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O socialismo infame da privatização do serviço público

Apagão no bairro carioca do Leme explica, pela zilionésima vez, que setores essenciais à sociedade não podem ser regidos pela lógica do lucro

ODS 11ODS 12 • Publicada em 24 de janeiro de 2026 - 17:46 • Atualizada em 24 de janeiro de 2026 - 17:47

Enclave pacato numa ponta de Copacabana, o Leme carrega a fama de pequeno paraíso à beira-mar. Não compartilha a barafunda da vizinha gigante, tampouco a exuberância de Ipanema, nem a ostentação ultracapitalista do Leblon. Seus 14 mil habitantes privilegiam sossego e silêncio. Seu curto trecho da orla carioca não costuma lotar, e os frequentadores cativos, moradores ou não, convivem em paz, na maior parte do tempo.

Leu essa? A tragédia da privatização

Mas acabou a brincadeira. Um apagão com mais de 50 horas no alvorecer de 2026 jogou a população do Leme na vala comum dos milhões de brasileiros vítimas do estelionato disfarçado de eficiência, que infesta os serviços essenciais concedidos a gananciosos privados. Por mais de quatro dias, os habitantes ficaram sem a energia elétrica pela qual pagam (caro), no auge da canícula de janeiro.

Aqui, chegou a isonomia do pior jeito: as duas favelas do bairro, Chapéu Mangueira e Babilônia, também foram privadas do serviço, se associando ao sufoco que, no Brasil, normalmente fica com os pobres. No socialismo tabajara das corporações, bacanas e vulneráveis compartilharam a mesma canoa furada, que tinha no leme (com trocadilho) desgovernado a Light, empresa de 120 anos, responsável por prover a energia elétrica no Rio de Janeiro.

O Leme às escuras: mais de quatro dias de apagão, geradores a diesel e muito tormento em mais um vexame de um concessionário privado de serviço público. Reprodução

Os resquícios da incompetência privada estão pelo bairro até hoje, com até 62 geradores barulhentos, que espraiaram cheiro de óleo diesel (vilão da crise climática), e obras atravancando as ruas. Alegação da encarregada de acender a luz: três quilômetros de cabos teriam sido roubados da rede subterrânea. Noves fora a mazela endêmica nas grandes cidades brasileiras – parte do imenso fracasso dos encarregados da segurança pública –, desculpas não resolvem prejuízos do comércio, transtornos dos moradores e a falta do serviço concebido para ser permanente.

Mas a fé de autoridades, economistas e de certa elite absolve eternamente o setor privado pelos próprios descalabros. Há três verões, São Paulo, a principal e mais rica cidade do país sofre com apagões terríveis e nada acontece. A Enel segue como concessionária por lá e, a cada fim de crise, renasce a celebração pela eficiência inexistente. Igual a todos os outros casos.

(Nunca será demais lembrar que as duas maiores catástrofes ambientais brasileiras são obra da iniciativa privada: os rompimentos das barragens de Fundão, em Mariana, e de Córrego do Feijão, Brumadinho, as duas em Minas Gerais, com respectivamente 19 e 272 mortos, além de prejuízos incalculáveis, pela devastação apocalíptica por toda a região. Tudo na conta da Vale, empresa estatal privatizada em 1997.)

A devoção às empresas privadas no Brasil lembra os cultos religiosos mais fervorosos e irracionais. Inexistem questionamentos ao modelo – apenas a exaltação permanente, em proporção diretamente igual à detonação do setor público. Os exemplos se multiplicam em sentido contrário – o transporte no Rio de Janeiro, o escândalo das Americanas, a súcia do banco Master, entre muitos outros, são realizações dos executivos badalados em entrevistas, palestras etc. De nada adianta invocar a história; os apaixonados pelo modelo ignoram resolutos e dobram a aposta na bajulação.

Virou até mote de campanha. Dia desses, um candidato hesitante exumou a frase “o Brasil precisa de um CEO”. Defendeu que os problemas nacionais estariam solucionados sob a direção de um Chief Executive Officer, para usar o idioma preferido dessa turma. Um executivo para arrumar a casa.

Nada poderia ser mais patético. Rigorosamente todas as empresas falidas ou metidas em escândalos estiveram sob comando de alguém no tal cargo da sigla. Adiantou coisa nenhuma, porque letras e títulos não dissipam a incompetência nem a desonestidade, seja pública ou privada.

A própria Light, de constrangedor prontuário no setor de energia, acumulou R$ 11 bilhões de dívidas que obrigaram a um pedido de recuperação judicial em 2023. Encarregada do fornecimento em 31 dos 92 municípios fluminenses, controla ainda cinco usinas hidrelétricas e duas elevatórias. Empresa de capital aberto, tem entre seus principais acionistas o baiano Nelson Tanure, mais um quindim da privataria nacional. Semana passada, ele apareceu como investigado por fraudes financeiras num dos muitos esquemas que envolve o Master, a central da bandalheira do momento. E aí, é cada enxadada, uma minhoca – ou muitas: circula no mercado que Tanure esconde R$ 15 bilhões em paraísos fiscais.

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Deixar concessionários de serviços essenciais sob controle de capitalistas sem freio como ele – e não há nenhuma diferença para qualquer outro – é uma temeridade. Itens essenciais à população não podem estar regidos pela doutrina do lucro a qualquer custo, a única que essa turma entende. Lição óbvia, que o Brasil se recusa a aprender.

Porque é aquilo: #privatizaquepiora.

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