ODS 1
A venda às cegas da Cedae

Projeto não detalha valores e nem modelo de privatização. Governos dizem que não há 'plano B'


A estatal que opera a maior estação de tratamento de água do mundo e deixou de ser deficitária há quatro anos teria seu “Dia D” nesta terça-feira (14/02), quando deputados estaduais votariam o projeto de venda de suas ações, na Assembleia Legislativa do Rio. Na segunda (13/02), a votação foi adiada, sem que uma nova data tenha sido marcada. São meses de manifestações nas ruas, debates nervosos, greves de trabalhadores. A venda da Companhia Estadual de Águas e Esgotos (Cedae), fundada em 1975, está sendo posta na mesa como a única solução para que o Estado do Rio consiga R$ 3,5 bilhões de empréstimos da União e alivie seu caos financeiro. No entanto, o projeto de lei 2.345/2017 vem sendo tão bombardeado que é certo que a base legislativa de Luiz Fernando Pezão (PMDB) terá muitas dificuldades em aprová-lo – precisa de 36 votos. Deputados da oposição o consideram inconstitucional. Observam que o texto ignora questões cruciais, como o valor da venda e o modelo da privatização, tornando a alienação das ações um “voo cego”.
[g1_quote author_name=”Luiz Paulo Corrêa da Rocha” author_description=”Líder do PSDB na Alerj” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]Como o Rio vai contrair empréstimo se a sua capacidade de endividamento está explodida? Com receita corrente liquida de R$ 46,2 bilhões, o estado só pode tomar empréstimos de R$ 92 bilhões, mas já ultrapassou a casa dos R$ 105 bilhões
[/g1_quote]Líder do PSDB na Alerj, Luiz Paulo Corrêa da Rocha, que integra as comissões de Constituição e Justiça e Orçamento, está convencido de que a aprovação do projeto só ajudaria a piorar a situação do estado. Para ele, o empréstimo não resolveria os graves problemas financeiros e a Cedae tem uma importante função social que seria dinamitada caso passe a ser gerida por uma empresa privada.
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Veja o que já enviamos– Como o Rio vai contrair empréstimo se a sua capacidade de endividamento está explodida? Com receita corrente liquida de R$ 46,2 bilhões, o estado só pode tomar empréstimos de R$ 92 bilhões, mas já ultrapassou a casa dos R$ 105 bilhões. Além disso, o projeto contraria a Lei de Responsabilidade Fiscal, que diz que não se pode pegar empréstimo para pagar pessoal. Tem mais: e se o estado não consegue vender as ações? O dinheiro do Tesouro, garantia hipotética, não existe mais. É como alguém se comprometer com um salário de 2018, mesmo sem saber se estará no emprego até lá – critica o tucano, que encaminhou voto contrário por escrito. – A Cedae trabalha com uma tarifa social que beneficia mais 1,2 milhão de pessoas, em 900 comunidades. Isso não vai ser mais possível se ela for vendida. A empresa privada visa ao lucro. Há aspectos sociais relevantes que devem ser considerados.
Luiz Paulo argumenta que há sim, planos B, C e D. Ele cita a necessidade de se passar um “pente-fino” em todos os benefícios fiscais concedidos pelo governo do Rio a empresas e indústrias e a revisão da metodologia do calculo dos royalties sobre a produção do gás e óleo, pela Agência Nacional do Petróleo (ANP). Essas medidas, se aplicadas, poderiam converter R$ 2,9 bilhões aos cofres estaduais, calcula. O deputado não poupa críticas a Pezão:
– A saída do Estado é aumentar receita e diminuir despesa, não aumentar o empréstimo. Se um governador não tem plano B, C, D e E, a porta da rua é serventia da casa. Entrega o boné e passa a reponsabilidade.
[g1_quote author_name=”Jorge Picciani” author_description=”Presidente da Alerj” author_description_format=”%link%” align=”left” size=”s” style=”simple” template=”01″]O Rio está numa situação limítrofe: ou ele encontra um caminho com ajuda do governo federal, que é esta proposta do plano de recuperação fiscal, e traz paz, volta a pagar os servidores em dia e restabelece o nível nos serviços, ou nós teremos uma gravíssima crise social
[/g1_quote]O PSOL entrou com representações na Justiça do Rio para barrar a tramitação do projeto de lei. Não conseguiu. Carlos Minc (sem partido) engrossa o coro dos descontentes:
– A saída (para a crise) não será simples. Mas essa é ruim e ilegal.

