Calor vai matar 10 vezes mais nos países pobres do que nos ricos

Criança bebe água durante onda de calor no Paquistão: 90% das mortes causadas por altas temperaturas serão em países pobres, indica pesquisa (Foto: Unicef - 09/10/2024)

Pesquisa aponta que, em 2050, 90% das mortes causadas pelo aumento das temperaturas devem ocorrer em países de baixa e média renda

Por Oscar Valporto | ODS 13ODS 3
Publicada em 9 de abril de 2026 - 10:06  -  Atualizada em 9 de abril de 2026 - 10:11
Tempo de leitura: 9 min

Criança bebe água durante onda de calor no Paquistão: 90% das mortes causadas por altas temperaturas serão em países pobres, indica pesquisa (Foto: Unicef - 09/10/2024)
Criança bebe água durante onda de calor no Paquistão: 90% das mortes causadas por altas temperaturas serão em países pobres, indica pesquisa (Foto: Unicef – 09/10/2024)

Qualquer temporal no Brasil serve como exemplo de injustiça climática com as tragédias sempre se repetindo entre os mais pobres, ilustrando a histórica desigualdade. Nova pesquisa mostra que, menos visíveis, os impactos do calor extremo também serão muito desiguais. De acordo com recente relatório publicado pelo Laboratório de Impacto Climático (Climate Impact Lab), 90% das mortes causadas pelo aumento das temperaturas devem ocorrer em países de baixa e média renda — com o número de mortes em países pobres sendo 10 vezes maior a cada ano do que em países ricos até 2050.

Leu essa? Mudanças climáticas intensificam ciclones e tempestades no Brasil

O calor extremo pode agravar problemas de saúde preexistentes e ser fatal. “Não se trata apenas de que esses lugares estejam mais quentes, mas também da renda. Grande parte do que estamos constatando é o papel fundamental do desenvolvimento econômico e do acesso a recursos para nos protegermos, fatores que tornam esses efeitos muito maiores nas regiões mais pobres do mundo”, explicou afirma Tamma Carleton, professora da Universidade da Califórnia e chefe de pesquisa do Laboratório de Impacto Climático, uma rede global de pesquisadores que mede os custos reais das mudanças climáticas, na apresentação do relatório.

Este relatório revela uma das ironias mais cruéis das mudanças climáticas: prevê-se que elas matem milhões de pessoas nos países que, em geral, menos contribuíram para causá-las

Michael Greenstone
cofundador do Laboratório de Impacto Climático e diretor do Instituto para o Clima e Crescimento Sustentável e do Instituto de Política Energética da Universidade de Chicago

Os pesquisadores reuniram dados locais, em níveis de bairros e municípios, sobre mortalidade em todo o mundo, bem como dados sobre temperaturas extremas, e criaram um modelo estatístico para analisar os efeitos de eventos climáticos nas taxas de mortalidade nos últimos 20 a 40 anos. Em seguida, combinaram esse modelo com cenários climáticos futuros para estimar como será o risco de morte relacionado ao calor no futuro. “Estamos descobrindo é que o impacto é extremamente desigual”, adicionou Carleton, economista, com mestrado em Mudanças Climáticas e Gestão.

Os cientistas já constataram há muito tempo que as mudanças climáticas terão impactos desproporcionais nos países mais pobres. Com este estudo, eles esperam mostrar especificamente quais países provavelmente sofrerão o maior impacto e quais medidas de adaptação podem ajudar. Isso inclui aumentar o acesso ao ar-condicionado, criar centros públicos de resfriamento e isolar termicamente os edifícios. “Sabemos há tempos que as mudanças climáticas vão matar pessoas”, destacou a pesquisadora do Laboratório de Impacto Climático. “O que estamos tentando fazer aqui é entender onde e quantas pessoas morrerão por causa das mudanças climáticas, mas também onde investimentos direcionados podem ajudar a salvar mais vidas”.

Gostando do conteúdo? Nossas notícias também podem chegar no seu e-mail.

Veja o que já enviamos

Tamma Carleton disse esperar que as descobertas possam ajudar a direcionar o financiamento climático global para os países que mais precisam — e sirvam como um lembrete de que o futuro ainda não está definido. “Essas mortes não são inevitáveis”, lembrou a pesquisadora. “Esta é uma projeção do que pode acontecer se não houver ação”, adicionou.

A pesquisa aponta que o Norte da África, o Oriente Médio e o Sudoeste Asiático são as regiões que devem apresentar os maiores aumentos nas mortes devido ao aumento das temperaturas. “Este relatório revela uma das ironias mais cruéis das mudanças climáticas: prevê-se que elas matem milhões de pessoas nos países que, em geral, menos contribuíram para causá-las”, alertou Michael Greenstone, cofundador do Laboratório de Impacto Climático e diretor do Instituto para o Clima e Crescimento Sustentável e do Instituto de Política Energética da Universidade de Chicago.

