Choveu uma semana inteira no Rio de Janeiro – e, por quase três dias sem parar, chuva forte de assustar carioca no verão. Em outros tempos, um temporal há menos de um mês do Carnaval virava pauta obrigatória para a mídia especializada na folia, pois inundações e alagamentos nos barracões, com impacto na confecção de fantasias e alegorias, eram um dos maiores pesadelos das escolas de samba e de seus carnavalescos, principais responsáveis pela superprodução que são os desfiles na Marquês de Sapucaí. Até a construção da Cidade do Samba.
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No dia 4 de fevereiro, a estrutura criada para abrigar as verdadeiras fábricas das 12 escolas do Grupo Especial do Rio – no bairro histórico da Gamboa, na Zona Portuária – completa 20 anos da sua inauguração. Apesar da cerimônia ter acontecido às vésperas do Carnaval de 2006, integrantes das escolas já ocupavam seus novos barracões na Cidade do Samba desde setembro de 2005 preparando alegorias, fantasias e outras produções para o desfile. A obra – a mais importante da última das três gestões do prefeito César Maia – custou, na época, pouco mais de R$ 100 milhões.
A construção da Cidade do Samba tinha, entre seus objetivos, amenizar os efeitos desse indissolúvel encontro carioca: verão, chuva e carnaval. Essa sazonalidade foi se tornando um problema para as escolas de samba ao longo das décadas, conforme o desfile se profissionalizava e se sofisticava. No meio do século passado, os barracões para a confecção de fantasias, adereços e elementos alegóricos eram exatamente o que o nome indicava: barracos grandes, dentro das comunidades, onde integrantes se reuniam para preparar as produções para o desfile.
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Veja o que já enviamosNa década de 1970, a grande maioria das escolas – principalmente, as maiores e mais tradicionais do Carnaval – já ocupavam espaços cedidos por órgãos públicos ou mesmo empresas particulares para preparar seus carros alegóricos e outros elementos do desfile. Continuaram sendo chamados de barracões pelos sambistas: além de terem o mesmo papel, esses galpões ou depósitos tinham estruturas precárias. Não foram poucos os acidentes de trabalho. Tornaram-se recorrentes os incêndios, grandes e pequenos, num espaço onde se misturavam maçaricos para a confecção de carros alegóricos e muitos materiais inflamáveis: papel, espuma, plástico. E também as inundações e os alagamentos – chuvas de verão e as enchentes fazem parte do caos do Rio 40 graus.
(Abro um parêntesis para voltar 40 anos no tempo para os desfiles das escolas de samba de 1986. A Beija-Flor tinha acabado de entrar na Passarela do Samba, inaugurada apenas dois anos antes, no fim da noite de segunda-feira quando desabou o temporal. Foi um aguaceiro histórico – como histórico foi o desfile da escola, ainda iluminada pela genialidade do carnavalesco Joãozinho Trinta, com um enredo sobre o futebol (‘O Mundo é uma Bola’). Os integrantes da Beija-Flor deram um show de harmonia e evolução debaixo d’água apesar da chuva ter afetado alegorias e fantasias. Eu mesmo nunca tinha apanhado tanta chuva por tanto tempo: 90 minutos de temporal, com este então repórter procurando fotógrafo para registrar problemas na Passarela inundada – muitas máquinas fotográficas, molhadas, pifaram. Dois dias depois, o mesmo repórter estava a caminho de Nilópolis para acompanhar a apuração na quadra do Beija-Flor. Não cheguei. O temporal alagou a Avenida Brasil, parou o trânsito. Fiz, com água acima da cintura, entrevistas com motoristas igualmente presos pela enchente. Fecha parêntesis).
Foi para acabar com o transtorno causado pelas chuvas, dar mais segurança aos trabalhadores das escolas e facilitar o deslocamento dos carros alegóricos para a Passarela que a Cidade do Samba foi criada e construída a apenas cinco quilômetros da Marquês de Sapucaí – com os barracões espalhados pelo Rio, os deslocamentos das alegorias eram fonte sazonal de transtornos no trânsito. A Cidade do Samba – desde 2011, batizada oficialmente de Cidade do Samba Joãozinho Trinta – ocupa uma área de 72 mil metros quadrados; na obra, foram consumidos 15 mil metros cúbicos de concreto armado e 4.200 toneladas de aço nas estruturas metálicas. São 12 espaços, ainda chamados de barracões, para as escolas montarem seus carros alegóricos e confeccionarem adereços e fantasias e adereços e outros dois ocupados pela Liesa (a Liga Independente das Escolas de Samba), que tem a concessão para administrar o espaço por 30 anos.
Perto do Carnaval, podem chegar a mais de três mil o número de pessoas trabalhando na Cidade do Samba por dia: marceneiros, carpinteiros, ferreiros, costureiras, desenhistas, pedreiros, seguranças. Cada barracão tem espaços também para ateliês de costura – embora muitas escolas ainda costurem fantasias em outros lugares – e estúdios de desenho, além de salas administrativas. A Liesa também promove eventos como shows e exibições das próprias escolas. Em comemoração ao Dia Nacional do Samba, em 2025, mais de 30 mil pessoas estiveram no lugar para assistir minidesfiles das escolas e shows de sambistas como Zeca Pagodinho e Martinho da Vila.
Durante o ano, é possível transitar pela Cidade do Samba – a área é pública – mas há pouco para ver: os barracões ficam fechados a curiosos de todos os tipos porque as escolas guardam em segredo suas surpresas e temem espionagem. Há um bar e uma lojinha sem maiores atrativos. Mas é possível fazer visitas guiadas, com preços variados e salgados, que são voltadas, principalmente, para turistas.
Não estão previstas até agora grandes comemorações para os 20 anos da Cidade do Samba: estaremos a 10 dias do Carnaval e as escolas de samba estão com 100% de sua atenção voltada para os desfiles na Marquês de Sapucaí. Mas seria a celebração de um sucesso: faz parte do sonho de todas as escolas da Série Ouro – o grupo de acesso ao especial – não apenas desfilar entre as grandes, mas ter o conforto e a segurança de trabalhar por um ano na Cidade do Samba; essas agremiações seguem com barracões espalhados pela cidade, com estruturas quase sempre precárias e aquela ameaça de inundações que abriu essa crônica.
Mas isso também vai mudar: em mais um sinal de sucesso da Cidade do Samba, a Prefeitura do Rio está construindo, no terreno da antiga Estação da Leopoldina, a Fábrica do Samba Rosa Magalhães (homenagem a carnavalesca morta em 2025) para abrigar os barracões das 14 escolas da Série Ouro. É mais conforto e segurança para as centenas de trabalhadores, dessa indústria dos desfiles de escolas de samba que movimenta a economia carioca o ano inteiro, muito além do Carnaval.
