Dom Pedro Casaldáliga: compromisso e esperança

Pedro Casaldáliga, em janeiro de 2012, conversa com o ator espanhol Eduard Fernandez, em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Foto AFP

Uma história de coerência e luta em favor dos povos indígenas e das causas dos oprimidos

Por Francisco Morales | ODS 10 • Publicada em 8 de agosto de 2020 - 17:05 • Atualizada em 11 de fevereiro de 2021 - 19:59

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Pedro Casaldáliga, em janeiro de 2012, conversa com o ator espanhol Eduard Fernandez, em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso. Foto AFP

E aconteceu como ele mesmo profetizou, poeta que era:

“Eu morrerei de pé, como as árvores. O sol, como testemunha maior, porá seu lacre sobre meu corpo duplamente ungido. E os rios e o mar serão caminho de todos os meus desejos, enquanto a selva amada sacudirá, de júbilo, suas cúpulas. Eu direi as minhas palavras: não mentia ao gritar-vos. Deus dirá aos meus amigos: certifico que viveu com vocês esperando este dia. De golpe, com a morte, minha vida se fará verdade. Por fim terei amado!” (Pedro Casaldáliga, Profecia Extrema).

 Pere Casaldáliga i Plá ou, simplesmente, Pedro Casaldáliga, como ficou conhecido, faleceu no sabádo dia 8 de agosto, na cidade de Batatais, interior de SP. O bispo emérito de São Félix do Araguaia tinha 92 anos de idade. Filho de camponeses, Pedro nasceu a 16 de fevereiro de 1928, em Balsareny, pequena cidade perto de Barcelona, Espanha. Entrou para a ordem dos padres claretianos onde foi ordenado sacerdote. Após uma breve passagem pela África, Pedro chegou como missionário ao Brasil em 1968, em plena ditadura militar. Ele se estabeleceu em São Félix do Araguaia, no Mato Grosso, em 1971, sendo nomeado primeiro bispo da Prelazia.

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Tenho fé de guerrilheiro e amor de Revolução. E entre evangelho e canção, sofro e digo o que quero

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Na sua ordenação episcopal usou como símbolos um remo, uma cruz de madeira e um anel de tucum, marcando assim as suas diferenças com a igreja tradicional e seus símbolos de riqueza e alinhamento com a burguesia. Morava numa casa rural pobre, com um estilo de vida espartano, coerente e próximo do povo. A sua luta se identifica com as causas indígenas, dos camponeses, retirantes e pobres. Enfrentou a ditadura militar e, também, o setor mais conservador da Igreja Católica sem arredar pé dos seus princípios e valores evangélicos.

Sempre defendeu que a Igreja deveria ter um forte papel social e se tornou uma das figuras mais relevantes da Teologia da Libertação. Junto com bispos da talha de Tomás Balduíno, Hélder Câmara, José Maria Pires, Waldir Calheiros, Luciano Mendes de Almeida, Antônio Fragoso, Paulo Evaristo Arns, Ivo e Aloísio Lorscheider, formaram uma linha eclesial de frente, representando uma igreja católica profética, denunciadora e defensora dos direitos humanos e das causas dos oprimidos, que será difícil de repetir. Evangelho autêntico, Cristo presente entre nós.

Pedro Casaldáliga foi um dos fundadores do Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e da Comissão Pastoral da Terra (CPT), organizações que desempenharam e desempenham um papel importante na transição democrática, assim como asseguraram a presença dos direitos sociais e indígenas na Constituição de 1988. Indígenas, terra, camponeses, matas e águas eram seus temas preferidos e sempre presentes em seus escritos. Apoiador das grandes causas da América Latina, a Pátria Grande, como ele gostava de chamar, visitou, a convite dos governos locais, a Nicarágua sandinista e Cuba. Junto com a sua ida a Roma, na visita “ad limina” a pedido de João Paulo II, foram as suas únicas saídas nos seus 52 anos de Brasil. Nem sua terra natal ele voltou a visitar.

Sofreu perseguição da ditadura militar e do próprio Vaticano, especialmente no papado de João Paulo II (1978-2005), passando por processos e acenos de expulsão do Brasil e da Igreja oficial. Nada disso o fez desistir da sua teimosia militante e da sua esperança ativa na construção do reino de Deus, já aqui entre nós. Permaneceu fiel e comprometido com o seu povo pobre. “Tenho fé de guerrilheiro e amor de Revolução. E entre evangelho e canção, sofro e digo o que quero”. No dia 2 de fevereiro de 2005, e seguindo o Código do Direito Canónico, apresentou a sua renúncia como bispo de São Félix, prontamente acolhida pelo Vaticano.

Tive o prazer e o privilégio de conviver com ele entre 1990 e 1994, em São Félix, partilhando a casa pobre, mesa, chinelos, espiritualidade, sonhos evangélicos e pastorais, numa jornada totalmente inesquecível e que marcou profundamente a minha vida. Longas conversas, momentos de reza e angústias, aprendizados de vida que ficam para sempre como sementes fecundas regadas pelo Araguaia.

“Ser o que se é. Falar o que se crê. Crer no que se prega. Viver o que se proclama, até as últimas consequências”. Assim era Pedro Casaldáliga.

As matas e os rios, os corações lutadores e de boa vontade, as causas dos pobres e os céus surcados pelas garças do Araguaia que ele tanto gostava, estão em festa. Nós, um pouco mais órfãos.

Pedro, dá-nos a Paz!

Francisco Morales

É filósofo, teólogo, palestrante e consultor de diversas instituições de ensino. Foi Diretor do Colégio Santo Agostinho, em Belo Horizonte, por 20 anos. É fundador e coordenador do Grupo de Tecnologia e Inovação da ANEC-MG e sócio fundador da Dóxa Educacional.

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