Água ameniza alta temperatura nos EUA: Calor vai matar 10 vezes mais nos países pobres do que nos ricos (Foto: Sgt. Sheila deVera / US Air Force)
Água ameniza alta temperatura nos EUA: Calor vai matar 10 vezes mais nos países pobres do que nos ricos (Foto: Sgt. Sheila deVera / US Air Force)

Países ameaçados por calor extremo

A pesquisa mostra que, dentro dessas mesmas regiões, os países mais pobres serão os mais afetados. Apesar de ter um clima semelhante, Burkina Faso, por exemplo, deve registrar o dobro de mortes por calor em comparação com o Kuwait, um país mais rico, até 2050. “Os níveis de renda relativamente baixos significam ainda que essas pessoas não estão tão bem preparadas quanto as dos países ricos para enfrentar os novos e crescentes riscos das mudanças climáticas”, acrescentou Greenstone.

Os riscos são muito altos para que o passado sirva de prólogo. Escolher corretamente onde investir recursos limitados em adaptações pode ter impactos enormes sobre quem vive e quem morre

Tamma Carleton
Chefe de Pesquisas do Laboratório de Impacto Climático e professora da Universidade da Califórnia

Argélia, Paquistão e Níger estão entre os 25 países que devem apresentar o maior aumento nas taxas de mortalidade relacionadas à temperatura. O Paquistão deve registrar um aumento líquido na mortalidade de 51 mortes por 100.000 pessoas por ano até 2050 — um número comparável ao número atual de mortes apenas por AVC no país atual. As desigualdades entre países repetem-se no nível mais local: o número de mortes por calor em Faisalabad, no Paquistão, seja mais de 15 vezes superior ao da cidade quente, mas rica, de Phoenix, no estado norte-americano do Arizona.

A pesquisa é a primeira de uma nova série “Roteiro para a Adaptação”, desenvolvida pelos cientistas do Laboratório de Impacto Climático, com base na constatação da necessidade urgente de incorporar a adaptação como parte central da estratégia para enfrentar as mudanças climáticas, juntamente com a mitigação das emissões de gases de efeito estufa.

Com base em uma década de pesquisa sobre os impactos das mudanças climáticas, a instituição está trabalhando agora para descobrir não apenas onde a adaptação será mais necessária, mas também os benefícios de investimentos específicos. “Os riscos são muito altos para que o passado sirva de prólogo. Escolher corretamente onde investir recursos limitados em adaptações pode ter impactos enormes sobre quem vive e quem morre”, afirmou a chefe de pesquisas Tamma Carleton,

Além de caracterizar os riscos que as comunidades locais enfrentam, o Laboratório de Impacto Climático também está desenvolvendo um guia global de estratégias de adaptação baseadas em dados e testadas para investidores, governos nacionais e locais e para as pessoas que enfrentarão cada vez mais os riscos climáticos. “Assim como uma jornada requer um mapa, a adaptação climática eficaz depende de saber onde a ação é mais necessária e quais investimentos terão o maior impacto. Estamos fornecendo esse roteiro, identificando os riscos climáticos e os locais onde os investimentos em adaptação podem gerar os maiores benefícios”, disse Greenstone.

As projeções indicam que 95 cidades na Ásia experimentarão um aumento na mortalidade relacionada à temperatura de pelo menos 10 mortes por 100.000 habitantes: 56 desses municípios estão na China. Outros países asiáticos com várias cidades que ultrapassam o limiar de 10 mortes por 100.000 habitantes incluem Paquistão (nove cidades), Japão (4), Irã (4), Bangladesh (3) e Arábia Saudita (3).

Apoie o #Colabora.

Queremos seguir apostando em grandes reportagens, mostrando o Brasil invisível, que se esconde atrás de suas mazelas. Contamos com você para seguir investindo em um jornalismo independente e de qualidade.

Oscar Valporto

Oscar Valporto é carioca e jornalista – carioca de mar e bar, de samba e futebol; jornalista, desde 1981, no Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, no Governo do Rio, no Viva Rio, no Comitê Olímpico Brasileiro. Voltou ao Rio, em 2016, após oito anos no Correio* (Salvador, Bahia), onde foi editor executivo e editor-chefe. Contribui com o #Colabora desde sua fundação e, desde 2019, é um dos editores do site onde também pública as crônicas #RioéRua, sobre suas andanças pela cidade

Newsletter do #Colabora

A ansiedade climática e a busca por informação te fizeram chegar até aqui? Receba nossa newsletter e siga por dentro de tudo sobre sustentabilidade e direitos humanos. É de graça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *