Transição energética ganha força com conflito no Oriente Médio

Às vésperas da primeira Conferência sobre a Transição para longe dos Combustíveis Fósseis, fica mais evidente que dependência do petróleo gera mais insegurança do que segurança energética

Por Liana Melo | ODS 13
Publicada em 13 de março de 2026 - 09:33  -  Atualizada em 13 de março de 2026 - 09:52
Tempo de leitura: 9 min

Manifestação pelo fim dos combustíveis fósseis na COP30: urgência da transição energética ganha força com guerra no Oriente Médio (Foto: Zô Guimarães /UN Climate Change – 17/11/2025)

Faltando pouco mais de um mês para o início da primeira Conferência sobre a Transição para Longe dos Combustíveis Fósseis, 2,6 mil organizações internacionais já estão inscritas no encontro, que vai ocorrer na cidade mais antiga da Colômbia, Santa Marta. Convocada pelo governo colombiano juntamente com a Holanda, a reunião vai ocorrer nos dias 28 e 29 de abril num cenário de natureza exuberante, onde a Sierra Nevada, a montanha costeira considerada a mais alta do mundo, encontra o mar do Caribe.

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O anúncio da realização da conferência foi feito em novembro do ano passado durante a COP30, em Belém – um momento em que ninguém imaginava que, em poucos meses e às vésperas do encontro na Colômbia, o assunto passaria a ser ainda mais crucial. A explosão do conflito no Oriente Médio, detonado pelo ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, expôs a enorme dependência do mundo pelo petróleo e como os fósseis (petróleo, carvão e gás natural) têm capacidade de gerar mais insegurança do que segurança energética.

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Guerras drenam a energia, energia essa que deveríamos estar gastando com a construção de mapas do caminho para longe dos fósseis, com uma transição ordenada, justa e equitativa”, avalia a CEO da COP30 Ana Toni, que vai participar do encontro na Colômbia, mas antecipou que o Brasil não apresentará nenhuma sugestão em Santa Marta. “Vamos lá para ouvir”, comentou.

Os combustíveis fósseis costumam ser a razão principal das guerras. A transição para longe dos combustíveis fósseis reduz à exposição ao risco energético

Stela Herschmann
Especialista em Política Climática do Observatório do Clima

Algumas sugestões podem, inclusive, serem incorporadas ao mapa do caminho para longe dos fósseis que o governo brasileiro anunciou em fevereiro último, numa chamada internacional – na oportunidade, lançou um chamamento para dois mapas do caminho, um para transição energética e outro para o fim do desmatamento. O mapa do caminho para longe dos fósseis brasileiro envolve ministérios: Meio Ambiente, Fazenda, Casa Civil e Minas e Energia.

Os organizadores do evento em Santa Marta não anunciaram quantos países já confirmaram presença. Foram convidados um total de 97 países e governos subnacionais. A conferência será aberta pelo presidente Gustavo Petro e vai ocorrer em meio a um processo eleitoral, dado que a Colômbia terá eleições presidenciais em maio próximo. Ainda não está confirmado se o premier da Holanda, Rob Jetten, estará presente no encontro.

Ainda segundo os organizadores, das 2,6 mil organizações inscritas, 41% delas são latino-americanas e caribenhas, e representam ONGs (48,5%), povos indígenas, comunidades afrodescendentes e camponeses (26%), movimentos sociais (12%), acadêmicos (7%), setor privado (4,2%) e representações sindicais (3,8%). A conferência terá também encontros acadêmicos.

O afastamento dos combustíveis fósseis veio à tona em 2023 durante a COP28, em Dubai. Desde então, países árabes, Rússia e Índia tentam, a todo custo, esvaziar o debate. O assunto vinha sendo ignorado até que o tema veio à tona na COP30, em Belém. Em seu discurso, o presidente Lula defendeu a superação da dependência dos combustíveis fósseis; em seguida, a Colômbia anunciou a cúpula de Santa Marta e, por fim, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, disse que o Brasil, informalmente, criaria mapas do caminho para longe dos fósseis e pelo desmatamento zero.

