Silenciada pela história oficial, a participação das mulheres foi e continua sendo fundamental nos episódios de sucesso da luta pela preservação da Amazônia e pelos direitos dos extrativistas nas últimas décadas. De um movimento cujo expoente maior continua sendo Chico Mendes, surgiram lideranças femininas que, enfrentando o machismo de seus pares, ajudaram tanto a frear as motosserras usando o próprio corpo quanto a impulsionar políticas públicas importantes para a região.
Ângela Mendes, filha mais velha do seringueiro e sindicalista Chico Mendes. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace
A ocupação intensiva na Amazônia por fazendeiros, estimulada pelo governo militar a partir da década de 1970 sob o lema “Ocupar para não entregar”, colocava em risco os seringais do Acre e a subsistência de milhares de famílias que viviam da coleta de borracha e castanha.
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Quando falamos de mulheres da Amazônia, falamos de mulheres empoderadas também. Elas não queriam apenas participar dos ‘empates’, mas sim liderá-los
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Para frear o avanço do desmatamento que dava lugar à criação de gado, os trabalhadores, liderados por Chico Mendes, começaram a se organizar através da sindicalização e dos tradicionais “empates”. Nos empates, os seringueiros se colocavam entre as árvores e os tratores e motosserras de modo a impedir a derrubada da floresta. Mulheres e crianças geralmente ficavam na linha de frente, para fazer com que os jagunços e policiais armados parassem.
“Acreditávamos que, na gente, talvez eles não atirassem”, conta Leide Aquino, 52 anos, que participou dos empates em Xapuri, no Acre, ao lado de Chico Mendes. Ela entrou na luta aos 22 anos levando seu filho de 1 no colo. Seu companheiro, Júlio Aquino, já era membro do sindicato dos trabalhadores rurais da cidade.
Ao contrário dos fazendeiros, que tinham apoio do governo e contavam com a força policial, os seringueiros não tinham nenhuma proteção oficial. “Só tínhamos nossa coragem e união, organização e disciplina”, lembra Leide.
Para Ângela Mendes, coordenadora do Comitê Chico Mendes, as mulheres tiveram papel essencial nos empates. “Quando falamos de mulheres da Amazônia, falamos de mulheres empoderadas também. Elas não queriam apenas participar dos empates, mas sim liderá-los”, disse a filha do líder seringueiro no evento que marcou os 30 anos do assassinato do pai, em dezembro.
Dilva Araújo, 43 anos, em 2017, no Igarapé do Inferno onde costumava pescar quando criança e onde hoje o peixe é escasso. O igarapé fica na comunidade de Repartimento dos Pilões, no Pará. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace.
A liderança feminina, no entanto, ainda era incipiente. “Não éramos nós que tínhamos a palavra principal, eram os homens, como ainda é hoje. Éramos colocadas como escudo, mas deu certo porque eles nunca atiraram na gente”, conta Leide, que cita a batalha do Seringal Cachoeira, em Xapuri, como a mais dolorosa, pelo longo período de vigília imposto às famílias – foram 30 dias de sufoco. “A gente não podia ir em casa e quase não dormíamos por medo de sermos atacadas”.
Dercy Teles de Carvalho, ex-presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Xapuri, concorda. “As mulheres na verdade eram usadas como ‘bucha de canhão’. Os seringueiros as levavam com os filhos no colo para a polícia e os pistoleiros pensarem duas vezes antes de fazer o disparo, para sensibilizá-los. Politicamente elas não exerciam nenhum papel de decisão”, conta.
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As mulheres na verdade eram usadas como ‘bucha de canhão’. Os seringueiros as levavam com os filhos no colo para a polícia e os pistoleiros pensarem duas vezes antes de fazer o disparo, para sensibilizá-los. Politicamente elas não exerciam nenhum papel de decisão
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Nas décadas de 1970 e 1980, o machismo era ainda mais forte do que hoje na região. Apesar de ser vista como uma tática eficaz para frear os fazendeiros, nem todas as esposas eram autorizadas a se unir aos empates. O próprio Chico Mendes não gostava que Ilzamar Bezerra, sua companheira e mãe de dois de seus filhos, Elenira e Sandino, se envolvesse na luta. Por isso, ela não participava sequer das reuniões do sindicato. A antropóloga Mary Allegretti, amiga e parceira de Chico na luta pela preservação da floresta, o acusava de ser machista.
“Chico dizia: sou nordestino, não quero, não gosto e ela não vai”.
Chico assumia seu machismo e dizia que iria mudar, mas o fato é que Ilzamar nunca saiu de casa. Se tivesse se tornado uma militante ativa, talvez as coisas teriam sido diferentes após o assassinato de seu marido, em 1988.
“Ilzamar poderia ter dado continuidade ao trabalho de Chico porque tinha tudo para isso, apoio financeiro, moral e emocional. Mas faltou formação política para tocar a luta”, diz Dercy, ela mesma uma exceção de liderança feminina entre os extrativistas daquela época.
