Campanha da Fraternidade: ‘Moradia se impõe como uma urgência ética, social e espiritual”

Ação anual da Igreja Católica reflete sobre a grave crise habitacional no Brasil onde 6,4 milhões de famílias não tem moradia digna

Por Oscar Valporto | ODS 1ODS 10
Publicada em 18 de fevereiro de 2026 - 12:22  -  Atualizada em 18 de fevereiro de 2026 - 13:37
Tempo de leitura: 8 min

Pessoas em situação de rua em São Paulo: Campanha da Fraternidade destaca grave crise habitacional no Brasil onde 6,4 milhões de famílias não tem moradia digna (Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil – 10/04/2023)

A Campanha da Fraternidade 2026 foi aberta oficialmente nesta Quarta-feira de Cinzas, 18, em cerimônia na sede da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) em Brasília. O tema deste ano é “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jó 1,14).  “Deus não permaneceu distante. Ele entrou na história. Ele fez da humanidade a sua casa. E é precisamente por isso que a questão da moradia se impõe como uma urgência ética, social e espiritual”, afirmou dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da CNBB, que novamente presidiu a cerimônia.

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Dom Ricardo destacou que o Brasil enfrenta uma grave crise habitacional que afeta 6,4 milhões de famílias. E afirmou que não se tratam apenas de números, mas de rostos, de vidas marcadas pela insegurança, pela precariedade e exclusão. “Nossa conversão começa com a consciência de que isso não é natural. Não podemos naturalizar que alguém viva sem teto e aceitar que crianças cresçam em áreas de risco. Não podemos considerar inevitável que a desigualdade determine quem tem direito a morar com dignidade. A moradia não é privilégio”, disse o secretário-geral da CNBB, na abertura da Campanha da Fraternidade 2026.

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Numa tradição mantida desde 1970, o Papa enviou uma mensagem para a Campanha da Fraternidade, que foi lida pelo secretário-executivo de Campanhas da CNBB, padre Jean Poul Hansen, no início da cerimônia. Leão XIV destacou, no documento, o papel das Campanhas da Fraternidade da Igreja Católica do Brasil. “Com o intuito de animar o povo fiel em cada itinerário quaresmal, há mais de sessenta anos que a Igreja no Brasil realiza a Campanha da Fraternidade, momento em que, como comunidade de fé, dirige a sua ação pastoral e caritativa aos pobres, os verdadeiros destinatários do nosso amor preferencial”.

O Papa Leão XIV destacou ainda a importância de transformar as ações em conscientização permanente para a grave questão habitacional. “É meu desejo que a reflexão sobre a dura realidade da falta de moradia digna, que afeta tantos irmãos nossos, leve não somente a ações isoladas – sem dúvida, necessárias – que venham de modo emergencial em seu auxílio, mas gere em todos a consciência de que a partilha dos dons que o Senhor generosamente nos concede não pode restringir-se a um período do ano, a uma campanha ou a algumas ações pontuais”, escreveu o Pontíficie.

Na cerimônia na sede da CNBB, dom Ricardo Hoepers afirmou ainda que a Campanha da Fratenidade não desvia o sentido quaresmal, mas explicita suas exigências. E enfatizou que a Doutrina Social da Igreja recorda que a destinação universal dos bens e a função social da propriedade tem um sentido. “Isso significa que a economia deve servir a vida, que o mercado não pode se sobrepor à dignidade humana. E as políticas públicas habitacionais não são concessões, mas deveres do Estado”, destacou o secretário-geral da CNBB, também bispo-auxiliar de Brasília.

Dom Ricardo enfatizou que essa grave crise habitacional deve mobilizar a sociedade como um todo. “Primeiro as autoridades públicas, nos âmbitos municipal, estadual e federal, que a moradia digna seja prioridade nas agendas e nos orçamentos”, destacou. “A Campanha da Fraternidade 2026 quer suscitar diálogo, mobilização e compromisso. Fortalecer iniciativas já existentes, inspirar políticas públicas eficazes, incentivar parcerias responsáveis e despertar consciência”, acrescentou na cerimônia, transmitida pela Rede Vida e pelas redes sociais da CNBB.

Cartaz da Campanha da Fraternidade 2026: tema deste ano é “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Foto: Reprodução)

Ações para a Campanha da Fraternidade 2026

Padre Jean Poul pediu cinco ações dos católicos para a Campanha da Fraternidade. A primeira é assumir e realizar a campanha em todas as comunidades. “Esperamos da igreja no Brasil este compromisso”, disse o secretário de Campanhas da CNBB. “O mais importante é nós nos mantermos unidos, caminhando juntos”, acrescentou.

O religioso pediu como segunda ação a oração. “Que não deixemos passar um só dia em que não lembremos de rezar por estes irmãos que padecem”, afirmou, lembrando que a terceira ação é o jejum. “Todos nós podemos fazer alguma coisa. Nosso jejum, se ele não se converter em bem do próximo, ele será só economia e dieta”, disse padre Jean.

A quarta ação, adicionou, é a esmola: no Domingo de Ramos, dia 29 de março, acontecerá a tradicional Coleta Nacional da Solidariedade. “Sejamos generosos. Convertamos o nosso jejum numa esmola que pode fazer a diferença”. O secretário de Campanhas explicou que essa coleta forma dois fundos: O Fundo Diocesano (60% do valor) e o Fundo Nacional de Solidariedade – FNS (40%).

A quinta ação é a sócio-política. “Se você quer fazer caridade a uma pessoa, dê a ela uma esmola. Se você quer fazer caridade a uma nação, faça política. Nós devemos também fazer ações sócio-políticas em todos os âmbitos de governo e da sociedade”, indicou o sacerdote.

Durante a cerimônia, também foi apresentada a experiência da comunidade católica de Trindade em Salvador (BA) de conquista da moradia digna para pessoas em situação de rua. O responsável pela iniciativa local, Henrique Peregrino, destacou os avanços obtidos. “Não é apenas oferecer muros e teto, mas é oferecer o aconchego de um lar, um sentir-se em casa, em família; de poder continuar a acompanhar a saúde, ajudar a pessoa a administrar seus recursos, estar presente na geração de renda, ajudar a pessoa a se encontrar”, afirmou na cerimônia.

A programação da Campanha da Fraternidade segue no Santuário Nacional de Aparecida (SP), neste sábado (21/02), quando será realizada a bênção de instalação da escultura “Cristo Sem Teto”, obra do artista canadense Timothy Schmalz, que retrata Jesus identificado com as pessoas em situação de rua, com a intenção de fazer um apelo à solidariedade e ao compromisso concreto com os mais vulneráveis.

A celebração será conduzida pelo presidente da CNBB, cardeal Jaime Spengler; pelo arcebispo de Aparecida, dom Orlando Brandes, pelo padre Jean Poul, secretário-executivo de Campanhas da CNBB, e pelo padre Leandro Megeto, subsecretário-geral da CNBB. Na manhã de domingo (22/02), será rezada a missa de abertura no Santuário Nacional de Aparecida (SP). O presidente da CNBB, o cardeal Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre, presidirá a celebração.

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Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

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