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A fome cresce num mundo obeso

Obesidade dobra em 30 anos e número de famintos passa de 800 milhões


O jovem Nyibol Lual, de 13 anos, ajuda a família a preparar a terra para a plantação. O Sudão do Sul, onde vivem, é um dos países mais afetados pela fome no mundo. Foto Albert Gonzalez Farran/AFP
O jovem Nyibol Lual, de 13 anos, ajuda a família a preparar a terra para a plantação. O Sudão do Sul, onde vivem, é um dos países mais afetados pela fome no mundo. Foto Albert Gonzalez Farran/AFP

O número estimado de pessoas malnutridas no mundo cresceu de 777 milhões, em 2015, para 815 milhões, em 2016. Países africanos respondem por grande parcela do aumento. Aqueles categorizados como famintos são hoje 11 por cento da população global. A fome se espalha por partes do Sudão do Sul há meses neste ano, e a insegurança alimentar ameaça se tornar crônica em países atingidos por conflitos, como a Nigéria, a Somália e o Iêmen.

A piora foi visível em partes da África Subsaariana e no sudeste da Ásia. Em diversos casos, os conflitos se somam a impactos de secas e enchentes, ligadas a fenômenos como o El Niño e choques relacionados às mudanças climáticas, de acordo com um novo relatório da Organização de Alimentos e Agricultura da ONU (FAO).

As crianças na Nigéria, Somália, Sudão do Sul e Iêmen são vítimas inocentes de conflitos irresponsáveis, de secas, pobreza e mudança do clima. Se não as ajudarmos, toda uma geração, quando adulta, vai replicar o ódio e os conflitos de hoje

Anthony Lake
Diretor do Fundo para Crianças da ONU

Mas a situação se torna crítica em muitas outras partes do planeta, com a disseminação de conflitos em locais já assolados pela insegurança alimentar, prejudicando de forma mais severa comunidades rurais e tendo impacto negativo na produção e disponibilidade de alimentos.

Enquanto os novos números levam o tema da fome para as manchetes, no mesmo período, mais de 100 milhões de crianças se tornaram obesas. A obesidade dobrou desde 1980, e está ligada a uma série de problemas de saúde, como diabetes, pressão arterial alto e maior risco de Acidentes Vasculares Cerebrais (AVCs).

Fome a obesidade são vistas como fenômenos separados. Mas, na verdade,  os números são dois lados da mesma moeda: o volume chocante de pessoas não têm acesso a alimentos nutritivos e confiáveis. Os malnutridos sofrem obviamente deste problema.  Mas em muitos casos, aqueles que se tornam obesos sofrem também da falta de nutrientes.

A obesidade já atinge mais de 100 milhões de crianças no mundo. Foto MARKUS SCHOLZ / DPA
A obesidade já atinge mais de 100 milhões de crianças no mundo. Foto MARKUS SCHOLZ / DPA

Reportagem publicada recentemente no New York Times ajuda a entender como a “resolução” da desnutrição pode funcionar ao contrário, em direção à obesidade, e ressalta o valor de uma compreensão mais abrangente da nutrição global.

O texto documenta os esforços da Nestlé de expandir seus negócios na América do Sul, principalmente em seu maior mercado, o Brasi. E descreve como as empresas de alimentos que fabricam comida processada têm sucesso na venda de seus produtos aos pobres, envolvendo toda uma classe de pessoas que não está passando fome, mas também não se alimenta adequadamente. Isto faz parte de uma estratégia de levar alimentos processados para os bolsões mais remotos da região.

Os dados do relatorio da FAO são ainda mais preocupantes quando olhados em detalhe. De acordo com ele, 155 milhões de crianças sofrem de danos ao desenvolvimento de seus corpos e com frequência de seus cérebros, diminuindo as chances pelo resto de suas vidas. Cinquenta e dois milhões delas estão com o peso baixo para sua altura.

A fome e a desnutrição castigam um terço das pessoas no leste africano, e a obesidade cresce rapidamente em todo o mundo.

Segundo o diretor executivo do Fundo para Crianças da ONU, Anthony Lake, as crianças na Nigéria, Somália, Sudão do Sul e Iêmen são vítimas inocentes de conflitos irresponsáveis, de secas, pobreza e mudança do clima: “Se não as ajudarmos, toda uma geração, quando adulta, vai replicar o ódio e os conflitos de hoje.”

Pior ainda, o documento não vê um quadro favorável para as Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU, que prevêem o fim da fome e de todas as formas de má nutrição até 2030. “Estas estimativas são um alerta de que alcançar as metas de 2030 serão um desafio”, dizem os autores do relatório.

Outro fator contribui com o quadro. Diversos países dependentes da exportação de commodities, viram suas receitas cair em anos recentes, em meio a preços mais baixo do petróleo e outros minerais. Isto resultou em menor disponibilidade de comida e baixa capacidade de proteger os lares probres dos preços mais altos nos mercados domésticos.

O estudo da ONU é contestado por especialistas em desenvolvimento internacional, como Christopher Barrett. Segundo ele, a organização adota padrões simplistas para definir fome, confiando ainda em demasia em quantidades de calorias, e ignorando a densidade nutritiva e o acesso a minerais essenciais como ferro e vitamina A.  “Como demonstram as situações que ocorrem na América do Sul, a contagem de calorias nada diz sobre a qualidade dos alimentos. Não temos apenas de atingir um certo número de calorias para sermos saudáveis. São necessários nutrientes, a chave para impedir os efeitos colaterais devastadores da desnutrição e da obesidade”, afirma ele.


Escrito por José Eduardo Mendonça

José Eduardo Mendonça

É jornalista, com passagens por publicações como Exame, Gazeta Mercantil, Folha de São Paulo, e criador da revista Bizz e do suplemento Folha Informática. Vem nos últimos anos se dedicando aos temas ligados à sustentabilidade e foi pioneiro ao fazer, para o Jornal da Tarde, em 1976, uma série de matérias sobre energia limpa.

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