Formação política
Leide afirma que participar dos empates foi o ponto de partida para as mulheres se engajarem na luta sindical. Já Dercy atribui esse papel à Igreja Católica. Foi por influência de Dom Moacir e de outros padres de Xapuri, todos membros da Teologia da Libertação, que ela virou militante aos 24 anos e teve força para lidar com a resistência dos homens. De delegada sindical em 1978, foi eleita presidente do sindicato da cidade três anos depois.
“O respeito dos padres por mim me ajudou a ter uma votação expressiva. A Igreja foi fundamental tanto para quebrar o paradigma do machismo quanto na formação política das lideranças”.
Sendo a única mulher entre 21 presidentes de sindicatos de trabalhadores rurais do Acre, Dercy, hoje com 64 anos, precisava contornar o assédio que sofria. Nas reuniões da Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), volta e meia ela sentia pés passando por suas pernas debaixo da mesa. “Quando isso acontecia, eu levantava, tomava um copo d’água, mudava de assento”, relata Dercy, que não denunciava a má conduta dos colegas porque na época não havia nenhum órgão de proteção à mulher. Se falasse alguma coisa, diriam que a culpa era dela.
Para Dercy, que soma três mandatos à frente do sindicato, o papel de construção crítica exercido pelos padres foi esvaziado após a morte de Chico Mendes e, por isso, o envolvimento das mulheres passou por um período de estagnação. Durante sua gestão entre 2006 e 2013, ela conseguiu aumentar para 55% a representatividade feminina na direção do sindicato, mas isso não garantia uma participação plena. Ela diz que usou diversas estratégias para que as mulheres se destacassem, tendo êxito com apenas duas. As demais davam suporte com presença, mas não abriam a boca nas reuniões. Para ela, ainda hoje falta liderança para que as mulheres tenham uma formação mais crítica. “Alguém que tenha credibilidade, como a Igreja tinha”.
Dercy Teles de Carvalho, 64 anos, primeira mulher a ser presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Xapuri, nos anos 70, na casa que mantém em Xapuri. Foto Marizilda Cruppe/Greenpeace.
A luta continua
As mulheres que conquistaram protagonismo no movimento extrativista sabem que o fato de ocuparem cada vez mais espaços de decisão na defesa dos povos da floresta é fruto de muito suor. Em alguns lugares, foi preciso esperar bastante tempo para que uma mulher assumisse a presidência de um sindicato – 40 anos, no caso do município de Brasiléia, hoje comandado por Francisca Bezerra. Atualmente, o movimento sindical do Acre reconhece a importância da igualdade de gênero.
Para Leide Aquino, o momento é de se reorganizar para tentar impedir a retirada de direitos conquistados nas últimas décadas. Com um cenário de desmonte de políticas públicas à vista com o governo de Jair Bolsonaro, ela diz que as mulheres serão as mais impactadas, porque perderão em dobro. “Conquistar um direito e perdê-lo é muito mais perverso do que nunca tê-lo acessado”.
Para ela, seja através de empates ou outras formas de resistência, é preciso tentar de todas as formas pautar aquilo que interessa em defesa dos povos da floresta. “A gente passou muito tempo relaxada. Agora é o momento de retomada do movimento sindical, ambiental e das mulheres”, diz Lei.
Em diferentes regiões da Amazônia, mulheres se tornaram motivo de orgulho para o movimento extrativista. Dona Raimunda dos Cocos, falecida em novembro do ano passado, foi uma das maiores lideranças rurais do país. Seu trabalho com quebradeiras de coco babaçu no assentamento Sete Barracas, em São Miguel do Tocantins, lhe rendeu reconhecimento mundial – ela chegou a integrar a lista internacional das mil mulheres que concorreram ao prêmio Nobel da Paz em 2005.
Outras lideranças femininas despontam, como Dilva Araújo, 43 anos, que em 2014 se viu na linha de frente de um empate para frear a derrubada de castanheiras na comunidade Repartimento dos Pilões, em Almeirim, oeste do Pará. Em protesto contra a empresa Jari Celulose, 40 famílias ocuparam a área que seria usada para extração de madeira e acabaria com a principal fonte de renda daquelas pessoas. Era dezembro e não havia como recorrer às autoridades. Só restava aos extrativistas usarem o próprio corpo para barrar a entrada das máquinas.
“Só fiquei sabendo que o que tínhamos feito era um empate quando um jornalista me perguntou se havíamos nos inspirado em Chico Mendes. Só sabia que estávamos com medo de perder nossos castanhais”, conta Dilva, que se tornou a porta-voz da comunidade e atualmente é vice-presidente da associação local.
Após 45 dias, uma decisão judicial proibiu a Jari Celulose de extrair madeira dos castanhais. A área está embargada até hoje, aguardando decisão definitiva, mas Dilva não se intimida: “A luta está apenas começando”.
Jornalista com mais de 10 anos de experiência em reportagem, edição, assessoria de imprensa e audiovisual, trabalha atualmente no Greenpeace, em Brasília. É formada pela UERJ e Mestre em Jornalismo, Mídia e Globalização pelas Universidade de Aarhus (Dinamarca) e City University, em Londres. Dirigiu o documentário “Igatu, caminhos de pedras”, vencedor do prêmio de melhor reportagem ambiental no V FestCine Amazônia em 2007. Meio ambiente, feminismo e direitos dos animais são os temas que mais lhe interessam.
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