‘Sangue de Jesus é minha vacina’: o mau uso da fé contra a ciência

Manifestantes com cartazes contra a vacinação em protesto pelo fim de medidas restritivas impostas pela pandemia: grupos cristão usam mensagem ‘Sangue de Jesus é minha vacina” contra a ciência (Foto: Peter Parks / AFP – 30/05/2021)

Teóloga alerta para desinformação sobre comunhão e covid-19 disseminada por grupos cristãos e analisa origens da associação entre Eucaristia e cura

Por The Conversation | ODS 3 • Publicada em 10 de agosto de 2021 - 08:27 • Atualizada em 19 de agosto de 2021 - 19:32

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Manifestantes com cartazes contra a vacinação em protesto pelo fim de medidas restritivas impostas pela pandemia: grupos cristão usam mensagem ‘Sangue de Jesus é minha vacina” contra a ciência (Foto: Peter Parks / AFP – 30/05/2021)

(Robyn J. Whitaker*) – “O sangue de Jesus é minha vacina”, dizia um dos cartazes em recente protesto contra restrições do lockdown em Sydney (Austrália). Embora nossa tendência seja revirar os olhos em descrédito para essas ridículas concepções anticientíficas, esses sentimentos têm uma longa e complicada história na tradição cristã.

Nas plataformas de mídia social, pequenos grupos cristãos – não apenas na Austrália, mas também na Europa e nas Américas – oferecem um pastiche de símbolos bíblicos para vincular a ideia do sangue de Jesus à proteção contra doenças. Em um vídeo, um homem afirma que sabemos que o sangue de Jesus protegerá os cristãos no século 21 da covid-19 porque o sangue do cordeiro pascal protegeu os israelitas no Egito (Êxodo 12). Como analogia, é um evidente exagero.

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Kolina Koltai, pesquisadora de desinformação sobre vacinas do Centro para um Público Informado da Universidade de Washington, aponta que apelar para as crenças e valores das pessoas na disseminação de desinformação sobre a vacina contra a covid-19 é uma arma particularmente poderosa. Essas opiniões podem ser extremamente difíceis de combater, porque fazer isso pode ser percebido como um ataque às crenças centrais de alguém.

Enquanto para alguns, o “sangue” de Jesus é espiritualmente invocado por meio da oração, outras informações errôneas vinculam o poder protetor de Jesus de forma mais explícita à comunhão (ou à Eucaristia). Tomar a comunhão diariamente, disseminam essas pessoas, evita que você adoeça de covid-19.

[g1_quote author_name=”Andrew McGowan” author_description=”Professor da Yale Divinity School e padre anglicano” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]

A Eucaristia é sempre um sinal representado do amor e consideração pela comunidade demonstrado por Jesus, não um talismã para ganho ou benefício pessoal

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A comunhão é um ritual cristão em que quantidades simbólicas de pão e vinho são consumidas para lembrar a última refeição de Jesus com seus discípulos antes de morrer na cruz. Embora diferentes tradições cristãs sustentem uma variedade de pontos de vista teológicos, no cerne da comunhão está a ideia de que o pão e o vinho são ritualmente compartilhados como uma forma de se conectar espiritualmente, para ter “comunhão”, com Jesus e uns com os outros. O pão simboliza o corpo de Jesus e o vinho seu sangue. Beber vinho da comunhão, então, é beber o sangue que salva, de acordo com essas visões distorcidas.

O reverendo Peter French, padre anglicano de Melbourne e teólogo, me disse que, no ano passado, teve que recusar pedidos de pessoas que queriam comprar, de sua igreja, pão e vinho para a comunhão, na crença de que tomá-los diariamente os impediria de contrair a covid-19. Devemos observar que os anglicanos não ensinam que a comunhão os protegerá de doenças e o arcebispo de Canterbury (líder religioso e primaz da Igreja Anglicana) já exortou as pessoas a tomarem a vacina para enfrentar a pandemia.

A associação entre Eucaristia e cura já existia muito antes da covid-19. Em 2013, o Papa Francisco abordou exatamente esta questão em um sermão afirmando que a Eucaristia não é um “rito mágico”, mas uma forma de encontrar Jesus. Em janeiro de 2021, o Papa anunciou que tomaria a vacina e exortou os católicos a fazerem o mesmo assim que fosse possível.

