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O patético jogo dos alienados

Elite do futebol ignora guerras e brutalidades de Donald Trump mundo afora e se prepara para a Copa do Mundo como se estivesse tudo normal sobre a Terra

ODS 16 • Publicada em 21 de março de 2026 - 13:28 • Atualizada em 21 de março de 2026 - 13:35

O presidente da Fifa, Gianni Infatino, e o prêmio da paz para Trump: bajulação surreal. Foto Fifa

Para sustentar seu plano de poder, Donald Trump põe o maior aparato militar já construído a serviço da invenção de guerras. Associou-se ao massacre israelense em Gaza, sequestrou o ditador venezuelano Nicolás Maduro e agora, ataca o Irã. Na sua inominável crueldade, ordenou bombardeio à escola Shajareh Tayyebeh, em Minab, no sul do país, matando pelo menos 168 crianças (a imensa maioria meninas) e 14 professores. O conflito prossegue, espalhando incerteza pelas economias do mundo, devido à dependência global do petróleo.

E o que faz o planeta futebol? Vai jogar bola, no país do genocida.

Leu essa? Copa da infâmia

Sim, no país do ICE, a milícia anti-imigração que dia desses fuzilou uma dona de casa americana a tiros no meio da rua; na terra da anticiência, que desmontou programas de saúde com repercussão mundial; no obscuro reino inimigo da ecologia, que amplia sua contribuição ao desequilíbrio da Terra. É nesse lugar que vão se reunir os maiores jogadores da atualidade, para a 23ª edição da Copa do Mundo.

Messi achando a maior graça do humor de Trump: vexame do mais famoso jogador da atualidade. Foto Molly Riley/Casa Branca

A elite futebolística escolheu virar as costas para a humanidade e se lambuzar no luxo de algumas das mais opulentas arenas esportivas jamais erguidas. A preparação segue sem desconfortos em meio à infâmia naturalizada, na alienação do clichê “the show must goes one”. Brasil e França, por exemplo, convocaram seus escretes para amistoso preparatório e os debates se ocupam da ausência do cadáver boleiro Neymar, que jaz pelos gramados naturais e de plástico com a camisa 10 do Santos.

O circo da bola desembarcará em junho nos EUA liderado pelo surrealista presidente da Fifa, Gianni Infantino, o advogado suíço-italiano que parece não ser dotado da capacidade do constrangimento. Em 5 de dezembro, inventou um Prêmio da Paz e o concedeu a Donald Trump – é isso mesmo que você aí leu –, em Washington, no sorteio dos grupos da competição. A cena de bajulação desavergonhada chocou o mundo.

Em verdade, Infantino ratifica o DNA de entidade que comanda. Desde sempre, a Fifa atrelou-se politicamente aos piores poderosos mundo afora. Seu terceiro presidente, o francês Jules Rimet (1873-1956), aliou-se ao fascismo na Copa de 1934 e, na de 1938, permitiu que a Alemanha nazista escalasse jogadores da Áustria após anexar o país, na escalada imperialista de Adolf Hitler.

Quase meio século depois, o brasileiro João Havelange ascendeu ao trono máximo do futebol aliando-se a governantes autoritários mundo afora. A primeira Copa que comandou, na Argentina, em 1978, está entre as mais infames da história, por ter ocorrido durante o período mais selvagem da ditadura no país, com torturas monstruosas ocorrendo em instalações vizinhas a estádios. Além disso, o regime usou a suspeita vitória da equipe anfitriã como propaganda.

Mas a alienação dolosa de Infantino virou um paroxismo. O primeiro mundial que comandou foi na Rússia do cruel Vladimir Putin, em 2018; o segundo, quatro anos depois, no Catar, teocracia que despreza os direitos humanos, oprime mulheres, massacra LGBTs, martiriza trabalhadores e ignora tragédias como a crise climática.

Parecia o fundo do poço – #sóquenão. A Copa nos Estados Unidos (com alguns poucos jogos no Canadá e no México) avaliza o governo inimigo da democracia e dos direitos humanos de Donald Trump e expõe contradição que só o dinheiro explica. Ao invadir a Ucrânia, a Rússia foi banida das competições internacionais de seleções; os EUA invadiram a Venezuela para sequestrar Maduro, associaram-se a Israel no genocídio de Gaza, agora atacaram o Irã – e está tudo certo para a cartolagem.

“A Fifa não pode resolver conflitos geopolíticos, mas estamos comprometidos em usar o poder do futebol e da Copa do Mundo para construir pontes e promover a paz, enquanto nossos pensamentos estão com aqueles que sofrem como consequência das guerras em andamento”, escondeu-se Infantino, em reunião da entidade, semana passada. Está no colo dele a vergonha de o Irã, por óbvio, ter desistido de jogar nos Estados Unidos, um despropósito absoluto. A federação do país pediu que suas partidas fossem transferidas para México e Canadá, mas a entidade assentada no arbítrio se recusa a alterar o calendário, mesmo ante à montanha de evidências.

Pior: torcedores de países alvos da xenofobia trumpista – todos os latino-americanos, africanos e muitos asiáticos – temem ir às partidas pela possibilidade de serem presos e deportados. A Copa está definitivamente manchada pela violência radical do extremista ora inquilino da Casa Branca.

Cristiano Ronaldo feliz da vida com Trump: os boleiros e a vergonha. Reprodução

E as seleções, confederações e jogadores de todos esses lugares? Olham para o outro lado e fingem que não têm nada com isso. Os dois jogadores mais famosos da atualidade dobraram a aposta na alienação e foram se esfregar no estado-unidense. O português Cristiano Ronaldo esteve na Casa Branca em novembro e posou sorridente com Trump; o argentino Lionel Messi visitou o republicano agora em março, no bojo de um título do time que defende, o Inter Miami.

O convescote presidencial está entre os protocolos dos campeões esportivos nos EUA. Mas quem tem o mínimo de consciência e empatia não vai. Campeões da NBA, como Stephen Curry e Lebron James, e craques do futebol feminino, entre vários outros, recusaram o convite. Os boleiros estão sempre dispostos a passar vergonha.

(Não só eles. O Comitê Olímpico Internacional mantém silêncio aviltante em relação aos próximos Jogos, marcados para Los Angeles em 2028. Com ainda mais países envolvidos, os embaraços diplomáticos serão turbinados.)

Enquanto isso, a preparação para o evento de junho segue seu curso, técnicos observam eventuais escolhidos, elaboram suas convocações, dirigentes acertam a estrutura para a preparação dos craques, a mídia se prepara alegremente para viajar e acompanhar as partidas in loco (a Copa é uma espécie de Xanadu profissional do setor); todo o processo, enfim, parece transcorrer como sempre.

(Há, entre os jornalistas, exceções gloriosas que batalham ao longo de toda sua carreira para conectar o futebol à vida real. Eles defendem o combate às intolerâncias e o respeito à democracia e aos direitos humanos. Mas é uma luta ingrata.)

Está ruim? Pois vai piorar. A Copa de 2034 será na Arábia Saudita, do príncipe sanguinário Mohammed Bin Salman, acusado de mandar esquartejar o jornalista Jamal Khashoggi na embaixada saudita em Istambul. O país está entre as mais fechadas ditaduras do mundo árabe, com rosário de violência e desrespeito aos direitos humanos – mas Infantino quer é mais.

Falta (muito) mais gente sentir vergonha do absurdo total que se apossou do futebol. Por enquanto, os alienados estão ganhando de 7 a 1.

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