COP26: África já sofre com as consequências da crise climática

Manifestantes participam da Global Climate Strike, na Cidade do Cabo: eles protestam contra as causas da mudanças climáticas, de um modo geral, e contra os impactos no continente africano (Foto: Rodger Bosch / AFP. Setembro/2021)

Projeções do IPCC mostram que o continente está esquentando mais rapidamente do que outras partes do mundo

Por Vinicius Assis | ODS 13 • Publicada em 3 de novembro de 2021 - 08:26 • Atualizada em 8 de novembro de 2021 - 18:27

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Manifestantes participam da Global Climate Strike, na Cidade do Cabo: eles protestam contra as causas da mudanças climáticas, de um modo geral, e contra os impactos no continente africano (Foto: Rodger Bosch / AFP. Setembro/2021)

Os países responsáveis pelas maiores emissões de carbono do planeta não estão na África, mas o continente mais pobre do mundo e o segundo mais populoso do planeta vem sendo diretamente, e intensamente, afetado pelas ações de países ricos, como os Estados Unidos, a China, a Alemanha, e o Brasil.

Dados do último relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado em agosto, revelam que o norte e o sul da África já estão com uma temperatura máxima anual, em média, 4°C acima dos registrados historicamente. Segundo o IPCC, o continente vem esquentando mais rapidamente do que outras partes do mundo.

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Para o fundador e presidente do Instituto Brasil África (Ibraf), o brasileiro João Bosco Monte, a África precisa, urgentemente, estar no centro das discussões climáticas, não só na COP26, a conferência da Organização das Nações Unidas sobre mudanças climáticas, mas em todos os debates globais. Segundo João Monte, o continente africano necessita ser entendido como uma expectativa futura de respostas positivas e os países ricos precisam ter um caráter solidário.

“Não podemos mais ter uma divisão, onde os países menos desenvolvidos, com menos capacidade de apresentar respostas para si mesmos, sofrem, enquanto os países ricos não se apresentam como possíveis ofertantes de respostas reais”, afirma.

Enquanto o Sudão do Sul, um dos 54 países africanos, enfrenta as piores enchentes em 60 anos e regiões do continente vêm sofrendo com chuvas e ciclones, a seca também é um grande problema para as lavouras em diversas outras nações. A temperatura mínima anual em algumas partes do noroeste africano está projetada para aumentar mais de 2ºC, ainda de acordo com os levantamentos do IPCC.

Às vésperas da COP26, o Banco Mundial divulgou uma nota informando que, diante do cenário atual, as mudanças climáticas forçarão até 38,5 milhões de pessoas do leste africano a abandonarem, até 2050, as regiões onde vivem. Um dado importante é que essa diáspora climática aconteceria mesmo que os projetos para se reduzir o impacto na região sejam implementados.

Entre os mais afetados estão agricultores atingidos pela seca, que migrarão para encontrar novas terras aráveis e água potável. Ou que abandonarão as áreas rurais em busca de emprego em centros urbanos. Para piorar, tem a infestação de gafanhotos de proporções históricas que começou há dois anos e ainda causa estragos no leste africano, que depende fortemente da agricultura.

Gafanhotos atacam uma plantação de milho no Quênia: a praga, de proporções históricas, começou há dois anos e ainda afeta a agricultura do leste da África (Foto: Yasuyoshi Chiba / AFP. Fevereiro/2021)

No oeste do continente, Quênia, Ruanda, Tanzânia, Uganda e Burundi têm enfrentado cada vez mais eventos climáticos nos últimos anos. Especialistas e ativistas acreditam que a COP26 seja um bom momento para o presidente da República Democrática do Congo, Félix Tshisekedi, que atualmente também preside a União Africana, chamar a atenção global para o continente. Mas, por outro lado, da África também podem sair sugestões de soluções que só precisam de foco e recursos para tentar reduzir os impactos da crise climática.

O Marrocos, por exemplo, é líder na produção de painéis de energia solar. O aproveitamento da energia geotérmica no Quênia é outra iniciativa notável para reduzir as emissões do país em 32% até 2030. Moçambique foi a primeira nação a receber recursos (US$ 4,6 milhões) do Banco Mundial para reduzir as emissões de carbono. Sem falar que ao se discutir produção de celulares, notebooks e até carros elétricos é fundamental levar em conta que a República Democrática do Congo é um dos principais produtores mundiais de coltan, mineral fundamental na produção de baterias utilizadas na maioria dos aparelhos eletrônicos portáteis.

A ideia do Instituto Brasil África, com sede em Fortaleza, é mostrar boas ideias de jovens do Brasil e da África para resolver problemas globais. As questões relacionadas ao clima enfrentadas pelo planeta, como desmatamento e seca, são temas tão amplos que não podem ser resolvidas em um só dia, mas o otimismo toma conta dos participantes com os debates e as oportunidades que podem surgir em Glasgow na busca de soluções.

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Não podemos mais ter uma divisão, onde os países menos desenvolvidos, com menos capacidade de apresentar respostas para si mesmos, sofrem, enquanto os países ricos não se apresentam como possíveis ofertantes de respostas reais

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A divisão da OMS para o continente africano usou o Twitter para alertar que as mudanças climáticas também representam um problema de saúde, pois 13 milhões de pessoas morrem a cada ano devido a fatores ambientais e que esta é a maior ameaça à saúde que a humanidade enfrenta, ressaltando que os países mais pobres são e serão os mais atingidos. Diante desses efeitos, em locais mais vulneráveis do continente africano aumenta preocupantemente o risco de surtos de doenças transmitidas por vetores, como malária, dengue, chikungunya e zika.

Além da agenda ambiental, o presidente do Ibraf, João Bosco Monte, lamenta que nos últimos anos o Brasil venha se distanciando de países africanos. “Enquanto o Brasil parou de dialogar com a África, de fazer provocações, parcerias com o continente africano, outros países ocuparam o nosso espaço”, alertou. Ele destaca ainda o avanço de países como China e França sobre o continente africano e lembra que o mercado daquela região não pode ser desprezado. “Estamos falando de 1,4 bilhões de pessoas, que têm necessidades como as de quaisquer outras regiões do planeta e que têm uma capacidade de produção de bens e serviços muito grande”, ressalta.

Nos dias 23 e 24 de novembro acontece ainda a 9ª edição do Fórum Brasil África. E pelo segundo ano o evento será virtual. Entre os participantes já confirmados estão o ex-presidente de Gana John A. Kufuor, o presidente do Afreximbank, Benedict Oramah, o ex-vice-presidente e diretor-executivo do Banco Mundial Otaviano Canuto, além de CEOs de grandes empresas.

João Bosco Monte, que fala o tempo todo com entusiasmo sobre o continente africano, mas sendo sempre realista diante dos desafios, segue incansável na missão de reaproximar as agendas dessas duas partes do planeta. Ele finaliza dizendo que “a miopia sobre a África precisa ser eliminada”.

Vinicius Assis

É jornalista desde 2004. Atualmente é correspondente na África para a GloboNews e outros meios brasileiros. Coordenou o projeto de Jornalismo independente "E aí, vereador?", apoiado pela Associação Brasileira de Imprensa. Em 2014 foi um dos palestrantes do Congresso Internacional de Jornalismo Investigativo, em São Paulo, quando falou sobre investigações em câmaras municipais.

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