O que acontece quando meninas gritam?

O impacto da opinião alheia na autoestima de meninas fãs e seus efeitos na construção da identidade

Por Eduarda Dartora | ODS 5
Publicada em 29 de agosto de 2025 - 10:10  -  Atualizada em 29 de agosto de 2025 - 11:23
Tempo de leitura: 11 min

Meninas fãs enfrentam julgamentos, mas o mesmo não ocorre com torcedores de futebol com comportamentos semelhantes (Arte: Eduarda Dartora)

É comum lembrarmos de casos em que fãs passaram dos limites e cometeram atrocidades em nome do amor pelo ídolo, como aconteceu com John Lennon, em 1980, ou Selena Quintanilla, em 1995, ambos assassinados por fãs. Mas por que são tão pouco lembradas as vezes em que essa experiência foi lugar de cura? De todas as vezes que vi meus ídolos interagindo com outras fãs, nunca esqueci da cena que mais me marcou, quando, num vídeo, Louis Tomlinson, um dos cinco ex-integrantes da banda One Direction, escutou uma fã dizer: “Graças a você, meus pais têm uma filha ainda viva, então, obrigada”. Ele a abraça com um sorriso no rosto, e a reação dela oscilava entre o riso e o choro. Eu a entendo. Ser fã também me salvou.

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Segundo a pesquisa global da Amazon Ads e Twitch Ads, que, em 2023, entrevistou 12 mil pessoas em 12 diferentes países — incluindo o Brasil -, o principal motivo para fãs continuarem sendo fãs é simples: mais de um terço diz que ter ídolos os faz mais felizes, e 64% afirmam que isso define parte de quem são. Porém, nem todos os fãs são compreendidos da mesma forma. Mulheres continuam enfrentando preconceito, principalmente quando adultas, se permanecem no fandom, ou em uma comunidade de fãs. Isso pode tornar a relação consigo mesma uma verdadeira contenda entre ser quem se é e quem se acredita que precisa ser.

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A psicóloga gaúcha Tainá Picolotto, 25 anos, especializada no modelo de Terapia Cognitivo Comportamental, explica que, especialmente na adolescência, fazer parte de um fandom pode ter papel central na formação da identidade e no fortalecimento de vínculos afetivos. Mas, mesmo quando esse envolvimento representa acolhimento e apoio emocional, o julgamento nas redes sociais — onde geralmente se desenvolvem as comunidades — expõe meninas a cobranças, rivalidades e até cyberbullying. Em um país onde 45% dos casos de ansiedade entre jovens de 15 a 29 anos está associado ao uso excessivo de redes sociais, como apontou o Panorama da Saúde Mental de 2024, essa alta taxa de ansiedade é um alerta importante, pois torna o impasse visível. Enquanto alguns fãs encontram nos ídolos um porto seguro, outros podem absorver padrões de comportamento e estética que reforçam inseguranças. Por isso, responsáveis atentos e comunicativos são essenciais.

Afeto e julgamento: a dualidade emocional de se ser fã

Meninas tímidas que se tornam fãs, como Beatriz da Rocha — ou eu mesma — entendem bem os prós e contras dessa vivência. Hoje com 19 anos, é estudante de programação, moradora de Canoas, na região metropolitana de Porto Alegre e fã de K-pop há quase 10 anos. Bea, como gosta de ser chamada, conta que cresceu ouvindo idols (termo dado à artistas asiáticos) falarem de saúde mental, mas também de dietas extremas e padrões inalcançáveis. Confessa que ela mesma já foi influenciada por essa perseguição da magreza extrema que o mundo asiático enaltece, até aproximar sua experiência como fã a questões de saúde mental, que seus maiores ídolos, a banda coreana BTS, lhe apresentaram. Bea diz que até evitou falar de seus ídolos com algumas pessoas. “Eu nunca admito na primeira conversa que sou fã de K-pop, tenho medo do julgamento”, relata.

Para mim também foi assim, mas a intensidade da adolescência coincidiu com uma fase em que eu ainda não sabia nomear o que sentia. Segundo análise da Organização Pan-Americana da Saúde, a partir do relatório de pesquisa publicado em 2024 pela WHO’s Global Health Estimates, metade de todas as condições de saúde mental começa em torno dos 14 anos — a maioria não é detectada ou tratada. Foi o meu caso. Ao mudar de cidade com 15 anos, enfrentei bullying na escola nova, vi meu artista favorito sair da banda que eu amava, perdi o contato com os antigos amigos e comecei a trabalhar. Eram coisas demais para assimilar em tão pouco tempo e idade, talvez por isso não soube lidar com tudo. Então, me fechei. E os anos passaram.

