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Sem Loucura não vai dar

Bloco criado no Instituto Nise da Silveira desfila suas lições de alegria e tolerância pelo 18º ano seguido


Elisama, porta-bandeira do Loucura Suburbana: fã de Vilma Nascimento. Foto de Fernando Maia

A insana sensatez chamada Carnaval espalha alegria pela cidade – e num canto muito especial da Zona Norte carioca, melhora o cotidiano de usuários, familiares e funcionários do Sistema de Saúde Mental do Rio. Nesta quinta-feira, vai passar, pelo 18º ano consecutivo, o Loucura Suburbana, bloco criado no Instituto Nise da Silveira, que virou bálsamo para usuários das unidades de tratamento psiquiátrico.

Dá gosto ver o ensaio da bateria Ensandecida ao longo do ano, com ritmistas garimpados nos Caps, os Centros de Atenção Psicossocial da prefeitura, reunidos no Instituto Municipal Nise da Silveira, no Engenho de Dentro –concentração e ponto de partida do bloco. Comove testemunhar a dedicação na construção de fantasias no barracão. Encanta, sobretudo, aferir o amor inegociável pelo Carnaval.

Elisama Carneiro Arnold sequer desvia os olhos do trabalho de adereços para sua fantasia de porta-bandeira. Há 25 anos no Nise da Silveira para cuidar de ansiedade e sonambulismo, ela assumiu a condução do pavilhão logo no segundo ano do bloco, com a gravidez da antecessora. Nunca mais deixou o cargo – como manda o DNA de alguém nascido na rua do Império Serrano – e, em 2018, desfilará de drag queen. “Precisamos quebrar os estereótipos, as correntes. Você é o que quiser ser”, defende ela, com discernimento admirável – demonstrado também ao apontar a porta-bandeira que mais admira: Vilma Nascimento, mito da Portela.

Além de empunhar a bandeira sob a guarda do mestre-sala Sidmar, ela, como vários outros usuários das unidades de saúde mental, atravessa o ano em meio à alegria colorida do material das fantasias – por lá, não se comete a insanidade de interromper a paixão pelo Carnaval. “O trabalho substitui o tratamento com remédio, médico etc”, ensina Juliana Grizolia, produtora do Ponto de Cultura Loucura Suburbana, o primeiro ligado à área de saúde mental no Rio. “Eles são protagonistas de tudo, viram outras pessoas”, alegra-se ela, relatando o progresso dos que tocam na bateria.

A parte musical fica a cargo de Abel Luiz, músico que desde 1993 desenvolve trabalhos no Nise da Silveira. Criado no bairro, ele começou frequentando as aulas de capoeira, e nunca mais se foi. “O bloco atirou no que viu e acertou no que não viu”, resume. “No início, era apenas algo comunitário, mas virou peça fundamental na ideia de quebrar cadeados”, explica ele, referindo-se à luta antimanicomial, corrente mais defendida no tratamento psiquiátrico atualmente.

O Loucura Suburbana ganhou, então, enredo permanente: a desconstrução dos manicômios sociais e culturais que a sociedade e seus preconceitos impõem aos usuários das unidades de saúde mental. “Passamos a aproveitar o melhor de cada um, respeitando as identidades”, relata Abel. “Importante é o ambiente que se cria, com gente diversa”, acrescenta o músico, que comanda os ensaios da bateria às terças e quintas.

Ele também coordena a escolha do samba, disputa acirrada que reúne candidatos de todos os Caps. Para 2018, 15 composições disputaram a final, na quinta 25 de janeiro, no Sambola, lendária casa de bambas na Piedade. Venceu “E por falar em mulher guerreira, salve Nise da Silveira!!”, de Angela Carvalho e Paulo Fernando – melhor, aliás, do que alguns hinos de 2018 na Sapucaí. Confira (com a letra):

“O Loucura vai passar

Com seu jeito carioca

Trazendo muita alegria e simpatia

Pelas ruas da cidade

E expressar minha humanidade

É preciso resistir

Quebrem os cadeados

Viva a liberdade!

De mulher e de louco

Todos nós temos um pouco

Refazer, resistir e recriar

Sem Loucura não vai dar

E por falar em mulher guerreira

Salve Nise da Silveira

Com loucura no coração

Fazia arte com emoção”

Acima de todos os protocolos carnavalescos, a maior prova da sanidade do Loucura Suburbana está na construção de tudo em sistema de inegociável parceria, com usuários, parentes, funcionários e vizinhos que participam do babado trocam experiências sem hierarquia. Ninguém dá ordem, é tudo dividido. “Acaba que nós, funcionários, e a população em geral nos beneficiamos de maneira semelhante aos usuários”, atesta Ariadne de Moura Mendes, coordenadora e integrante da Velha Guarda do bloco. “É uma nova era da psiquiatria, completamente diferente daquele cenário ‘médico/paciente’ adotado durante tanto tempo”, acrescenta.

Uma consequência especialmente valiosa está na demolição dos preconceitos. Muitos vizinhos do Nise da Silveira entendiam os usuários da instituição como preguiçosos, gente largada e assustadora. Ao se aproximarem pela via do bloco, encontraram irreverência, parceria, amizade – e aprenderam a lidar com males da cabeça, como esquizofrenia e depressão. “Passaram a entender que não são defeitos, mas diferenças. O conceito se transformou”, confirma Ariadne. “Não tem dono do saber. Aqui todo mundo é louco”, arremata ela, avisando que, para o desfile pelas ruas do Engenho de Dentro, há oferta de maquiagem e fantasias gratuitas aos foliões.

Tem de ser muito ruim da cabeça para perder esse bafafá.


Escrito por Aydano André Motta

Aydano André Motta

Niteroiense, Aydano é jornalista desde 1986. Especializou-se na cobertura de Cidade, em veículos como “Jornal do Brasil”, “O Dia”, “O Globo”, “Veja” e “Istoé”. Comentarista do canal Sportv. Conquistou o Prêmio Esso de Melhor Contribuição à Imprensa em 2012. Pesquisador de carnaval, é autor de “Maravilhosa e soberana – Histórias da Beija-Flor” e “Onze mulheres incríveis do carnaval carioca”, da coleção Cadernos de Samba (Verso Brasil). Escreveu o roteiro do documentário “Mulatas! Um tufão nos quadris”. E-mail: aydanoandre@gmail.com. Escrevam!

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