Indígenas em Manaus, uma tragédia invisível

A dor das perdas somou-se ao desprezo das autoridades, que obrigou povos originários a construírem suas próprias estruturas (precárias) de socorro

Por Samela Sateré Mawé | ODS 3 • Publicada em 15 de março de 2021 - 08:53 • Atualizada em 11 de junho de 2022 - 16:00

Mulheres Sateré Mawé costuram máscaras para doar e vender: mudança de ocupação em busca da sobrevivência. Foto divulgação

Mulheres Sateré Mawé costuram máscaras para doar e vender: mudança de ocupação em busca da sobrevivência. Foto divulgação

A dor das perdas somou-se ao desprezo das autoridades, que obrigou povos originários a construírem suas próprias estruturas (precárias) de socorro

Por Samela Sateré Mawé | ODS 3 • Publicada em 15 de março de 2021 - 08:53 • Atualizada em 11 de junho de 2022 - 16:00

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Na terra que maltrata os indígenas desde a invasão portuguesa (aprendemos que não foi descobrimento, né??), há mais de 500 anos, a covid-19 atingiu duramente esses povos originários. O cenário conjuga tristeza, perdas e abandono para etnias vítimas ainda de muito preconceito. Esquecidos pelos governantes, os indígenas amargaram muitas perdas e se viram amputados de vários rituais. E o futuro não se desenha melhor. Na reportagem especial “Pandemia, um ano – olhares indígenas femininos” a descrição de Samela Sateré Mawé, sobre a batalha dos indígenas pela sobrevivência na região de Manaus.

Clique e confira a série completa “Pandemia, um ano – olhares indígenas femininos”

No Brasil, os povos indígenas sentimos com grande dor e tristeza as consequências da covid-19. Muitos, de várias etrnias, perderam suas vidas, anciões indígenas morreram sem poder nem sequer ter um enterro digno de sua cultura. Segundo dados da Apib (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), desde o início da pandemia mais de 27 mil indígenas foram contaminados. O Amazonas foi o primeiro estado a ter a confirmação de contágio em povos originários, e hoje concentra o maior número de mortes. A Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), no estado já foram registrados 8.674 casos, atingindo 38 etnias.

[g1_quote author_name=”Vanda Witoto” author_description=”Técnica de enfermagem na Unidade de Apoio aos Povos Indígenas no Parque das Tribos” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]

Foi muito difícil no início do ano quando 56 parentes estavam com sintomas, e 32 deles testaram positivo. Por isso, nos mobilizamos para montar a unidade e conseguimos atender muitos parentes que ficaram internados

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O povo Sateré Mawé soma 12 óbitos. Originários da terra indígena Andirá Marau, no Baixo Rio Amazonas, temos nos mantido da agricultura, pesca, caça e venda de artesanatos, atividades que se tornam mais difíceis a cada diam por conta do fechamento das barreiras sanitárias e do comercio nos municípios próximos – Barreirinha, Maués e Parintins e Manaus.

Na capital, a Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé perdeu a principal fonte de renda, a venda do artesanato, no início da crise sanitária. Sem dinheiro para comprar alimentação na cidade e nenhuma informação ou assistência do governo, restou o desamparo. Segundo Sônia Sateré Mawé, coordenadora da associação, as famílias passaram aperto. “Naquele tempo não tinha dinheiro nem para comprar comida, muito menos máscara ou álcool gel”, relembra, contando que ela e o marido pegaram covid-19. “Sem atendimento médico, foi muito difícil”.

Uma iniciativa que ajudou foi a confecção de máscaras, incentivada pelos integrantes do grupo Artists Project Earth, do Reino Unido. Uma delas, May East, ajudou com a compra de artesanatos e material para produzir máscara. Mesmo sem nunca ter costurado, as mulheres da associação aprenderam o ofício e doaram os equipamentos de proteção para todos da comunidade e de outras aldeias em Manaus e no interior amazonense. Elas ainda conseguiram vender máscaras, garantindo fonte tímida de sustento.

Nós, indígenas que vivemos na cidade, não somos assistidos pela Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena), e durante o colapso nos hospitais de Manaus, muitos parentes acabaram morrendo e sendo enterrados em valas coletivas. Organizações e frentes de ajuda, como as campanhas Vidas Indígenas Importam e Respira Amazonas, criaram mutirão para tentar ajudar as pessoas que estavam morrendo sufocadas. No Parque das Tribos, bairro indígena de Manaus, lideranças como o cacique Miqueias Kokama e a técnica de enfermagem Vanda Witoto conseguiram, com ajuda de doações pedidas via redes sociais, apoio para montar uma pequena estrutura de saúde, a Unidade de Apoio aos Povos Indígenas, que atua no tratamento de pacientes com covid-19 em Manaus e aldeias nas redondezas.

“Foi muito difícil no início do ano quando 56 parentes estavam com sintomas, e 32 deles testaram positivo. Por isso, nos mobilizamos para montar a unidade e conseguimos atender muitos parentes que ficaram internados”, narra a profissional de saúde, contabilizando 300 atendimentos até o meio de março.

Uma artesã da Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé também precisou de atendimento de urgência e teve que ser internada na UAPI. O socorro funcionou e ela está em casa, curada. Mas o caso dela e muitos outros não serão contabilizados nos números da pandemia entre os povos originários por conta da política preconceituosa e excludente da Secretaria de Saúde Indígena.

Samela Sateré Mawé

Indígena do povo Sateré Mawé, estudante de Biologia na Universidade do Estado do Amazonas, ativista ambiental no @fridaysforfuturebrasil, jovem comunicadora na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) @apiboficial, e da ANMIGA- Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade @anmigaorg e apresentadora no @canalreload. Integra ainda a Associação de Mulheres Indígenas Sateré Mawé (Amism) @amism_sateremawe e o Movimento de Estudantes Indígenas do Amazonas (Meiam)

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