Indústria do vinho sofre com agravamento da crise climática

Vinhas enfrentam calor e seca no sul da França: agravamento da crise climática afeta produção de vinho (Foto: Ophelie Auziere / Hans Lucas / AFP – 05/09/2021)

Produtores mudam localização das lavouras de uva para fugir do calor; produção de vinho da França deve cair 30% este ano

Por José Eduardo Mendonça | ODS 12ODS 13 • Publicada em 7 de março de 2022 - 08:15 • Atualizada em 16 de março de 2022 - 08:09

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Vinhas enfrentam calor e seca no sul da França: agravamento da crise climática afeta produção de vinho (Foto: Ophelie Auziere / Hans Lucas / AFP – 05/09/2021)

A tradição da cultura da uva para a fabricação de vinho em algumas regiões do mundo, que existe há séculos, está com um sério problema. Os frutos são cada vez mais atingidos pela pela mudança do clima, levando o cultivo a novos limites de regiões de plantio e de plantações híbridas. E isso chega ao sabor que sentimos quando o vinho é bebido.

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A mudança do clima força as vinhas a lidar com as resultados de temperaturas e calor extremo, deixando-as vulneráveis em face a uma crise ambiental. Regiões do mundo conhecidas por sua variedade de vinhos têm tido dificuldade em cultivar suas próprias uvas – quando conseguem.

O processo de amadurecimento acelera com as temperaturas em alta. Donos de vinhas precisam vigiar melhor como as uvas se comportam na estação e eventos extremos imprevisíveis e enchentes são um impacto. Olhar à frente é complicado. Sem projeções mais afinadas, as colheitas não irão sobreviver.

Diferente de outras frutas, como maçãs e laranjas, as uvas têm cascas delicadas que podem se romper facilmente se forem colhidas muito tarde. Uvas estão entre as mais sensíveis colheitas à mudança do tempo. Mas há países que estão bem, como a Inglaterra, onde falar de produção de vinho vinte anos atrás era um sonho.

A produção de vinho na França deverá cair quase 30% este ano. Se você olhar para um mapa das regiões clássicas de vinho no mundo vai notar que todas têm algo em comum: a latitude: em paralelos de 50 graus. Isto não é uma coincidência. As vinhas Vitis vinifera, espécie responsável por mais da metade da produção de vinhos populares, precisa de condições de crescimento muito específico. Se forem exposta a muito calor ou frio, as vinhas param de produzir frutos.

Os efeitos da mudança do clima estão forçando os produtores destas regiões vinícolas a tomarem medidas como mudar a localização de suas lavouras. Estão se mudando mais ao sul no Hemisfério Sul e mais ao norte no Hemisfério Norte. Em maiores elevações, as uvas se beneficiam da luz do sol, que encoraja o crescimento e a concentração, enquanto as noites frescas preservam acidez, para que os vinhos tenham gosto fresco e seus níveis de álcool controlados.

Plantadores em áreas quentes também podem colher seus frutos com antecipação, porque os níveis de açúcar sobem e a acidez cai a um grau indesejável, para conseguir um efeito comparável.

Pesquisadores descobriram que calor extremo, durante o crescimento, pode reduzir áreas que no momento de vinicultura para o plantio irá cair 19%.

Planejar para as regiões de crescimento ano a ano tem sido quase impossível para muitas vinhas. Em Finger Lakes, no estado de Nova York, houve a temporada mais seca em 2016 e a mais úmida em 2018 – dois extremos com apenas um ano pelo meio. A maior preocupação foi com as temperaturas de inverno.

Paul Brocks, da vinícola Silver Threads, diz que “não se pode preparar para tudo. Cada vez que temos um destes extremos, o atravessamos e guardamos isto como referência.”

O verão de 2020 foi duro para a proprietária da Hope Well Winter, Mimi Casteel. Incêndios se espalharam pelo Oregon, estado no oeste dos EUA, onde está sua vinícola. “O fogo não estava próximo demais mas era muito severo, e queimou o tempo suficiente para ficarmos na fumaça espessa por mais de uma semana. Na época ela estava vendendo 80% das frutas que plantava mas o fogo causou a absorção de fumaça, afetando a qualidade vinho que produzem. Ela perdeu todos os grandes clientes. Casteel não tinha seguro para cobrir estas perdas, que ela estimou em 300 mil dólares.

A área total queimada durante a estação incêndio foi o maior da história registrada no Oregon. As projeções é que as temperaturas continuarão a subir e os incêndios ficarão maiores. Está acontecendo em todo lugar.

José Eduardo Mendonça

Jornalista com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de S. Paulo. Criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de reportagens sobre energia limpa. Nos últimos anos vem se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade.

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