ODS 1
Futebol entra em campo contra a crise climática

Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco são parte de campanha que alerta para a urgência de ações para o enfrentamento das mudanças do clima

Charlie Gomes acredita que “se o futebol não existisse, o mundo seria bem triste, sem cor”. Já Natane Vicente diz que sua vida sem o futebol “não teria sentido”. “Jogar futebol quando criança me deu uma nova perspectiva de futuro”, complementa Marcello Lopes. A fala desses torcedores entrevistados pela reportagem reflete a dificuldade em pensar como seria o mundo e o cotidiano dos brasileiros se não houvesse futebol — seja para torcer vendo jogos da TV ou nas arquibancadas. Mas há elementos mais nocivos ao futebol do que os rivais do time preferido: os desastres climáticos.
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Para o botafoguense Charlie Gomes da Silva, de 25 anos, “toda ação fora do estádio ecoa dentro do campo. Se a gente não cuidar da Terra, vamos acabar com um bem que é tão comum e belo entre a gente, que é o futebol. Todos os esportes são bons e não posso dizer que um é melhor que o outro. Mas, realmente, existe algo mágico no futebol que une todos os credos, raças, religiões, tem uma adesão muito maior e as pessoas até fazem coisas fora de si”.
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Veja o que já enviamosApesar de hoje ter essa visão, ele nunca relacionara a crise climática com a possibilidade de não poder mais acompanhar o futebol, até conhecer a iniciativa Terra Futebol Clube — uma campanha que convida torcedores, jogadores, clubes, governos e toda a comunidade do futebol para ações contra as mudanças climáticas e a destruição da natureza, na preparação para a COP30. A organização é conduzida por uma coalizão entre os times Botafogo, Flamengo, Fluminense e Vasco, além de grupos comunitários, sociedade civil e organizações de jovens no Brasil e globalmente.
Quando a gente fala de sustentabilidade, a maioria das pessoas não entende. A ideia é aproveitar que o futebol mundialmente tem cerca de três bilhões de torcedores, e se você fala do esporte em geral, as pessoas param para escutar. O objetivo é mostrar que o maior adversário não são os times rivais, mas sim as mudanças climáticas, a desigualdade, a pobreza
A campanha realizou as primeiras ações com os times em 2024 e, para o Campeonato Brasileiro 2025, desenvolve estratégias em busca de expandir a iniciativa junto de clubes de outros estados. “A meta é nacionalizar e globalizar o Terra FC. Queremos passar mensagens mais específicas atreladas à Conferência das Partes em grandes momentos do futebol. E por que não realizar partidas especiais com os clubes? Pretendemos aproveitar a aproximação da COP 30 para chamar a atenção de quem ainda não está conectado com a pauta”, conta um dos diretores da organização, Marcos Botelho.
As ações da campanha em 2024 alcançaram novos públicos – Charlie Gomes foi um deles. Seu primeiro contato com a iniciativa foi a partir do Onda Solidária, uma ONG que desenvolve trabalhos nas áreas de educação, esporte e meio ambiente, voltados para crianças e adolescentes de comunidades de baixa renda. “Visitei a sede do projeto, o Ecocentro Social Vila dos Sonhos, em Minas Gerais, e tive contato com jovens que participam do Terra. Fui convidado para fazer uma ação em campo com esses jovens no Maracanã”, conta.

Foi no dia 17 de outubro do último ano, em clássico Flamengo contra Fluminense (que terminou em 2×0 para o time tricolor no Campeonato Brasileiro), que um grupo de jovens usando máscaras respiratórias e uniforme do Terra FC pisaram no gramado do Maracanã no intervalo da partida. Eles seguravam um banner que dizia “no combate ao aquecimento global, somos um só time”. “O Fla x Flu é um clássico do futebol carioca, e tivemos um grande número de espectadores acompanhando a partida ao vivo, seja presencialmente ou via streamings. Essa recepção dos times reforça o apoio deles à campanha e nos deixa muito felizes em poder engajar tanta gente na luta contra as mudanças climáticas”, destaca Ricardo Calçado, diretor do Terra Futebol Clube.
