Futuro impresso em celulose: “Projeto Natureza” ameaça indígenas no sul

Empreendimento da multinacional CMPC prevê investimento de R$25 bilhões em fábrica de celulose. Indígenas do povo Guarani denunciam falta de consulta

Por Micael Olegário | ODS 15
Publicada em 20 de fevereiro de 2026 - 09:25  -  Atualizada em 20 de fevereiro de 2026 - 09:35
Tempo de leitura: 10 min

Fábrica de celulose da CMPC em Guaíba (RS); empresa é uma das principais produtoras de celulose no país (Foto: Fabiano Panizzi/Divulgação/CMPC)

Indígenas do povo Mbya Guarani estão na linha de frente da disputa pelo presente e futuro da bacia hidrográfica do Guaíba. Lideranças têm denunciado os riscos socioambientais do chamado “Projeto Natureza”, uma iniciativa da multinacional chilena CMPC (Companhia Manufatureira de Papéis e Cartões, na tradução do espanhol). A proposta é construir uma fábrica de celulose em uma área do município de Barra do Ribeiro (RS).

Apesar do nome, a iniciativa não tem nenhuma ligação com preservação do meio ambiente ou dos biomas que existem no território gaúcho: o Pampa e a Mata Atlântica. A proposta é transformar a Fazenda Barba Negra, usada para o plantio de eucalipto, em uma fábrica capaz de produzir até 3 milhões de toneladas de celulose branca por ano.

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O projeto, avaliado em torno de R$25 bilhões, entusiasma o governo estadual e lideranças políticas de Barra do Ribeiro. Para além do discurso de desenvolvimento e progresso, um principais impactos do empreendimento é o despejo de 242 milhões de litros de efluentes por dia no Guaíba, um volume superior ao esgoto doméstico de mais de 1,2 milhão de pessoas

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“A empresa está com pressa e nos apressando para aceitarmos (indenização) e deixar livre para que faça seu programa”, denuncia Arnildo Werá Moreira, coordenador estadual da Comissão Guarani Yvyrupa (CGY) e uma das lideranças da Tekoá Pindó Mirim. A aldeia fica distante cerca de 12 km da área em que seria instalada a fábrica.

Em audiência pública realizada no final de janeiro, a CMPC apresentou os detalhes do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) realizado na região. Na ocasião, políticos locais e representantes de sindicatos da indústria celebraram o projeto. O entusiasmo tem a ver, principalmente, com a promessa de 12 mil empregos temporários durante as obras e 2,3 mil vagas na fase de operação.

Inicialmente, a Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luis Roessler (Fepam) – responsável pelo processo de licenciamento ambiental – descartou pedidos de novas audiências. Porém, segundo apuração da Matinal Jornalismo, após a criação de um abaixo assinado e o pedido de 17 entidades socioambientais, o órgão admitiu a possibilidade de novas reuniões.

Empresa apresentou dados sobre estudo de impacto ambiental e áreas afetadas direta e indiretamente em audiência pública (Foto: Alass Derivas | @derivajornalismo)

O que diz o projeto e o impacto ambiental

A Fazenda Barba Negra fica a 15 quilômetros do centro de Barra do Ribeiro e a 60 quilômetros de Porto Alegre. Além da fábrica, o projeto prevê a construção de um terminal portuário e a dragagem do Guaíba e a construção de um canal de navegação para o transporte da celulose.

A previsão é de que o empreendimento utilize 11,8 milhões de toneladas de madeira de eucalipto por ano. Estudo feito por pesquisadores da Unochapecó mostra que as plantações de eucaliptos nas margens de rios e riachos afetam a qualidade da água para abastecimento e lazer humano, consumo animal, irrigação de culturas agrícolas e pesca.

A silvicultura, junto com as lavouras de soja, é uma das principais atividades responsáveis pela degradação do bioma Pampa. Isso ocorre pela alta demanda de água das plantações de eucalipto e pinus. As árvores também reduzem a oferta de luz e impedem o desenvolvimento da vegetação rasteira, característica majoritária do Pampa.

O Estudo de Impacto Ambiental (EIA) da CMPC indica que a fábrica irá demandar 12 mil metros cúbicos de água por hora, sendo que, cerca de 80% desse total deve retornar ao Guaíba. Em relação a esse retorno, a empresa afirma que irá instalar uma estação de tratamento da água de “alta eficiência”.

O despejo desses efluentes é uma das principais preocupações de ambientalistas, inclusive, pela proximidade com uma das estações do Departamento Municipal de Água e Esgotos de Porto Alegre (DMAE), de onde saí parte da água que abastece a capital gaúcha.

