Você pode até falar que eu só penso em comida. É verdade. Na infância cansei de ouvir a expressão “magra de ruim” (pena que no decorrer dos anos – e das garfadas – ela foi se perdendo). Desde cedo, entendi que a comida é capaz de revelar muito sobre alguém. Enquanto na casa dos amigos, uma refeição rápida, daquelas que você lança mão quando não tem praticamente mais nada na geladeira, era pão com ovo, lá em casa, a avó galega fazia tortilla. Salivo e sou capaz de sentir o sabor enquanto escrevo. A memória gustativa é poderosa como um bilhete de primeira classe na máquina do tempo. Afinal, quem não sente saudades da comidinha da mãe? Por isso vejo a gastronomia com carinho.
A comida conta sobre as suas origens, resgata tradições, transporta para países distantes e, principalmente, reúne pessoas. Pare para conversar com o Nicolás, com quem divido pratos vida afora, e ele fatalmente vai falar sobre os domingos em que a família se juntava ao avô italiano para fazer molho de tomate, num cozimento que levava horas. Porque o caminho antes de a comida chegar à mesa é longo – e é esse caminho que escolhemos percorrer na websérie “Brasil à Mesa”.
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Veja o que já enviamosNuma época em que a TV está inundada de realities shows gastronômicos e programas com chefs cobertos de glamour ensinando receitas às vezes impossíveis de se reproduzir, decidimos perguntar a eles quem são seus fornecedores. De onde veio a abobrinha que deixei pela metade no prato? E o que o restaurante vai fazer com a sobra? O que leva à concepção de um cardápio cheio de sobremesas com blueberries quando estamos em plena safra do caqui? A comida também pode ser sustentável. Ou não.
Ao longo de três anos escrevendo para a revista Prazeres da Mesa, uma das pessoas mais incríveis que tive a oportunidade de entrevistar foi o chef Andoni Luis Aduriz, do Mugaritz, na Espanha. Crítico e contundente, ele afirmou: “O ato de comer pode ser uma ação política. As decisões dos cozinheiros definem que ecossistemas serão preservados, que modelos de pesca e agricultura vão subsistir”. Glutona, eu me inquietei. Mas se, com a websérie “Brasil à Mesa”, conseguir compartilhar um pouco dessa inquietação, com certeza terei alcançado minha receita de sucesso.
Bom apetite!