Só aos 18 recebi meus primeiros diagnósticos: depressão e ansiedade. O tratamento, por ser caro, foi inconstante. E as pessoas me chamavam de estranha quando eu falava sobre as coisas que gostava. Até minha família achava engraçado: “Você ainda gosta deles?”, perguntavam todo final de ano, quando o One Direction ficava no meu Top 1 do Spotify. Na pandemia, veio também a fobia social. E foi só no final de 2022, ao descobrir que Harry Styles, outro dos ex-integrantes da banda, viria ao Brasil, que algo em mim despertou.

Tranquei o medo em uma gaveta escondida do meu cérebro e fui sozinha para São Paulo para ver seu show. Dormi na rua com meninas que conheci naquele dia. Aquilo foi o começo. Meu amor de fã me mostrando quem eu sou, além dos diagnósticos. Hoje, aos 26 anos, voltei à terapia, voltei a estudar, a viver.

Por isso digo que é uma linha tênue. Para muitos adolescentes, especialmente meninas, o fandom é um lugar de acolhimento, mas também onde a sociedade impõe seus preconceitos. Como explica a psicóloga Tainá, a ridicularização constante dessas meninas colabora para um processo de autosilenciamento. “A tendência com essas respostas negativas em relação a ser fã é cada vez mais diminuir as expressões legítimas. E acho que isso acontece muito na experiência das mulheres”, explica. “Elas vão, ao longo da vida, aprendendo que aquilo que elas gostam, sentem e são não é suficiente. Não é o que esperam delas. Então a gente entra num processo de moldar quem nós somos às expectativas sociais”.

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Todo mundo é obcecado por alguma coisa, né? Só muda de pessoa pra pessoa

Anacláudia de Arruda
analista de sistemas e fã

Desse modo, fandoms podem ser tanto abrigo quanto armadilha: a força que empurra para frente ou o peso que nos ensina a ter vergonha de nós mesmas. Frases como “isso é uma fase” não só invalidam o agora, como comprometem o depois. Citando Taylor Swift (“quando você é jovem, eles presumem que você não sabe de nada”).

Já que Tainá também é fã, a psicologa explica como a construção social de inferioridade da juventude é injusta. Segundo ela, não há nada de errado em algo ser infantil, essa é uma fase da vida tão importante quanto qualquer outra – talvez até mais. “Tem uma frase que diz que a infância é o chão que tu pisa a vida toda”, relembra ela. Ou seja, taxar o ser fã como algo passageiro ou bobo apenas lança sombra sobre uma experiência que poderia ser luz. E para muitos, se fosse mesmo só uma fase, não duraria tanto tempo, visto que a mesma pesquisa da Amazon Ads aponta fãs de música como os mais engajados, permanecendo, em média, por 16,6 anos nos seus fandoms.

Anacláudia de Arruda, fã da banda Arctic Monkeys desde os 15, prova que não foi só uma fase. Hoje com 29, de Brasília, analista de sistemas e dona da própria renda, cruza o país para ver os ídolos, que aumentaram um pouco em quantidade, mas também permaneceram. Nos shows, diz que estar com outras fãs é pertencer. Um vínculo que, segundo Tainá, funciona como espaço de validação e proteção – onde é possível ser quem se é, sem medo ou explicação. Um direito que não deveria soar tão revolucionário, mas ainda parece distante para muitas meninas. E se torna evidente quando artistas com público majoritariamente feminino anunciam shows no Brasil: basta os acampamentos começarem para surgirem também os comentários de desdém, que vão da “histeria” à “infantilidade”.

Mas basta olhar com atenção para ver o paralelo que essas mesmas pessoas evitam: o amor de fã e a paixão por futebol funcionam de modo muito parecido. O Instituto D’Or já mostrou isso em duas pesquisas diferentes, com ressonância magnética, realizadas em 2018 e 2019: fãs e torcedores ativam as mesmas áreas cerebrais no momento dos shows e dos jogos. Áreas essas que estão todas conectadas aos sentimentos de recompensa, pertencimento e afeto coletivo. Ou seja, quando uma menina grita por um ídolo no show, seu cérebro reage como o de um torcedor vendo seu time marcar um gol.