Também foram identificadas 310 espécies de flora na área de impacto do empreendimento, inclusive, alguns butiazeiros, espécie de palmeira nativa ameaçada de extinção no RS. Do ponto de vista da fauna, foram mapeadas 321 espécies, entre animais terrestres, aves, répteis, anfíbios e peixes. Nessa lista estão cinco mamíferos ameaçados de extinção: gato-do- mato-grande, gato-maracajá, tamanduá-mirim, bugio-ruivo e cutia.

Falta de consulta

Antes de qualquer início de processo formal de consulta, representantes da CMPC visitaram comunidades indígenas da região. “Já anunciando promessas de melhorias nas condições das moradias e a oferta de outros benefícios”, conta Roberto Liebgott, missionário da Regional Sul do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

Em agosto de 2025, o Cimi acionou o Ministério Público Federal (MPF) para cobrar a consulta livre, prévia e informada às comunidades guaranis, conforme estabelece a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Depois disso, novos encontros aconteceram em novembro.

Roberto descreve que em uma reunião da empresa com lideranças indígenas, já em dezembro, surgiu a proposta de um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), por meio do qual a empresa se comprometeria com a criação de um fundo financeiro de R$50 milhões para apoio e suporte às comunidades do povo guarani do Rio Grande do Sul.

Arnildo, da Tekoá Pindó Mirim, enfatiza desconforto com o modo como o processo foi conduzido, o que levou à comunidade a abandonar as negociações com a empresa. “Não adianta você chegar e negociar uma vida que não é só sua, mas também das futuras crianças que virão”, aponta ele.

Roberto, do Cimi, confirma o relato sobre a pressão para uma decisão acelerada e sem respeitar os protocolos de consulta dos guarani. “Os procedimentos legais exigidos pela Convenção nº 169 da OIT não foram devidamente observados pela empresa, o que gerou profunda indignação e irritação entre as lideranças Guarani das demais comunidades do estado”.

Arnildo Werá Moreira durante encontro de lideranças guaranis com o MPF: indígenas pedem que protocolos de consulta sejam respeitados (Foto: Alass Derivas | @derivajornalismo)

O histórico da CMPC

A CMPC possui 54 plantas em 12 países, atuando principalmente na produção de celulose, papel tissue e embalagens sustentáveis. Desde 2009, a empresa atua no Rio Grande do Sul e conta com outra fábrica no município de Guaíba (RS).  Em fevereiro de 2025, um vazamento na unidade afetou moradores do entorno, causando problemas como dor de cabeça e ardência nos olhos.

Em todo o território gaúcho, a CMPC afirma plantar eucalipto em 1,2 mil fazendas de mais de 75 municípios, o que representa mais de 270 mil hectares de terra. A empresa também tem ampliado sua presença no estado por outros meios, como a criação de cursos técnicos voltados à indústria de celulose e o patrocínio do campeonato gaúcho de futebol.

No Chile, a CMPC e outras empresas do ramo são apontadas como responsáveis por conflitos territoriais e por ameaçar o bem-viver do Povo Mapuche, maior etnia indígena do país. Arnildo Werá Moreira teme que problemas semelhantes ocorram em Barra do Ribeiro, município que conta com seis comunidades guaranis, com um total de 90 famílias.

O indígena ressalta também que não se trata de ser contra ou a favor do empreendimento, mas de conscientizar as pessoas. Arnildo recorda das enchentes e menciona o impacto das mudanças climáticas não só no RS, mas em diferentes lugares do Brasil, como fruto da degradação humana em busca de capital.

“Os mais velhos já estão desde antes falando: ‘se prepare que vai faltar água’. Nem eu acreditava, mas agora estou vendo”, alerta Arnildo. Além das enchentes de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou secas severas em 2021, 2022, 2023 e 2025. Além da mudança nos padrões climáticos globais, parte do problema está ligado com a degradação do Pampa e da Mata Atlântica no território gaúcho.

A reportagem entrou em contato com a assessoria de imprensa da CMPC com questionamentos acerca do impacto ambiental e das denúncias de falta de consulta aos guaranis. Até o momento da publicação, não havíamos recebido resposta.

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Micael Olegário

Jornalista formado pela Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Gaúcho de Caibaté, no interior do Rio Grande do Sul. Mestrando em Comunicação na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM). Escreve sobre temas ligados a questões socioambientais, educação e acessibilidade.

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