A ciência já comprovou que o enfrentamento ao aquecimento global depende da redução da produção e do consumo dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás natural), responsáveis por 75% das emissões globais de gases de efeito estufa.

Ainda que o tema tenha ganhado relevância na COP30, por pouco o encontro a ONU não se transformou num problema diplomática. A COP30 estava chegando ao fim quando a Colômbia anunciou que não assinaria o texto final da Conferência do Clima caso a menção aos combustíveis fósseis não fosse incluída no documento.

Logo que tomou posse, o presidente Petro iniciou uma cruzada contra os combustíveis fóssseis. Em 2022, anunciou que o país iniciar um processo de transição para uma economia descarbonizada, reduzindo a dependência de petróleo e carvão. O mercado financeiro e o setor energético reagiram e, na ocasião, começaram a pipocar notícias críticas à decisão e o risco de desestabilizar a economia colombiana.

Ato pela transição para longe dos fósseis na COP30: países começam a discutir mapas do caminho (Foto: Kiara Worth / UN Climate Change – 12/11/2025)

Transição energética: do discurso à prática

Na segunda semana de março (10/03), o estudo internacional “Avançando na Transição para longe dos combustíveis fósseis” mostrou que 46 países têm algum tipo de mapa do caminho para longo dos combustíveis fósseis. Outros 11, incluindo Brasil, Colômbia, Noruega e Reino Unido, começaram a pesquisar como implementar a transição energética. O estudo é assinado por quatro think-tanks: Observatório do Clima (OC), IISD do Canadá, E3G do Reino Unido, Ecco da Itália e Sefia da Turquia – país que vai sediar a COP31, no fim deste ano.

Cinco critérios são apresentados para construir uma transição justa e equitativa: estar em acordo com a Ciência do clima, analisar tanto a produção quanto o consumo, promover uma transição sem deixar ninguém para trás, ou seja, não ignorar os trabalhadores dos setores afetados, projetos que tenham transversalidade e, por fim, que tenha financiamento internacional e sistemas de monitoramento. “O interessante nesse estudo é que é a primeira publicação que se propõe a dizer o que mapas do caminho para longe dos fósseis precisa ter”, diagnostica Stela Herschmann, especialista em Política Climática do OC e uma das autoras do documento.

Como estão previstos encontros acadêmicos na conferência na Colômbia, o estudo será apresentado em Santa Marta. Experiências práticas foram incluídas no levantamento, especialmente projetos de parceria de transição energética justa em países como África do Sul, Indonésia, Vietnã e Senegal, e iniciativas de eliminação gradual do carvão que estão sendo implementadas na Alemanha, Chile, Canadá e Dinamarca. Além de discussões iniciais sobre mapas do caminho que estão sendo desenvolvidos no Brasil, Colômbia e Turquia. “O fim dos combustíveis fósseis não pode ser um tabu”, defende Herschmann.

Ela acrescenta que é fundamental aproveitar todas as oportunidades para debater o tema. Se havia alguma tentativa de alguns países em empurrar o assunto para debaixo do tapete, o conflito no Oriente Médio escancarou a necessidade de encarar o assunto de frente. “Os combustíveis fósseis costumam ser a razão principal das guerras”, analisa a especialista do OC, destacando que “a transição para longe dos combustíveis fósseis reduz à exposição ao risco energético”. Ou seja: “a transição energética é condição para um mundo mais seguro e estável”, desde que não se reproduza “uma lógica extrativista e que se faça um processo de transição justo e equitativo.”

 

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Liana Melo

Formada em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Especializada em Economia e Meio Ambiente, trabalhou nos jornais “Folha de S.Paulo”, “O Globo”, “Jornal do Brasil”, “O Dia” e na revista “IstoÉ”. Ganhou o 5º Prêmio Imprensa Embratel com a série de reportagens “Máfia dos fiscais”, publicada pela “IstoÉ”. Tem MBA em Responsabilidade Social e Terceiro Setor pela Faculdade de Economia da UFRJ. Foi editora do “Blog Verde”, sobre notícias ambientais no jornal “O Globo”, e da revista “Amanhã”, no mesmo jornal – uma publicação semanal sobre sustentabilidade. Atualmente é repórter e editora do Projeto #Colabora.

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