A ação também se repetiu em 5 de novembro de 2024, quando o Botafogo venceu de 3×0 o Vasco da Gama no mesmo campeonato. Além de entrarem em campo novamente, desta vez no Nilton Santos, os voluntários da campanha realizaram ações para atrair os torcedores ao redor do estádio, com quiz de sustentabilidade e entrega de brindes. Charlie Gomes acompanhou tudo de perto e explica que os torcedores se engajaram na campanha. “Fiz a entrega de ecobags e de um papel semente (papel ecológico que pode ser plantado), com informações sobre o Terra FC. Expliquei para as torcidas qual era o papel da campanha e a beleza por trás disso tudo, que era um só futebol, independente de qual era o seu time. Antes mesmo de abordar o público na rua, as pessoas já chegavam para perguntar do que se tratava”, conta.
Outra iniciativa do Terra Futebol Clube são os “Gols pela Terra”, um jogo onde os participantes — jogadores e torcedores dos clubes — podem realizar ações sustentáveis para marcar pontos para seu time, como ir a pé, de bicicleta ou de transporte público aos jogos; assistir às partidas em restaurantes ou bares com amigos e reciclar seus cartazes e copos após os jogos. Para serem contabilizadas, as ações devem ser compartilhadas em vídeo ou foto no Instagram, com a hashtag #golspelaterra, e outra com o nome do clube. A primeira edição do jogo foi encerrada no último ano, e o clube com a maior pontuação ao final do período foi o Flamengo, ganhador da Copa Terra, premiação que aconteceu no III Fórum da Juventude, no Rio de Janeiro.
Tenho um projeto social com crianças onde moro e vou fazer ações de reciclagem com a administração do condomínio para contribuir de alguma forma com o futuro do planeta. Preciso fazer a minha parte e também proteger o esporte, porque a minha vida sem o futebol não teria sentido
Ricardo Calçado explica que a estratégia de toda a campanha é a “simplicidade” da mensagem. “Quando a gente fala de sustentabilidade, a maioria das pessoas não entende. A ideia é aproveitar que o futebol mundialmente tem cerca de três bilhões de torcedores, e se você fala do esporte em geral, as pessoas param para escutar. O objetivo é mostrar que o maior adversário não são os times rivais, mas sim as mudanças climáticas, a desigualdade, a pobreza”, afirma. Marcos Botelho complementa: “o Terra FC vem desse potencial que vemos no Brasil para a sustentabilidade, para termos comunidades mais sustentáveis, e também pela paixão do futebol que é diferente de qualquer lugar do mundo. Esse sentimento é muito forte e se revela um grande mecanismo para conscientizar as pessoas e mudar comportamentos”.
Longe dos estádios, a iniciativa também se expande para ONGs, escolas e institutos socioeducativos relacionados ao futebol, como a Fundação Gol de Letra e o Instituto Social Karanba — ambos têm atuação com foco no incentivo ao esporte e a educação para crianças e adolescentes de comunidades socialmente vulneráveis. Os “Jogos pela Terra”, em parceria com essas instituições, consistem em atividades lúdicas que unem o esporte à conscientização sobre sustentabilidade, focando em saúde e bem-estar, cuidado com o espaço e consumo consciente. Balanço de 2024 divulgado na última semana nas redes sociais da organização aponta que a iniciativa teve a participação de 48 escolas e 50 ONGs, e foram realizados mais de 11 mil “gols pela Terra” — ou seja, ações de educação ambiental.
Marcello Lopes, 25 anos, professor na Fundação Gol de Letra, explica que a campanha para conscientização sobre a crise climática para os jovens foi bem aceita. “Um relato que me marcou foi de alguns jovens que se comprometeram, se organizaram coletivamente mesmo sem pedirmos nada. Com os aprendizados sobre reciclagem, gravaram vídeos e nos mostraram que estavam fazendo coletas na rua em que moram. O aprendizado das atividades foi para além dos nossos portões”.
O futebol é a paixão e o trabalho de Marcello, e por isso acredita em ações que protegem o esporte. “Se não existisse o futebol, minha vida não teria alegria, cor, brilho. Talvez não estivesse na carreira que optei seguir, porque o futebol direcionou tudo. Jogar futebol quando criança me deu uma nova perspectiva de futuro”, conta o professor e torcedor do Vasco.
