Escritórios que dão liga

Pessoas trabalhando no Nex, no Rio de Janeiro./ Foto de Eduardo Macarios

Coworkings crescem no país e atraem profissionais de diferentes áreas e idades

Por Ana Morett | ODS 17 • Publicada em 12 de agosto de 2016 - 09:28 • Atualizada em 15 de agosto de 2016 - 14:44

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Pessoas trabalhando no Nex, no Rio de Janeiro./ Foto de Eduardo Macarios
Pessoas trabalhando no Nex, no Rio de Janeiro./ Foto de Eduardo Macarios
Pessoas trabalhando no Nex, coworking paranaense que abriu unidade no Rio de Janeiro.

Em pleno sábado ensolarado no Rio, o produtor cultural Thiago Pilloni e a publicitária Mariana França, vindos de Salvador, se encontraram com cerca de 50 pessoas de diversas partes do país em uma vila na Glória. Ali havia também engenheiro, designer, ex-gerente de contas, estatístico, entre outros profissionais; jovens, de meia idade ou até mais experientes. Entre afinidades e diferenças, eles seguem o mesmo propósito, aquele sobre o qual fala o escritor Steven Johnson: o de que as boas ideias surgem das “colisões que ocorrem quando diferentes campos de conhecimento convergem num espaço físico ou intelectual compartilhado”. Todos no grupo são fundadores, sócios ou residentes de coworkings e se reuniram no fim de julho para debater os desafios de um movimento cada vez mais forte, que tem inclusive o seu “dia mundial” celebrado em 9 de agosto: o Coworking Day. Durante toda essa semana, unidades no Brasil e em diversos países organizam uma programação especial para relembrar a data em que o primeiro espaço de coworking foi aberto no mundo, em 2005, por Brad Neuberg, em São Francisco, nos Estados Unidos.

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Há um crescimento e uma jornada de aprendizagem desse modelo no Brasil. Tem muita gente entrando, tem aqueles com a pegada mais business, as grandes corporações começando a dialogar com os coworkings para buscar cultura de inovação, os coworkings de nicho, além de outros vários formatos.

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Mas, espera! Co, co… o que? Apesar de o conceito ganhar cada vez mais adeptos no Brasil, muitas pessoas ainda desconhecem o significado dessa palavra, que caracteriza um modelo de trabalho que incentiva o desenvolvimento de negócios e a conexão entre as pessoas em um espaço compartilhado e inspirador. De forma geral, o cliente pode alugar mesas, salas ou até mesmo espaços para reuniões, fazendo uso de aparatos como impressora, internet, etc. Com ambientes desenvolvidos para estimular a troca de experiências, nos últimos anos os coworkings deixaram de ser apenas uma alternativa economicamente viável para quem estava começando o próprio negócio e precisava sair do home office, por exemplo, para se aproximar cada vez mais de um papel de centro de inovação. Hoje, oferecem também cursos, workshops e eventos variados.

A ideia, em síntese, é: conectar, colaborar, inspirar e – por que não? – empreender. Afinal, não é mais novidade ouvir dizer que o “emprego” como é conhecido hoje está com os dias contados. A previsão de especialistas é que as inovações tecnológicas e a mobilidade digital continuem gerando radicais mudanças no mercado de trabalho nos próximos anos. Segundo levantamentos do World Economic Forum, capacidade de resolução de problemas complexos, pensamento crítico, inteligência emocional, criatividade e flexibilidade cognitiva estão entre as habilidades que serão cada vez mais demandadas no futuro. E é nessa lógica que os coworkings se inserem. “Há um crescimento e uma jornada de aprendizagem desse modelo no Brasil. Tem muita gente entrando, tem aqueles com a pegada mais business, as grandes corporações começando a dialogar com os coworkings para buscar cultura de inovação, os coworkings de nicho, além de outros vários formatos”, comenta André Pegorer, que há cinco anos fundou o Nex em Curitiba e recentemente abriu com os sócios uma unidade no Rio, com planos de expansão para São Paulo até o próximo ano. “Acho que é um caminho sem volta, porque não se limita a um tipo de negócio, é um novo comportamento”, complementa Guto de Lima, também sócio do Nex, citando projetos cariocas como a Goma e Bhering entre importantes fontes de troca e inspiração.

