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Perdão, Chico, mas a dor da gente sai no jornal, sim

Depois de estar sob os holofotes da mídia mundial com a tragédia de fevereiro, Juiz de Fora segue lambendo feridas, juntando cacos, engolindo o choro

ODS 13 • Publicada em 24 de março de 2026 - 08:52 • Atualizada em 24 de março de 2026 - 09:43

Um mês atrás, quando saí do trabalho no dia 23 de fevereiro e fui pra casa, por volta das 20h, sabia que continuaria em ação, mas aproveitei uma estiada da forte chuva para conseguir ir embora. O que eu não sabia é que entraria num looping de trabalho, tensão e tristeza que seguiria ininterrupto pelos próximos dias, e pelo pior motivo possível. Trabalho na Prefeitura de Juiz de Fora, cidade destruída pelos temporais que assolaram a Zona da Mata mineira, com o fevereiro mais chuvoso do município. Em dois dias, choveu quase metade do previsto para o ano inteiro.

Moradora do bairro Três Moinhos, em Juiz de Fora, busca pertences na casa destruída pelos temporais: a dor da gente também sai jo jornal (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil – 01/03/2026)

Como repórter, eu já tinha participado da cobertura de tragédias de menor dimensão numérica – porque dor, coletiva e individual, a gente não mensura ( e não, esse travessão não é do Chat GPT – e nem os que se seguirão). Mas nenhuma se aproximou, em dados e magnitude, do que enfrentamos em Juiz de Fora neste último mês. E estar na perspectiva do poder público, buscando atender à avalanche de demandas de imprensa que justificadamente chegavam do Brasil – e do mundo – , traz lentes diferentes à calamidade, pública e íntima.

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Não vou falar – embora pudesse, por horas a fio – sobre a  os desafios de organizar informações em meio ao caos e o desolamento para que o jornalismo pudesse noticiar tudo com celeridade e credibilidade, justamente o que a sociedade precisa. E tampouco ouso mencionar o desrespeito que surpreendentemente enfrentei como assessora vindo de onde eu menos poderia esperar, de uma parte absolutamente diminuta, mas barulhenta, da imprensa. Felizmente, em sua maioria, o bom jornalismo seguiu – e segue – fazendo seu papel. Assim como gente de bom coração continua como sempre, oferecendo empatia e respeito a quem perdeu tudo, seja lá o que esse tudo for.

Mas seria descaramento da minha parte falar de como esse momento de dores que me afetam, enquanto digito aqui, de casa ou do trabalho, segura, nas brechas em que não estou a postos de alguma forma nos últimos dias, todos os dias, todo o dia. Em contato com a imensurável perda de tanta gente, em gente mesmo, ou em construções de toda uma vida. E é só isso que importa agora, isso e os caminhos possíveis para a mitigação de um sofrimento impossível, no bolso, no corpo, na memória, na vida.

Eu não sei o que passou na cabeça do Chico Buarque quando disse em samba que “a dor da gente não sai no jornal”.

Juiz de Fora, sei desde que juntei minha então juventude e vim aprender a ser jornalista e adulta por aqui, tem a peculiar fama de gostar de fama. De espalhar desde sempre a mentira de que a Avenida Rio Branco é a maior em linha reta da América Latina. De por sua vez propagandear, com devido orgulho, que a cidade teve iluminação pública primeiro que Nova Iorque. De contar pra todo mundo de cada celebridade ou subcelebridade que é daqui: “É de Juiz de Fora, sabia?”

Moradora de Juiz de Fora chora ao retirar suas coisas da casa destruída pela enchente: cidade segue lambendo as feridas após a tragédia que deixou mais de 70 mortos na região (Foto: Tânia Rego / Agência Brasil – 01/03/2026)

Corta para a “dor da gente”, a tão extenuante dor da nossa gente, não simplesmente no jornal em si, mas em todos os veículos de comunicação. Na imprensa local, regional, nacional, e me liga o francês querendo entrevista para o famoso jornal que se nomeia “o mundo”. E sai a tragédia em canais que desde pequenos a gente reconhece como referências do jornalismo mundial. E tá lá a dor da gente, latejando em páginas de idiomas que aprendemos como segunda língua, e em outros que nem sabemos falar. E tem que estar mesmo, porque todo mundo precisa saber. Mas não tem analgésico que faça parar de doer, ou samba bom do Chico que contrarie a realidade de que ela está sim, ali, no jornal onde a rima jura que não estaria.

Mas o que joga sal na ferida é ter que desmentir boato fabricado com intenção de capitalizar o sofrimento alheio, seja em votos, likes ou qualquer outra contabilização, palpável ou não. Arranca o Band-aid, com pele e tudo também, informação sendo divulgada sem qualquer checagem, vinda de uma sede inexplicável de protagonismo a qualquer custo, nem que seja o da vida dos outros. Se a dor da gente saísse só no jornal, seja ele em qual suporte for, mas feita com jornalismo como deve ser, tava bom.

Em poucos dias, muitos dos olhos que se voltaram para a lama e os escombros que espalharam tantas perdas por Juiz de Fora se lançaram sobre outras vistas, contemplando sabe-se lá o quê. Mas nós, aqui, no local, seguimos, lambendo feridas e juntando cacos, engolindo o choro ou deixando vir quando não dá pra segurar. E torcendo com toda força – ou fé, pra quem é de fé – pra se tornar verdade o refrão de um outro samba, em algum momento: “O sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações”.

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