Há mais de 50 anos, o surgimento dos blocos afro reconfigurou o asfalto de Salvador, transformando o que era segregação em território de afirmação estética e política. Essas organizações não nasceram apenas para desfilar; nasceram para devolver o espelho à população negra, combatendo o racismo estrutural através do tambor.
É nesse legado de resistência que o Bankoma se firma como peça fundamental. Nascido há 25 anos a partir do Candomblé, o bloco é um “fruto da raiz da Goméia”. Enquanto o Brasil enfrenta um cenário alarmante — com um salto de 323,29% nos casos de intolerância religiosa entre 2021 e 2024 (dados do Disque 100) — é justamente aqui, na “segunda África”, que o asfalto se torna solo sagrado. Na Bahia, onde a Polícia Civil contabilizou cerca de 759 ocorrências em 2025, a resistência não é uma opção, é uma urgência.
O Bankoma, realização direta do Terreiro São Jorge Filho da Goméia, ocupa a rua como um ato político de liberdade – neste Carnaval, o bloco desfila quatro dias pelas ruas de Salvador. Abaixo, a entrevista sobre fé, política e o desfile de 2026, concedida por Mametu Kamuricy da Goméia (Lucia Neves) e (Kota Malenduka da Goméia (Claudia Santos) a este colunista.
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Veja o que já enviamosO desfile deste ano, ETU TU ANA KYA MUKONGO, é uma realização direta do Terreiro São Jorge Filho da Goméia. Como a simbologia do “Caçador” e a energia de Portão se traduzem na estética e na musicalidade que o Bankoma levará para a avenida em 2026?
Bankoma: ETU TU ANA KYA MUKONGO, tema do desfile de 2026, homenageia o caçador Gongombira Mutalambô, a força que protege e direciona nossa comunidade com sua flecha certeira, aquele que é justo e caça somente para garantir nosso sustento, nossa continuidade. Na avenida, essa simbologia se traduz em uma estética que brilha como as folhas e as águas das florestas. Nossa indumentária reflete não só a aliança entre o caçador e a floresta, mas também a relação de Gongombira com os povos originários (a tradição dos Caboclos, como Pedra Preta, Boiadeiro e Jurema) e ainda a relação com todos os Nkisses que são também nossos guardiões. Trazemos a frente a ala das Bainas, simbolizando as mães ancestrais, com incenso, samba e dança circular para abrir caminhos de paz. A capoeira simbolizando resistência e a ala de dança para marcar a reinvenção de mundo, a liberdade e nosso pertencimento ao candomblé a essa sociedade. Musicalmente, o Bankoma é excepcionalmente percussivo, e nossa marca é a transposição dos toques bantos para as células rítmicas do samba-reggae. Levamos a flecha-caminho de Gongombira para direcionar um repertório autoral que conecta a raiz Congo-Angola à música popular brasileira.
O Bankoma nasceu há 25 anos a partir do Candomblé. Olhando para trás, qual era o principal desejo da comunidade ao colocar o bloco na rua pela primeira vez e como esse propósito se transformou ao longo de duas décadas e meia?
Bankoma: O Bankoma nasceu há mais de duas décadas como um ‘fruto da raiz da Goméia’. O principal desejo da comunidade ao colocar o bloco na rua pela primeira vez era a revitalização espiritual e ancestral, buscando preservar o legado de Mam’etu Mirinha de Portão e de nosso avô Tat’etu João da Goméia. Ao longo de 25 anos, esse propósito se transformou em uma ferramenta de afirmação identitária e resistência. Deixamos de ser apenas uma manifestação local para nos tornarmos um território político-mítico que celebra a sagrada resistência firmada entre o povo banto e os povos originários. Hoje somos a representação negra de Lauro de Freitas no Carnaval de Salvador. Somos embaixadores da cultura de matriz afro nascida em Portão para o mundo.
Qual é a importância política e social de se firmar como um “bloco de terreiro” em um país que ainda enfrenta tanto preconceito religioso? Como o bloco estende o acolhimento do terreiro para quem está na corda ou na pipoca?
Bankoma: Afirmar-se como um bloco de terreiro é um ato político de liberdade em um país que ainda tenta silenciar as religiões de matriz africana. O Candomblé, para nós, é uma religião de povo livre e sem medo. Estendemos o acolhimento do terreiro para a corda e para a pipoca ao abrir nossa aldeia viva na avenida, aquilombando todas as nações do candomblé e unindo povos na fé da cura pelo amor à terra. O Bankoma convoca todas as pessoas e energias para garantir que todos na rua sintam o equilíbrio e a fartura da nossa ancestralidade. Somos críticos quanto as cordas no carnaval, acreditamos que em breve deixarão de existir e, onde é possível, fazemos nosso desfile sem cordas.
Diante dos desafios financeiros e da comercialização do Carnaval, qual é o segredo para manter viva a chama e a autenticidade dos blocos afro? O que o Bankoma faz para garantir que a essência não se perca entre um desfile e outro?
Bankoma: O segredo para manter a chama viva é o fato de brotarmos em comunidade e crescermos de forma orgânica. Nos afastamos de formas sintéticas de conhecimento e ação que desvalorizam nosso povo. Enquanto muitos blocos se rendem à comercialização extrema, o Bankoma mantém sua essência ao produzir seu próprio figurino através do grupo Kula Tecelagem, que resgata a tradição milenar do Pano da Costa (Alaká) no tear de pedal. Nossa autenticidade vem de vivermos para sempre como guardiões do natural, da vida e do verde, compartilhando saberes como os caçadores ancestrais em vez de apenas destruir ou dominar. Entretanto, é importante ter investimento para que possamos ampliar a metodologia que desenvolvemos. Advogamos por investimento para nossa comunidade; blocos afro merecem receber o mesmo que outros artistas, grupos, bandas, recebem, sabemos administrar recursos, já provamos isso para o mundo. É possível fazer carnaval na perspectiva da economia solidária. Justiça social e equidade econômica é importante também no Carnaval. Cultura não é fundo perdido é investimento social.
Ao celebrar esses 25 anos, qual mensagem o Bankoma quer deixar para o Carnaval da Bahia? Como vocês visualizam o papel do bloco nos próximos 25 anos dentro da cena cultural brasileira?
Bankoma: Nossa mensagem para o Carnaval da Bahia é de que somos prioritariamente liberdade, queremos defender nossa identidade negra e celebrar as conquistas de bem viver para comunidade negra. Isso nos mantém sem medo nas ruas. Para os próximos 25 anos, visualizamos o Bankoma consolidando-se ainda mais como um baluarte da cultura banto na cena brasileira, combatendo preconceitos, racismo e intolerância religiosa através da arte, cultura e da espiritualidade. Seguiremos vencendo as demandas das selvas de pedra com a paciência estratégica do arco, sempre reafirmando que o Brasil tem uma alma banto, nossas raízes são Congo-Angola. Manteremos viva a memória e o legado do Tatetu João da Goméia e de Mametu Mirinha de Portão. Mpembele Gongombira Mutalambô! Kiuá Martim Pescador!.
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