ODS 1
Marengo: mudanças climáticas intensificam ciclones e tempestades no Brasil
Coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden, cientista explica que aquecimento global altera distribuição e a intensidade das chuvas no Sul e Sudeste
Em menos de uma semana, dois ciclones extratropicais se formaram na costa brasileira, na altura dos litorais do Sul e do Sudeste. Esses sistemas intensificaram as chuvas em estados dessas regiões, como São Paulo, Rio de Janeiro e Santa Catarina. A semana começou com seis estados sob alerta o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) por conta deste segundo ciclone que pode levar a grandes acumulados de chuva até esta 4ª feira (4/2).
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Coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), o meteorologista e climatologista José Marengo explica, nesta entrevista ao ClimaInfo, que a formação desses fenômenos meteorológicos são comuns nesta época do ano. Entretanto, as mudanças climáticas, causadas principalmente pela queima de petróleo, gás fóssil e carvão, estão aumentando tanto a frequência como a intensidade de ciclones e também das tradicionais chuvas de verão.
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Veja o que já enviamosComo a ciência tem interpretado o aumento das chuvas extremas no Brasil durante o verão, especialmente no Sul e Sudeste?
Marengo – Já existe uma tendência observada há décadas de aumento das chuvas na região Sul. Na verdade, em toda a Bacia do Prata, que engloba o Sul e o Sudeste do Brasil, o norte da Argentina e o Uruguai, vemos um aumento no volume total de chuvas, e, dentro desse total, um crescimento claro dos eventos extremos.
Como a estação chuvosa no Sudeste ocorre no verão, esse aumento aparece com mais força nesse período. No Sul, porém, a intensificação das chuvas já é percebida também nas estações intermediárias.
Esse padrão está associado ao aumento da temperatura global. O aquecimento altera o ciclo hidrológico e, com isso, modifica a distribuição e a intensidade das chuvas.
Em algumas áreas onde já chovia, agora chove mais e com maior intensidade. Em outras, onde chovia regularmente, a chuva deixou de ocorrer. Há ainda regiões em que as precipitações se concentram em poucos dias. Estamos observando áreas em que chove uma hora o equivalente ao esperado para todo o mês, como aconteceu em Goiás em dezembro de 2025.
Esses extremos mais frequentes aumentam diretamente a ocorrência de desastres climáticos, como enxurradas, deslizamentos e inundações.
Eventos como estes ciclones extratropicais ou tempestades severas associadas a frentes frias têm relação com a mudança do clima?
Marengo – Ciclones são centros de baixa pressão e sempre ocorreram no [Oceano] Atlântico. Quando um centro de baixa pressão se intensifica, pode dar origem a um furacão ou a ciclones tropicais, como os que ocorrem na Índia e na Austrália. Na nossa região, algumas tempestades severas estão, de fato, associadas a ciclones; em outros casos, a frentes frias ou ao aporte de umidade da Amazônia pelos chamados “rios voadores”. As chuvas de maio de 2024, por exemplo, resultaram da combinação entre frentes frias e forte transporte de umidade amazônica.
Outros episódios de chuva intensa e rajadas de vento também têm relação com ciclones. São fenômenos naturais que sempre ocorreram, assim como as frentes frias e tempestades.
Mas o que se observa agora é um aumento na frequência de chuvas extremas, o que pode indicar maior frequência de sistemas frontais, especialmente frentes frias vindas do Sul que avançam no verão. E os ciclones muito intensos, como os chamados “ciclones-bomba”, parecem estar ficando mais fortes.
A existência de ciclones subtropicais ou tempestades não é, por si só, sinal das mudanças climáticas: eles sempre ocorreram. O que pode ser associado à crise climática é a intensificação desses sistemas e a possível maior frequência de tempestades severas.
O que a comunidade científica considera hoje como consenso sobre o papel das mudanças climáticas na alteração dos padrões de chuva, tempestades e extremos meteorológicos no Brasil?


Marengo – Já existe um consenso sólido na comunidade científica de que as mudanças climáticas estão tornando os eventos extremos mais intensos e mais frequentes, tanto no regime de chuvas quanto nas tempestades. Isso inclui tempestades associadas a frentes frias, ciclones, tempestades tropicais e furacões.
Quando falamos de extremos meteorológicos, estamos nos referindo a chuvas intensas capazes de causar desastres. A chuva em si não é o desastre: ela aciona processos que resultam em mortes e danos, como inundações, enxurradas e deslizamentos.
Outro extremo climático de grande relevância são as ondas de calor, que estão aumentando gradualmente no Sul e em todo o Brasil. Ondas de calor associadas à seca podem ampliar o risco de incêndios na Amazônia, no Centro-Oeste e no Sudeste, além de agravar crises hídricas e impactar diretamente a saúde da população.
Há vasta literatura científica sobre esses temas, com destaque para os relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Estudos recentes também analisaram episódios específicos, como as chuvas de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, que já renderam diversas publicações nacionais e internacionais sobre extremos e desastres associados.
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Um ponto adicional importante é o aumento da frequência das ondas de calor no Brasil e no mundo. Elas são consideradas um “assassino silencioso”: enquanto um deslizamento pode matar dezenas ou centenas de pessoas de uma só vez, uma onda de calor pode causar milhares de mortes de forma difusa, por agravar problemas de saúde existentes.
Por sua vez, as ondas de frio têm se tornado menos frequentes, mas quando ocorrem podem ser muito intensas e também causar mortes [como ocorreu há alguns dias nos Estados Unidos]. Contudo, globalmente, as ondas de calor são responsáveis pelo maior número de vítimas entre todos os extremos climáticos.
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O Instituto ClimaInfo, organização sem fins lucrativos, tem o objetivo de oferecer um ambiente livre de especulações e fake news sobre mudanças climáticas para contribuir com um debate produtivo, baseado em fatos e dados reais, sobre ações e políticas para a mitigação e a adaptação às consequentes mudanças climáticas globais









































