
Terminada mais uma Conferência do Clima (COP-23), desta vez em Bonn, na Alemanha, e passados quase cinquenta anos desde que o mundo começou a discutir o assunto, ficamos com três certezas. A primeira é de que tirando o folclórico e irresponsável Donald Trump e alguns poucos mal-intencionados, não há mais dúvidas de que o planeta está aquecendo. A segunda, igualmente lamentável, diz respeito aos avanços em busca de uma solução, todos muito tímidos. Fora o crescimento insuficiente de energias limpas como a eólica, a solar e a biomassa, quase nada aconteceu. Por fim, a triste constatação de que os mais pobres, países e pessoas, é que vão pagar a fatura. Afinal de contas, como diria o filósofo Renato Gaúcho: “O mundo é dos espertos”.
[g1_quote author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”solid” template=”01″]Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, até o final do século, as mudanças climáticas vão provocar perdas de até 10% no Produto Interno Bruto (PIB) dos países mais pobres. Entre as nações afetadas aparece o Brasil, com o seu desmatamento crescente e a sua agropecuária improdutiva.
[/g1_quote]Um recente relatório do insuspeito Fundo Monetário Internacional (FMI) mostra que, até o final do século, as mudanças climáticas vão provocar perdas de até 10% no Produto Interno Bruto (PIB) dos países mais pobres. Entre as nações afetadas aparece o Brasil, com o seu desmatamento ainda alto e uma agropecuária improdutiva. O problema é que as projeções do FMI se baseiam em cenários conservadores, com aumentos médios de temperatura da ordem de um grau centígrado, quando, na verdade, os mais otimistas já falam em 3ºC. Logo, os danos serão muito maiores. Passamos os últimos 200 anos consumindo combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás) como se fosse água. Os gases de efeito estufa gerados por eles estão acumulados na atmosfera, retendo radiação solar. E ficarão lá, no mínimo, por mais cem anos, mesmo que a humanidade faça bem o seu dever de casa, o que está longe de acontecer.
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Veja o que já enviamosSendo assim, não nos resta muita coisa além de acompanhar os efeitos das mudanças climáticas e torcer para que o número de vítimas seja o menor possível. O estudo do FMI estima que 60% da população mundial vivam em países nos quais o aquecimento se dará de forma mais intensa, como Haiti, Gabão e Bangladesh. Sem contar as já infelizmente famosas nações insulares, como Kiribati e Tuvalu, que tendem a desaparecer. As consequências das mudanças climáticas nessas regiões vão desde a redução na produção agrícola até o crescimento das epidemias, passando por redução de investimentos, fome, aumento dos conflitos, secas, enchentes e pressão migratória. Essa é uma previsão para o futuro? Não. Basta olhar as secas na África, as tempestades na Ásia e os furacões no Caribe para saber que é real e que está acontecendo hoje.
Ok. Isso é tudo muito triste, mas é tudo muito longe também. Não vai afetar o Brasil, essa terra abençoada por Deus. Certo? Errado. Nos últimos anos, o Nordeste brasileiro registrou algumas das secas mais severas da história, as enchentes no Sul, os ciclones em Santa Catarina e as ressacas no litoral paulista também fazem parte desse enredo. E por falar em enredo, vem aí o verão, o Carnaval, as chuvas intensas e as tragédias. O Brasil tem dois milhões de pessoas vivendo em áreas de altíssimo risco. Uma pesquisa do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) prevê que a elevação do nível do mar provocada pelo aquecimento global pode levar ao desaparecimento de áreas como a Ilha de Marajó, na região Norte, e a Favela da Maré, no Rio de Janeiro.
O historiador Edson Diniz, da ONG Redes Maré, lembra que a comunidade fica a pouco mais de um metro acima do nível do mar e que qualquer alteração pode realmente afetar muito a vida da comunidade. Segundo Diniz, hoje, além dos problemas com segurança, saúde e educação, a comunidade já sofre com as chamadas “ilhas de calor urbano”, que fazem a temperatura das casas, em algumas épocas do ano, superar a marca dos 50ºC.
Edson foi um dos participantes do debate “Clima e Desigualdade”, promovido pelo Projeto #Colabora. Juntamente com o professor Emílio La Rovere, da Coppe, ele discutiu saídas para minimizar os efeitos das mudanças climáticas em comunidades como a Maré. Ambos concordaram que um dos primeiros passos é deixar a população bem informada sobre os riscos que correm e sobre a importância de incluir o tema na pauta das próximas eleições. O aquecimento global não é uma questão menor e nem um problema distante. Ele faz parte da nossa vida e está tornando o mundo ainda mais desigual.