Tropos, no Rio Vermelho, em Salvador, é voltado para as áreas cultural e criativa

Segundo o Censo Coworking 2016, realizado pelo Coworking Brasil em parceria com a Movebla e com o Ekonomio, o país tem hoje 378 espaços ativos e mais de dez mil postos de trabalho, o que representa os crescimentos de 52% e 54%, respectivamente, em relação ao ano anterior. São Paulo concentra o maior número de coworkings (148), seguido por Minas Gerais (37) e Rio de Janeiro (35). A Bahia, de Thiago e Mariana, por exemplo, aparece na pesquisa com apenas 7 espaços. Por falar na capital paulista, é lá que está o Cubo, iniciativa criada em 2015 pelo Itaú-Unibanco em parceria com a Redpoint e Ventures para funcionar como um grande centro de empreendedorismo tecnológico. Já no Rio, foi inaugurada no início deste mês a Malha, voltada para o ecossistema de uma moda sustentável e colaborativa.

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Um gênio solitário não passa de um mito

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Enquanto Nex, Templo, Malha, Cubo, entre outros, ocupam espaçosas áreas no Sudeste, a dupla de sócios baianos está no time dos que entraram há pouco tempo no ramo e ainda buscam o retorno financeiro do investimento. Funcionando há cerca de dez meses no bairro do Rio Vermelho, uma área boêmia de Salvador, o Tropos foi aberto com o objetivo de ter somente áreas colaborativas e atingir um público da área cultural e criativa. “Estamos fechando as contas no azul, mas é preciso saber dançar entre as duas coisas: essa nova lógica de trabalho e o próprio negócio”, explica Pilloni, que se viu obrigado a mudar o plano inicial e passar oferecer também o aluguel de salas privativas. Em um bate papo com André Santana, fundador do ClubJob em João Pessoa há dois anos e meio, Thiago concorda que a viabilidade econômica é um grande desafio, principalmente em uma região em que o conceito de coworking é pouco difundido. “Na Paraíba é preciso apostar em todos os públicos para manter a rentabilidade, por isso até a decoração do ambiente é bem básica”, informa Santana, que antes de empreender trabalhava em uma operadora de telecomunicações.

ClubJob Coworking, de João Pessoa

Entre os donos de corworkings, boa parte desistiu de um emprego ou faz dupla jornada para apostar na economia colaborativa. O objetivo? Se aproximar da lógica de comunidade, crescer na diversidade e encontrar nesse novo propósito geração de renda e qualidade de vida, como conta o engenheiro civil Marcus Rocha, de Natal, que deixou a rotina como professor universitário para se dedicar ao próprio negócio. “Busco um estilo de vida que me permita viver de forma sustentável”, resume.

Ainda de acordo com o censo do setor, as principais áreas de atuação das pessoas que ocupam os espaços são: consultoria (65%), publicidade/design (50%), marketing, internet, startups (45%), advocacia (38%), entre outras. Leonardo Renales, por exemplo, é designer com foco em branded content e, há dois meses, fez uma permuta com o Canatec, em Piracicaba e, em troca do desenvolvimento de uma marca, teve direito a um período de mensalidades grátis. “Com o passar do tempo, trabalhar em casa fica um pouco estressante”, explica. Já a publicitária mineira Fabiana Bessa participou por quatro meses do programa Estaleiro Liberdade, denominado pelo site do Templo como uma escola de empreendedorismo que promove a autonomia através do autoconhecimento. “Acho que o mais bacana foi a rede que formei”, ela avalia.  Fabiana, Rocha, Leonardo, André e seus colegas demonstram satisfação com o movimento de empresas e até instituições de ensino que começam a compreender que, como já dizia Johnson, “um gênio solitário não passa de um mito”.

Ana Morett

Ana Carolina Morett é jornalista, formada pela PUC-Rio, com MBA em Marketing Digital pela FGV. Com passagens pela Rede Globo e jornal O Globo, onde cobriu de política e futebol a vida de artistas, há cinco anos trabalha com conteúdo de marca. Acredita na força da internet para potencializar boas causas e histórias. Para ela, redes sociais não são só bla, bla, bla.

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