“Vamos ao STF”, diz presidente de sindicato
Até agora, a única certeza do governo de Luiz Fernando Pezão e do Ministério da Fazenda é de que a venda das ações da Cedae é o único caminho possível para tirar o Rio do atoleiro. Nos jornais de sábado, dia 11 de fevereiro, o ministro da Fazenda Henrique Meirelles reforçou que não há alternativa. Mas a forma com que a cessão seria feita não foi discutida. A proposta prevê prazo de seis meses para que o Executivo contrate instituições financeiras para avaliar a empresa e modelar venda ou concessão da estatal. As incertezas abalam os pilares do moderno prédio da Cedae, na Avenida Presidente Vargas. Funcionários andam a beira de ataques de nervos. Em alguns momentos, o clima é de velório.
– Esse governo não tem moral para vender a Cedae. É uma empresa de rendeu R$ 88 milhões de dividendos ao estado, em 2016. Para que vender? Estamos fazendo nosso trabalho e vamos ao Supremo Tribunal Federal (STF) barrar esse absurdo – detona Humberto Lemos, presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Saneamento Básico e Meio Ambiente (Sintsama). – Quem mais vai sofrer com a privatização são as pessoas mais pobres. E o passivo trabalhista, quem paga é o estado. Você já viu alguma privatização na qual quem ficou com o “dinheiro podre” foi o capital privado? É só ver o caso do Banerj, do metrô, Conerj (Companhia de Navegação do Estado do Rio).
Nova greve de funcionários estava marcada para o dia da votação. Humberto afirma que o clima entre os funcionários da Cedae é de desespero.
– Com o machado sobre a cabeça, quem vai trabalhar? A galera está revoltada.
Patrimônio quintuplicou em 10 anos
Com mais de 99% de suas ações de propriedade do estado, a Cedae, criada quando houve a fusão dos estados do Rio e Guanabara, opera em 64 municípios e é constantemente criticada pela ineficiência de seus serviços, que chegam (pelo menos em parte) a 11,7 milhões de pessoas. Os próprios balanços financeiros da empresa mostram que a companhia opera com 86,95% de índice de fornecimento de água a prefeituras conveniadas, mas apenas 38,87% de atendimento de esgoto.
Mas se os avanços em esgotamento sanitário têm sido incrivelmente tímidos, a situação do caixa da empresa mudou bastante nos últimos anos. O patrimônio líquido, que representa a riqueza efetiva da empresa, avançou 417% em dez anos. Estava avaliado em R$ 5,69 bilhões em 2015 (em 2005, era de apenas 1,1 milhão). Em 2005, a estatal dava prejuízo de R$ 2 milhões, e a expectativa para o balanço de 2016 é de que o lucro líquido chegue a R$ 350 milhões. Em dez anos, as receitas operacionais avançaram mais de 80%, enquanto os custos subiram 29%.
Em 2015, a estatal lançou mão de um plano de demissões voluntárias, que resultou no corte de 937 funcionários. Hoje são 5.877, entre concursados e extraquadros. O passivo trabalhista ainda é gigantesco, mas a recuperação financeira da empresa foi fundamental para um empréstimo junto à Caixa, de R$ 3,4 bilhões, em 2012, para serem aplicados na ampliação do abastecimento na Baixada e na construção do novo sistema produtor de água tratada, o Complexo Guandu. O que acontecerá com esse empréstimo, em caso de venda da estatal, é outra questão nebulosa.
– Querem vender a Cedae por um capricho da União, que diz que os estados têm que se desfazer dos seus patrimônios. Se os patrimônios não tiverem função social e forem meros sugadores do Tesouro, tudo bem. Não é o caso da Cedae. Essa operação é inadequada e inoportuna. Antecipar receita com empréstimo é um suicídio – critica Luiz Paulo.
O presidente da Alerj, Jorge Picciani (PMDB), defende a aprovação da medida. Para ele, o projeto é fundamental para que o estado supere a crise econômica. Ao site da Alerj, Picciani afirmou que “o Rio está numa situação limítrofe: ou ele encontra um caminho com ajuda do governo federal, que é esta proposta do plano de recuperação fiscal, e traz paz, volta a pagar os servidores em dia e restabelece o nível nos serviços, ou nós teremos uma gravíssima crise social”.
O #Colabora procurou o líder do governo, Edson Albertassi (PMDB), que não retornou.
A Cedae em números
Funcionários 5.877
Clientes 11,7 milhões
Ativo total (em R$)
2005 – 5.031.625
2015 – 13.311.298
Patrimônio Líquido (em R$)
2005 – 1.101.195
2015 – 5.693.362
Lucro Líquido (em R$)
2005 – (-2.202.652)
2016 – 350.000.000 (estimativa)
Receitas operacionais (em R$)
2005 – 2.428.753
2015 – 4.475.447
Crescimento de 84,26%
Custos operacionais (em R$)
2005 – 2.671.169
2015 – 3.452.963
Crescimento de 29,6%
Livro dos Recordes – A Cedae entrou para o “Guiness Book” em 2007, por se detentora da maior unidade de tratamento de água do mundo: a do Guandu, localizada em Nova Iguaçu. O Guandu tem capacidade para tratar continuamente 43 metros de água por segundo, contando com processo convencional, composto por coagulação química, floculação, sedimentação, filtragem, desinfecção, e correção do pH. O sistema foi construído em 1955 e abastece 9 milhões de pessoas em oito cidades, incluindo o Rio de Janeiro.
Fonte: RELATÓRIOS DA ADMINISTRAÇÃO E DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS (2005 e 2015)
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Emanuel Alencar
Jornalista formado em 2006 pela Universidade Federal Fluminense (UFF), trabalhou nos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo, no qual ficou por oito anos cobrindo temas ligados ao meio ambiente. Editor de Conteúdo do Museu do Amanhã. Tem pós-graduação em Gestão Ambiental e cursa mestra em Engenharia Ambiental pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Apaixonado pela profissão, acredita que sempre haverá gente interessada em ouvir boas histórias.
Politicos deveriam se informar antes de praticarem a verborragia de sempre.
A Sabesp tem Tarifa Social sim. Empresa privada em regime de concessao nao visa pura e simplesmente o lucro….
Quer dizer entao que o Estado do Rio é exemplo de eficiencia em gestao? Serio? É SERIO???