De onde vem essa associação de comunhão e cura? De nenhum lugar explicitamente, mas a tradição cristã tem uma longa associação de metáforas de comunhão e saúde. No segundo século, o bispo Inácio de Antioquia escreveu que a Eucaristia é o “remédio da imortalidade” e o “antídoto” para a morte. O “remédio” de Inácio, entretanto, é aquele que traz vida eterna, em vez de libertação do sofrimento físico.

No século III, o bispo Cipriano afirmou que o sangue de Jesus tem benefícios farmacológicos, sendo “benéfico para a saúde” e superior aos benefícios do vinho comum. Os efeitos medicinais do vinho eram amplamente conhecidos na Antiguidade, sendo frequentemente uma bebida mais segura do que a água. Mas, aqui neste caso, temos cristãos professando algo mais no próprio vinho que representa o sangue de Jesus – mesmo que essa representação ainda seja principalmente espiritual.

“O sangue de Cristo é minha vacina”: cartaz usado por manifestante em Sydney destaca mensagem de grupos cristãos que confundem a salvação espiritual pela comunhão com cura física (Foto: Reprodução/TV – 27/07/2021)

Estudioso da Eucaristia, o professor Andrew McGowan, da Yale Divinity School, também alerta para esses mal entendidos. “A Eucaristia é sempre um sinal representado do amor e consideração pela comunidade demonstrado por Jesus, não um talismã para ganho ou benefício pessoal”, afirma. Neste sentido, a Eucaristia é como a vacina – ela existe para o bem de toda a comunidade, não de nós mesmos como indivíduos.

McGowan observa que há mais histórias dos primeiros cristãos indicando que tomar a Eucaristia erroneamente pode fazer mal a você do que sugerindo que a comunhão trará cura. Em várias fontes apócrifas pós-bíblicas, o pão e o vinho são compartilhados após um milagre de cura como um meio de agradecimento e confirmação da fé, mas não traz cura física.

Da mesma forma hoje, a comunhão é administrada regularmente aos enfermos ou moribundos. Ele serve como um lembrete da ação salvadora de Jesus para as pessoas de fé, não como uma pílula mágica ou poção de cura.

Na verdade, igrejas cristãs tradicionais costumam ungir os enfermos com óleo para cura ou fazer outras orações para a cura que não envolvem a comunhão. No entanto, pode-se ver como ideias supersticiosas se desenvolveram ligando a recuperação da doença ao corpo e sangue de Jesus. Fazer isso é combinar bem-estar espiritual e saúde física. Embora a saúde espiritual possa se correlacionar com outras formas de saúde (mental, física), não é a mesma coisa.

A grande maioria dos líderes religiosos está pedindo às pessoas que procurem ser vacinadas. Nenhum cristão sério ensina que tomar a comunhão irá proteger magicamente uma pessoa contra doenças.

No entanto, a linha entre tomar a Eucaristia (o sangue de Jesus) para a plenitude espiritual e tomá-la como uma poção mágica que protegerá fisicamente permanece tênue o suficiente para ser usada e abusada por pessoas irresponsáveis ​​que divulgam teorias da conspiração.

Fazer isso é explorar os mais vulneráveis, uma atividade muito anticristã sob o disfarce de religião.

* Robyn J. Whitaker é teóloga, historiadora e professora titular de Novo Testamento, no Pilgrim Theological College (Austrália)

The Conversation

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Um comentário em “‘Sangue de Jesus é minha vacina’: o mau uso da fé contra a ciência

  1. Celo disse:

    Nem a feh mais cega salva da insidiosa Covid pois o maximo que ela pode fazer eh trazer alguma resignaçao perante a raiva o medo e a dor mas serve de muito pouco consolo com a perda irrecuperavel duma vida preciosa.
    Quando se eh uma criança entao a coisa soh piora pois mesmo aqueles dotados de razao e ciencia acima de tudo nao conseguem evitar a dor da perda de um futuro cheio de esperanças que agora nao irah mais virar realidade.
    O truque nao tem nenhum misterrio ou segredo,
    Tenha feh na ciencia e esperança na humanidade.
    O resto eh tudo fabula inutil contra a implacavel realidade.

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