou Beatriz.

Que massa que essa geração vai ter mais maneiras para se proteger em diferentes situações em que o machismo e o sexismo se manifestam. “E vão conseguir acionar uma rede de suporte ou direitos que muitas de nós em outras gerações não sabíamos que existiam ou mesmo passávamos muito tempo nos sentindo culpadas por violências sofridas”, acrescenta a antropóloga Isabela Venturosa.

Poreeém, não se iludam, amigues, a gente continua vivendo um mundo que silencia e encaixota mulheres e outros sujeitos, alerta Isabela, “mas hoje as meninas e jovens muitas vezes têm as informações na mão e, para além disso, já criaram pares, já discutem as questões que as afetam e têm muito mais capacidade de fazer frente às desigualdades e às violências”.

Ó, e ligar a antena que detecta o machismo e suas consequências desde cedo também pode dar uma cansada diante da realidade em que vivemos, com essa coisa de questionar o mundo toda hora. Então, descansa a militante de vez em quando!

*Juliana Góes é jornalista, carioca e, há 7 anos, mantém o que chamoa de vocação para o mundo dos concursos, na Folha Dirigida

**ALERTA: essa reportagem foi escrita e editada por pessoas Millenials e, se você é Gen Z, com certeza vai perceber isso

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Revista AzMina: Tecnologia e informação contra o machismo e pela igualdade de gênero, com recortes de raça e classe. Jornalismo independente para combater os diversos tipos de violência que atingem mulheres cis e trans, homens trans e pessoas não-binárias

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