Para Natane Vicente, 36 anos, treinadora do Instituto Social Karanba, o sentimento é parecido. “Os alunos foram muito receptivos com as propostas, amaram aprender sobre sustentabilidade. Iniciativas como essa tem um impacto muito positivo inclusive para nós, professores”, conta sobre as ações da campanha. Além disso, ela destaca que aprender sobre sustentabilidade vai além das atividades entre alunos e professores: “Tenho um projeto social com crianças onde moro e vou fazer ações de reciclagem com a administração do condomínio para contribuir de alguma forma com o futuro do planeta. Preciso fazer a minha parte e também proteger o esporte, porque a minha vida sem o futebol não teria sentido, sou apaixonada pela modalidade e tudo o que sou vem do futebol”, conta a professora e torcedora do Flamengo.

Futebol vulnerável a eventos climáticos extremos
Em 2024, um evento extremo demonstrou ao país como a crise climática pode ser adversária do futebol. Devido às fortes chuvas e enchentes no Rio Grande do Sul, entre abril e maio do último ano, os estádios dos times Grêmio e Internacional foram duramente atingidos pela água e jogos foram adiados, e tiveram danos em infraestrutura, aumento de custos com logísticas e diminuição no rendimento esportivo. Em imagens que circularam na época, é possível ver que a água tomou conta da Arena do Grêmio e do Estádio Beira-Rio, ambos em Porto Alegre.
As enchentes no sul foram mencionadas no relatório “O maior adversário do futebol: impacto das mudanças climáticas no futebol brasileiro”, das organizações Terra FC e ERM Brasil. O estudo também cita a impossibilidade de realizar partidas no período: “em menos de um mês, cerca de 88 partidas foram adiadas pelo Brasil, afetando campeonatos internacionais, como a Libertadores e SulAmericana, além de nove campeonatos da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), masculino e feminino, como a Copa do Brasil e o Campeonato Brasileiro”.
Para além da região Sul, os clubes de futebol enfrentam riscos devido à localização de seus estádios e centros de treinamento em cidades vulneráveis a eventos climáticos extremos. O relatório aponta que 85% dos clubes da Série A enfrentam alto risco de impactos climáticos severos; 45% enfrentam alto risco de inundações e 55% enfrentam alto risco de queimadas. Além disso, afirma que “todos os 20 clubes sediam suas partidas como mandantes em cidades com ao menos um tipo de risco a nível médio”.
Diante desse cenário, a necessidade de adaptação e resiliência se torna ainda mais urgente, destaca o relatório. “Estamos na prorrogação da partida de nossas vidas contra nosso maior rival: a mudança climática. Estamos perdendo, mas ainda há tempo para uma virada histórica. O futebol tem o poder de unir e mobilizar as pessoas, tornando-se uma plataforma vital para a ação climática. Juntos, podemos garantir um futuro sustentável para o esporte que amamos e para o planeta”, aponta o documento.
Os impactos da crise climática não são apenas estruturais ou financeiros: atletas e técnicos também enfrentam desafios diretos em campo. O técnico Mano Menezes, ex-seleção brasileira e até recentemente treinador do Fluminense, e o lateral Renê Rodrigues, jogador do tricolor carioca, chegaram a compartilhar com integrante do Terra como tem sido jogar futebol com as condições climáticas cada vez mais severas. “Está a cada dia mais difícil jogar às 16h da tarde e às 11h da manhã já era impossível. O calor está, sim, influenciando o futebol”, afirmou Renê, em entrevista compartilhada nas redes sociais da campanha. O técnico comentou que “nós do futebol somos um exemplo do quanto é sofrido trabalhar em condições tão adversas como temos vivenciado hoje; temos que mostrar para as pessoas estarem cada vez mais conscientes de como temos que cuidar do clima, porque envolve tudo na nossa vida”.
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Ana Carolina Ferreira
Estudante de jornalismo na Universidade Federal Fluminense (UFF). Gonçalense, ou papa-goiaba, apaixonada pelas possibilidades de se contar histórias na área da comunicação. Foi estagiária na Assessoria de Comunicação do Ministério Público Federal e da UFF. Amante da sétima arte e crítica amadora do universo geek.