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Deus me livre de fingir costume

Permitir-se deslumbrar é uma marca de brasilidade mais reconhecível que o passaporte azul ou a camisa canarinho

ODS 10ODS 5 • Publicada em 3 de fevereiro de 2026 - 08:48 • Atualizada em 3 de fevereiro de 2026 - 09:53

Uma das coisas mais legais que eu tenho visto na ascendente campanha do filme “O Agente Secreto” ao Oscar, pavimentada por muitos prêmios no caminho, é como o diretor do filme, Kleber Mendonça Filho, não se faz de blasé ao conhecer ídolos, frequentar a mídia internacional, estar em palcos de premiações mundiais… “Não finge costume”, como dizem os jovens.

É muito colonizada essa ideia de que a gente deve se comedir diante de algo que nos move, independentemente do que seja. Esse papinho frígido de que a gente deve passar pela vida temendo o risco de ser “emocionada”, de mostrar que está feliz, de deixar transparecer que temos orgulho de algo que fizemos.

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E digo mais: essa piração por comedimento, embora não afete apenas as mulheres, claro, se cria e nada de braçadas na misoginia. Quando a gente ensina, desde muito cedo, que meninas devem “ter modos”. Que rir alto é falta de educação. Que obediência é um dos maiores valores que elas podem ter. Que falar demais é ser inconveniente. Que discordar é ser agressiva. Que ocupar espaço, com o corpo, com a voz ou com a opinião, é sempre um excesso que precisa ser contido.

Kleber Mendonça Filho com o elenco de O Agente Secreto ao receber o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira: sem fingir costume (Foto: Reprodução / Golden Globes)
Kleber Mendonça Filho com o elenco de O Agente Secreto ao receber o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira: sem fingir costume (Foto: Reprodução / Golden Globes)

Eu, que nem sei se, e como, acredito em Deus, quero que ele me livre de uma vida assim, fingindo costume, anestesiada para os arrebatamentos da vida, dos mais grandiosos aos minúsculos. De passar meus dias domesticando alegria, como se entusiasmo fosse um desvio de caráter. Deus me livre de uma vida em que até a felicidade precise pedir licença.

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E isso é de uma brasilidade muito mais genuína do que o ufanismo burro da galera do “Brasil acima de tudo”. Cafona isso de estar acima. Aqui no chão temos um Brasil muito mais nosso. Um país que reza sem rezar, profundamente ecumênico nas emoções, mesmo que venha do mais ateu dos cidadãos. Que solta um “graças a Deus” aliviado quando algo dá certo, e invoca “Nossa Senhora” quase como interjeição. Esse país que, mesmo atolado na merda, sempre fez samba e piada de si próprio. Que ri quando não pode: no velório, na reunião de trabalho, no elevador. E que não teme ter orgulho de si mesmo quando a vida melhora, porque encantar-se sempre foi uma estratégia de existência.

Por isso, no cinema e na vida, eu fecho com Kleber Mendonça: não fingir costume também é político. Permitir-se deslumbrar é recusar essa moral chumbrega colonizada de neutralidade emocional e afirmar que o assombro não é defeito: é linguagem, tecnologia, identidade. Com ou sem estatuetas, eu repito, em bom laico-brasileiro: Deus me livre de fingir costume.

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