
Pai, mãe e filho no sofá, pipoca e refrigerante, assistindo Harry Potter na TV. Se filmassem ia parecer anúncio da Disney. A família tranquila e feliz na segurança do lar.
De repente, do nada, uma revoada.
Um pássaro? Um avião? Não, um morcego, que entra na sala. Se a expressão “barata voa” lhe diz algo, imaginem a mesma com um rato de asas e sonar. Começa o filme de terror.
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Veja o que já enviamosConsulto a Internet, amiga certa das horas incertas. A primeira coisa que descubro é que é crime matar morcegos. Fauna silvestre, crime inafiançável. Cadeia na certa. Provavelmente perpétua.
[/g1_quote]Numa presença de espírito invejável, grito
– VIVA O EMPODERAMENTO FEMININO!
E me escondo no banheiro, confiando que os novos tempos façam a minha mulher resolver o problema.
Olho pela fresta da porta e percebo que não tem ninguém na sala. O resto da família confia nos velhos tempos. A consciência culpada, velha inimiga, me expulsa do banheiro.
Volto à sala para encarar o meu destino trágico: lutar com o invasor. Como se mata um morcego? Um jornal enrolado dá cabo de uma barata voadora mas e um morcego? Um taco de baseball? Um fuzil? Lança-chamas?
Consulto a Internet, amiga certa das horas incertas. A primeira coisa que descubro é que é crime matar morcegos. Fauna silvestre, crime inafiançável. Cadeia na certa. Provavelmente perpétua. No Brasil só quem atrasa pensão ou mata animal selvagem vai para o xilindró.
O inimigo, além do radar, tem bons advogados.
Penso em dar uma de PM carioca: matá-lo com um porrete, deixar a arma do crime debaixo da asa dele e alegar legítima defesa. Ou então dizer que se tratou de um porrete perdido, que entrou misteriosamente pela janela e acertou o coitado do morcego.
Melhor agir na lei. Tenho que enxotá-lo de casa. Por um milagre o próprio decide voar até a cozinha, então fecho a porta e declaro retomada a sala. A pequena vitória é comemorada com reservas pelo resto da família. A conquista da cozinha vai exigir mais planejamento. Lembrando de todos os filmes de vampiros a que assisti, que não foram poucos, concluo que nada assusta mais os malditos do que luz solar, água benta e estacas. Não tenho os dois últimos e é de noite, então acendo todas as luzes pra ver se engano o pequeno terrorista. Nada. O desgraçado deve estar na despensa, o refúgio noturno dos covardes.
Será uma longa noite.
Se o morcego tem asas e radar eu tenho, ao menos na teoria, mais inteligência. Então penso em algum truque para expulsar o invasor. Me ocorre a ideia brilhante de colocar uma fruta como isca na janela. Como não pensei nisso antes! O bicho vai sentir o cheiro, sair da despensa e quando se der conta já está fora de casa. Bingo!
Corto alguns pedaços de banana, coloco na janela e fico só esperando. Em pouco tempo ouço uma revoada na despensa. Ele vai sair.
Sou um gênio!
Já estou preparando a comemoração quando vejo que, ao invés de tirar o que está dentro, os pedaços de banana atraem um outro morcego, de fora, que come um pedaço e parte pra dentro da cozinha.
Consegui duplicar o problema. O que começou como filme de terror agora é, mais uma vez, comédia pastelão.
Humildemente interfono para o porteiro, que resolve a questão em minutos, capturando os dois com uma toalha.
Volto a assistir a Harry Potter na TV com a família. É claro que a minha performance vira motivo de chacota.
Se tivessem filmado ia parecer humorístico do SBT.