Comentários de internautas ao longo dos anos sobre a comparação entre futebol e fãs – (Fotos: Reprodução: Twitter/X)

Então por que um é orgulho e outro, piada?

É curioso que mulheres precisem provar maturidade até nas paixões, quando ninguém exige isso dos homens. Yve Blake, estado-unidense criadora do musical Fangirls, lançou em uma TED Talk essa pergunta: “Por que eu deveria esconder o que sinto? Por que isso te incomoda? Ou por que não é o que os meninos fazem?”. Ao estudar o comportamento de meninos, descobriu que aos quatro anos eles já aprendem a não chorar ou gritar de alegria – sons “não masculinos”. Por isso, para ela, o grito de uma fã é uma forma corajosa e honesta de se entregar e fazer algo que a maioria dos adultos não consegue: amar sem desculpa ou medo.

Foi isso que o cantor Jão pareceu entender quando, no making of de sua turnê, defendeu suas fãs em relação às críticas que estavam recebendo: “No fim, eu acho meio hipócrita os caras acharem normal tatuarem brasões de time, chorarem por jogadores de futebol, e quando são os meus fãs tatuando, chorando, se expressando, aí já é demais”. E talvez, no fundo, seja mesmo uma questão de empatia. Falta disposição pra ver que o que move uma menina na fila do show de seu ídolo não é tão diferente do que o que move um homem a atravessar o país atrás de seu time.

Por isso que Yve Blake diz que as garotas que são fãs têm superpoderes. Não só porque amam com intensidade, mas porque transformam esse sentimento poderoso em ação. Projetos de fãs já mobilizaram arrecadações diversas, como mutirões de plantio de árvores ao redor do mundo. No Brasil, até homenagem no Cristo Redentor a cantora Taylor Swift recebeu na passagem de sua tour pelo país no ano passado. É logística, empatia, habilidade de comunicação, força coletiva. E também aprendizado: inglês, cultura, feminismo, sensibilidade artística.

Com todas essas questões, fica visível que ser fã é uma experiência ambígua, que, como tantas outras na vida, atravessa luz e sombra. Pode ser espaço de pertencimento, liberdade, construção de identidade e refúgio emocional, mas nunca deveria ser vergonha.

Como alerta Tainá, quase tudo na vida depende do contexto: ambiente familiar, apoio, momento de vida. “Quando essa vivência é acolhida e validada, pode se transformar em um alicerce emocional sólido para a vida adulta”. Por isso, é primordial repensar os olhares dirigidos aos jovens – porque, se a infância é o chão que pisamos a vida inteira, a adolescência molda esse caminhar..

Em uma sociedade que ainda ensina meninas a competir, duvidar de si e esconder sentimentos, cultivar empatia vira ato de coragem. “No final, todo mundo tem um gosto. Todo mundo é obcecado por alguma coisa, né? Só muda de pessoa pra pessoa”, diz Anacláudia. Não poderia estar mais certa, cada gosto carrega uma história – e apoiar alguém em sua paixão, ou apenas respeitá-la, é uma forma de fazer as pessoas se sentirem acolhidas. As pessoas não encontram seus hobbies em outro lugar se não naquilo que lhes proporciona alegria e satisfação.

No fim, a experiência de ser fã nunca é só sobre o outro, é, acima de tudo, sobre quem a gente se permite ser. Beatriz, Tainá e Anacláudia carregam no peito a admiração e a força que encontraram nos ídolos. Eu também. Mesmo com o bullying, a nostalgia de uma banda que hoje não existe mais, e quaisquer danos que ser fã já me trouxeram. Apesar de cada momento em que amar publicamente doeu, eu não trocaria por nada. Porque muitas partes de mim nasceram justamente ali, no meio do barulho que parte da sociedade tenta silenciar.

Reportagem produzida para a disciplina de fundamentos da reportagem do curso de jornalismo da Fabico/UFRGS.

Eduarda Dartora

Eduarda Dartora é estudante de jornalismo na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e apaixonada por cultura pop desde criança. Particularmente motivada pela causa da saúde mental, sempre procura entender a complexidade das situações e relações entre a psicologia e suas pautas

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