Conta de luz poderia ser 25% menor se governo investisse em eficiência energética

Vista área da barragem de Furnas, em Minas Gerais. O Brasil é um dos países mais atrasados do mundo em termos de eficiência energética (Foto Douglas Magno/AFP. Julho/2021)

Estudo mostra que o Brasil é um dos países mais atrasados do setor e que a crise energética poderia ter sido minimizada

Por Agostinho Vieira | ODS 7 • Publicada em 13 de setembro de 2021 - 15:28 • Atualizada em 28 de setembro de 2021 - 09:05

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Vista área da barragem de Furnas, em Minas Gerais. O Brasil é um dos países mais atrasados do mundo em termos de eficiência energética (Foto Douglas Magno/AFP. Julho/2021)

A crise energética que bate à porta dos brasileiros não é efeito apenas da redução das chuvas e da demora do atual governo em acionar as térmicas para economizar água. Entre as grandes economias mundiais, o Brasil é um dos países mais negligentes em eficiência energética, um desperdício gigantesco que provoca perdas para o consumidor e torna a cadeia produtiva cada vez menos competitiva. Um estudo divulgado em 13 de setembro mostra que a conta de luz dos brasileiros, que aumentou cerca de 20% nos últimos 12 meses, poderia estar até 25% menor se o governo tivesse feito o seu dever de casa e investido em eficiência energética. Uma economia de cerca de R$ 30 por mês, o que daria para comprar, dependendo do mercado escolhido, um quilo de frango e uma dúzia de ovos.

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O levantamento organizado por cinco entidades da sociedade civil – Instituto Clima e Sociedade (ICS), Fórum de Energias Renováveis, Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), Mitsidi Projetos e Projetos Hospitais Saudáveis – revela ainda que esse aumento na eficiência representaria 25,3% dos 5.500 MW médios que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estima serem necessários para evitar o apagão.

Ou seja, diferentemente do que sugeriu o presidente Jair Bolsonaro, num dos raros momentos em que falou sobre crise energética, o brasileiro não precisaria “manter um ponto de luz apagado”. O ponto de luz não só poderia continuar aceso, como ainda custaria menos. Como lembrou Kamyla Borges, doutora em planejamento energético pela Unicamp, “a eficiência energética não tem a ver com consumir menos, mas com consumir melhor”. Para a especialista, que também faz parte do Instituto Clima e Sociedade, “o governo trava o desenvolvimento quando decide não investir em eficiência energética”.

Quando comparada com outros países, a posição do Brasil em termos de eficiência energética é ainda mais lamentável. Em nações desenvolvidas, a eficiência energética já é considerada uma fonte de energia, assim como a água, o sol, o vento e os combustíveis fósseis. Sua promoção é considerada fundamental para o crescimento do país. Por aqui, essa política foi terceirizada para as empresas distribuidoras de energia que têm pouco interesse em tratar do assunto. Um indicador que mostra bem essa diferença é a intensidade energética. Ele mede a relação entre produção de energia e crescimento do PIB. Se em 2010 o Brasil precisava de X MWs para ver a sua economia crescer 1%, hoje ele precisa de X MWs + 6,20%. No mesmo período, países como o México, os Estados Unidos, a Índia e a China ganharam eficiência e passaram a precisar de menos energia para ver o seu PIB crescer. Mais precisamente, menos 6,90% no México, menos 10,90% nos EUA, menos 11,60% na Índia e incríveis 22,10% a menos na China.

Vista de uma Usina Termelétrica em São Paulo. Após um reajuste de 7% em agosto, a energia pode subir mais que o dobro em 2022 (Foto Maurício Camargo/NurPhoto. Agosto/2021)

Para recuperar o tempo perdido, o documento das entidades sugere um conjunto de medidas a serem adotadas pelo governo. Começando pelas ações que são fundamentais para definir a eficiência energética como prioridade nas políticas públicas. Neste item está, por exemplo, a unificação de programas como o Selo Procel e a etiquetagem do Inmetro. Além da criação de um Fundo Gestor, a ser mantido com recursos das empresas distribuidoras.

Um segundo ponto é uma mudança imediata nos padrões mínimos de eficiência energética de aparelhos como o ar-condicionado e o refrigerador. O estudo sustenta que o ar-condicionado tende a se tornar um produto cada vez mais importante no consumo das famílias e que os níveis de eficiência precisam ser compatíveis com os melhores padrões mundiais. Aliás, por falar em padrões mundiais, a atual legislação prevê que o Brasil tem um prazo até 2031 para alcançar o nível de eficiência dos países em desenvolvimento e não o dos países desenvolvidos. Rumo ao atraso.

Por fim, a proposta sugere a retomada do horário de verão, que poderia representar uma economia de 2% a 3%, e a inclusão da eficiência energética e da geração distribuída nos próximos leilões de capacidade. Além da realização de leilões de eficiência energética, especialmente o de Roraima, que está planejado há três anos e até hoje não saiu do papel. Para o físico José Goldemberg, um dos revisores do trabalho, o Brasil precisa parar de pensar em energia apenas do ponto de vista da oferta, com grandes obras, equipamentos caros e até alguns casos de corrupção. Há muito o que ser feito na área da eficiência energética, mas para isso é preciso ter um pouco mais de eficiência na gestão do país. E neste capítulo, infelizmente, estamos cada vez mais próximos de um apagão.

Agostinho Vieira

Formado em Jornalismo pela Escola de Comunicação da UFRJ. Foi repórter de Cidade e de Política, editor, editor-executivo e diretor executivo do jornal O Globo. Também foi diretor do Sistema Globo de Rádio e da Rádio CBN. Ganhou o Prêmio Esso de Jornalismo, em 1994, e dois prêmios da Society of Newspaper Design, em 1998 e 1999. Tem pós-graduação em Gestão de Negócios pelo Insead (Instituto Europeu de Administração de Negócios) e em Gestão Ambiental pela Coppe/UFRJ. É um dos criadores do Projeto #Colabora.

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